Texto de em 09 de Março de 2017 . Nenhum comentário.

texto: Rafael Antunes
colagem: Nina Zambiassi

Acontece que nunca nos damos conta de que este ou aquele são nossos primeiros passos rumo a um horizonte que chegará para ninguém. E com essa distração deixamos de imaginar que o barco no qual planejamos escrever a nossa história poderia nos afundar o destino.

Nós e o barco. À mercê das ondas, sincronizados pela solidão d’um ir-e-vir-com-rumo-algum na eternidade do mar.

Desde o dia em que embarcamos juntos, estivemos convencidos da utilidade alguma dos remos, que ganharam o esquecimento dos dias que se vieram. As ondas estariam encarregadas de nos desaguar em um céu todo nosso que, ai, será, existiu?

Uma dúvida que sequer aflige. Falo ai por poesia. Podemos até demorar (se é que é possível estarmos atrasados em relação a algo na vida), mas em algum momento nos damos conta de que o cosmo se explica a ninguém. A história nada se importa em justificar os nossos erros. As pontas que deixamos de amarrar permanecerão soltas na eternidade-finita da nossa existência, que se apaga na mesma tranquilidade com que a areia da praia seca quando a maré recua.

Pode ser que a sua ausência doa daqui em diante. Ou até me falte a paz para apreciar o apagar da nossa estrela que brilha no céu concretizado um tanto além do horizonte que se alcança nunca.

Nossa história seria escrita à deriva de um mar navegado por ninguém. Um mar deserto, de rotas ausentes. Fomos convencidos de que o amor em nosso barco poderia atracar em porto algum.

Nossas pegadas juntas, passageiras, jamais deixaram marcas na areia que conta histórias-instantes.

Imprudentemente deixamos de lado a necessidade da tranquilidade de um canto nosso. Convencidos de que o ir-e-vir-sem-rumo era a nossa história. Uma história com tanto ontem que hoje já sei quase nada.

Atracado nesse hoje com a sua lembrança, alcancei uma praia repleta de toda aquela calmaria do mar dos nossos primeiros dias à deriva. O mesmo mar que engoliu os remos e a nossa história.

Sozinho aqui, tento todos os dias escrever a nossa história na mesma areia que pisamos nunca, com o mesmo galho, à beira do mesmo mar que decide até onde escrevo. Quando se dá por satisfeito, ele começa a subir e a apagar minhas lembranças suas, me deixando avançar com nossa memória conforme a vontade de cada dia.

Minha esperança é de que algum dia ele me deixe escrevê-la até que consigamos atracar na praia de águas calmas e claras que um dia tanto sonhamos para o nosso fi