Náufragos 0 70

texto: Rafael Antunes
colagem: Nina Zambiassi

Acontece que nunca nos damos conta de que este ou aquele são nossos primeiros passos rumo a um horizonte que chegará para ninguém. E com essa distração deixamos de imaginar que o barco no qual planejamos escrever a nossa história poderia nos afundar o destino.

Nós e o barco. À mercê das ondas, sincronizados pela solidão d’um ir-e-vir-com-rumo-algum na eternidade do mar.

Desde o dia em que embarcamos juntos, estivemos convencidos da utilidade alguma dos remos, que ganharam o esquecimento dos dias que se vieram. As ondas estariam encarregadas de nos desaguar em um céu todo nosso que, ai, será, existiu?

Uma dúvida que sequer aflige. Falo ai por poesia. Podemos até demorar (se é que é possível estarmos atrasados em relação a algo na vida), mas em algum momento nos damos conta de que o cosmo se explica a ninguém. A história nada se importa em justificar os nossos erros. As pontas que deixamos de amarrar permanecerão soltas na eternidade-finita da nossa existência, que se apaga na mesma tranquilidade com que a areia da praia seca quando a maré recua.

Pode ser que a sua ausência doa daqui em diante. Ou até me falte a paz para apreciar o apagar da nossa estrela que brilha no céu concretizado um tanto além do horizonte que se alcança nunca.

Nossa história seria escrita à deriva de um mar navegado por ninguém. Um mar deserto, de rotas ausentes. Fomos convencidos de que o amor em nosso barco poderia atracar em porto algum.

Nossas pegadas juntas, passageiras, jamais deixaram marcas na areia que conta histórias-instantes.

Imprudentemente deixamos de lado a necessidade da tranquilidade de um canto nosso. Convencidos de que o ir-e-vir-sem-rumo era a nossa história. Uma história com tanto ontem que hoje já sei quase nada.

Atracado nesse hoje com a sua lembrança, alcancei uma praia repleta de toda aquela calmaria do mar dos nossos primeiros dias à deriva. O mesmo mar que engoliu os remos e a nossa história.

Sozinho aqui, tento todos os dias escrever a nossa história na mesma areia que pisamos nunca, com o mesmo galho, à beira do mesmo mar que decide até onde escrevo. Quando se dá por satisfeito, ele começa a subir e a apagar minhas lembranças suas, me deixando avançar com nossa memória conforme a vontade de cada dia.

Minha esperança é de que algum dia ele me deixe escrevê-la até que consigamos atracar na praia de águas calmas e claras que um dia tanto sonhamos para o nosso fi

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Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”