dispersividade digital 0 2147

é um passeio entre livros (não li), entregas pelo correio, loções pós-barba, bebês fofinhos. uma jornada através de printscreens com players (músicas que nunca ouvi) e monitores com textos e mais textos (nunca lerei). são famílias (outras), países (desconheço) e gente usando uniformes de times (não o meu). notas de dinheiro, brindes, #ads. belos cabelos coloridos (me falta a coragem), nhoque orgânico, trânsito, caminhadas em pores-do-sol (aqui só chove). um gato se refestela num raio de dia, doces lindos (nunca vi e devem ser um pesadelo para diabéticos). arte bonita (não entendi mas gostei), artesanato (não gostei). um rapaz faz um solo de guitarra (jamais tocarei) enquanto um time de futebol (dessa vez o meu) termina os treinamentos para a próxima batalha (vai perder). uma escritora local (pouco li) é laureada. coisas estranhas e coisas mais estranhas (ainda não vi). voluntários (nunca fui) ajudam necessitados (também não fui). tatuagens ficam prontas (histórias que não vivi) e depois tatuadores dão voltas com seus animaizinhos (não tenho).

é um passeio entre cinzas de cigarros, entre cafés chiques, entre vinhos caros e pizzas (não provei). entre fotos de museus (não visitei) e telas de pinturas (não estão prontas). uma viagem por entre cervejas (gostaria mas não bebi), entre terminais de ônibus, pessoas sonolentas e plantas suculentas.

 

de quantas histórias precisamos para focar em nossas próprias?

 

 

por Rômulo Candal

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Chegada 0 1275

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai

Vida comum parte 1 0 796

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.