dispersividade digital 0 11

é um passeio entre livros (não li), entregas pelo correio, loções pós-barba, bebês fofinhos. uma jornada através de printscreens com players (músicas que nunca ouvi) e monitores com textos e mais textos (nunca lerei). são famílias (outras), países (desconheço) e gente usando uniformes de times (não o meu). notas de dinheiro, brindes, #ads. belos cabelos coloridos (me falta a coragem), nhoque orgânico, trânsito, caminhadas em pores-do-sol (aqui só chove). um gato se refestela num raio de dia, doces lindos (nunca vi e devem ser um pesadelo para diabéticos). arte bonita (não entendi mas gostei), artesanato (não gostei). um rapaz faz um solo de guitarra (jamais tocarei) enquanto um time de futebol (dessa vez o meu) termina os treinamentos para a próxima batalha (vai perder). uma escritora local (pouco li) é laureada. coisas estranhas e coisas mais estranhas (ainda não vi). voluntários (nunca fui) ajudam necessitados (também não fui). tatuagens ficam prontas (histórias que não vivi) e depois tatuadores dão voltas com seus animaizinhos (não tenho).

é um passeio entre cinzas de cigarros, entre cafés chiques, entre vinhos caros e pizzas (não provei). entre fotos de museus (não visitei) e telas de pinturas (não estão prontas). uma viagem por entre cervejas (gostaria mas não bebi), entre terminais de ônibus, pessoas sonolentas e plantas suculentas.

 

de quantas histórias precisamos para focar em nossas próprias?

 

 

por Rômulo Candal

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a mente enquanto objeto quebradiço 0 14

I

 

a noite aqui fora tá um pouco opressiva, graças ao bafo úmido que levanta do asfalto depois dessas chuvas de verão. passa pouco das oito da noite e eu mando um zap pra Cíntia, ver se ela precisa de algo em casa. “Traz um pão de azeite de oliva pra mim”, ela pede num áudio. quase envio uma mensagem perguntando onde encontrar um negócio tão específico, mas assim que olho pra frente me deparo com um local metido a besta, o típico estabelecimento que venderia pão de azeite de oliva. nunca vi esse prédio. entro, o lugar é descolado, projetado pra ricos moderninhos. uma espécie de galpão abandonado, de pé direito alto e arquitetura estranha, com várias lojas e restaurantes que ficam nas paredes, pelas quais o cliente passeia usando rampas. roupas, massas, eletrônicos, brinquedos artesanais. tipo um shopping pra quem quer se sentir integrado à região mas sem correr riscos.

um conjunto formado por vozes masculinas e femininas, flautas e percussões está distribuida ao longo do térreo e toca uma música em tom menor, bem bonita, lindíssima. é emocionante. choro um pouquinho e sinto uma vontade inexplicável de comprar romãs. peço por romãs, não as encontro, mas de rolê pelo galpão sou abordado por uma senhora, sentada num café afetado. “Psiu. Você quer romãs? Eu sei onde tem”, ela fala, feito gato, e me estica um cartão pessoal com nome que nem leio. “Lá perto de casa as romãzeiras estão carregadíssimas”, mia. sorri.

 

II

 

quando noto, estou descendo de um carro. percurso curto, que rua é essa? a velha me convence a entrar na casa porque precisa avisar qualquer coisa pra filha antes de me mostrar onde acho romãs. ela tem um desenho excêntrico, me deixa confuso, como se um sorrisinho malicioso estivesse grudado pra sempre em um rosto antigo e marcado por muitas mudanças. o cabelo platinado, quase branco. ela começa a falar estranho comigo, “Nossa, você é muito lindinho”, pergunta meu nome, respondo “Paulo. Paulo Braga”. meu nome não é Paulo e meu sobrenome não é Braga e eu não entendo mais o que estou fazendo. a senhora me pede licença e sai do cômodo e nisso a filha entra. igual, mas o cabelo é preto e o rosto é jovem. começa a fazer perguntas inúteis, ela também fala miando. “De onde você é?”, questiona, respondo “Minas”, mas eu não sou de Minas. “Ai, que fofo! Que bom que você vai vir pra cá, passar sotaque pra minha mãe”.

vir pra cá? passar sotaque? do que essa moça tá falando? explico que na verdade sou gaúcho, de Pelotas, e nada muda na dinâmica da conversa. tento me distrair pensando em quando vou finalmente comer as romãs, mas o cômodo tem um ar estranho, um perfume me sufoca e confunde. enquanto a jovem mia bobagens e amenidades, tiro o celular do bolso e jogo no Google o nome da coroa, que copiei do cartão. nome diferente, nunca li nada assim. “Que línguas você fala?”, ela, “Inglês e espanhol”, eu, “Ótimo, mamãe fala muitas outras, já podem viajar bastante”. o clima não tá legal, eu não quero viajar com ninguém, eu fico tenso, o 4G não funciona direito. “Mamãe teve vários homens mas nenhum nunca deu certo. Acho que nenhum estava realmente pronto, sabe? E sempre acabam sumindo, hehe”.

 

III

 

fito a tela. a busca está completa. leio os resultados.

 

travo.

congelo.

 

IV

 

reúno forças e levanto e percebo a velha de volta ao quarto. sorrisinho, vestido e véu vermelho-sangue, quase flutua. penso em correr, mas um miado calmo soa como se viesse por toda parte, formando palavras que mais soam como portas que se fecham.

 

“Aonde é que você pensa que vai? Você fica. Você não vai a lugar nenhum”.

 

 

 

 

 

texto do Rômulo Candal

visual do Marco Antonio

Bairro Alto 1 2

Carla olha pela janela do ônibus e pensa que odeia o inverno. Ela odeia o inverno não pelos seus efeitos, mas pela sua essência. Na verdade, ela adora dormir envolta em incontáveis cobertores, vestir pesados casacos, comer pinhão, principalmente daqueles que ela e os pais recolhem quando as pinhas despencam da araucária no terreno baldio da rua, tomar sopa, chocolate quente, chimarrão. Basicamente, tudo lhe parece mais gostoso no inverno. Ainda assim, ela o odeia.

“Paaai! Eu tive um sonho ruim.”

Quando pequena, era comum que despertasse durante a noite, perturbada pela solidão, pelo escuro e por criaturas que poderiam ou não existir. Carla jamais dizia “pesadelo”. Pensava que se o fizesse, seu “sonho ruim” se tornaria de alguma forma mais real, ou mais perene. Seu pai ou sua mãe se deitavam a seu lado até que ela dormisse, e os fantasmas que habitam os sonhos ruins partiam. Crianças têm medo de fantasmas, fantasmas têm medo de adultos, era o pensamento que a tranquilizava.

Para Carla, o inverno tem muito pouco a ver com as baixas temperaturas. As estações têm relação apenas com o ângulo de incidência do sol na terra. Ela odeia que a luz chegue obliquamente, porque anoitece mais cedo e, mesmo quando lhe toca o turno da tarde no trabalho, ela precisa caminhar no escuro as duas quadras que separam a parada de ônibus de sua casa, a mesma em que vive desde a infância.

O ônibus avança e Carla repara nas sombras e como elas mudam de forma e tamanho. As mesmas sombras que irão persegui-la naqueles 300 metros até o portão de casa. Ela tem vontade de encarar o medo bem nos olhos e dizer que dessa vez não, que ela o viu chegar primeiro e hoje não se assustará. Mas não consegue, prefere fingir que o medo não existe. Quem sabe assim ele deixa mesmo de existir.

“Mãnhê, eu descobri um jeito de não ter medo de noite!”

Aos cinco anos, Carla já se considerava grande demais para dormir com seus pais, até se perguntava o que seus colegas pensariam se soubessem que, à noite, ela os chamava e que eles se deitavam consigo até que ela pegasse no sono. Por isso, na manhã do dia em que desenvolveu o método para se proteger das garras sombrias que estavam sempre à espreita, a menina estava mais falante do que nunca. Queria explicar ponto a ponto que quando ela se cobria a cabeça, os monstros não podiam tocá-la, como se assim ela mergulhasse tão profundamente no escuro, que ficava longe de qualquer ameaça.

Ela olha ao redor do ônibus, procurando a garota que trabalha na loja de roupas do shopping e que vive algumas casas à frente. Curitibanos não sabem o nome de seus vizinhos, é verdade, mas entre as duas há aquela cumplicidade que só se desenvolve entre duas pessoas que enfrentam e vencem batalhas juntas. Quando a menina está no ônibus, Carla para diante de sua casa e se demora, faz de conta que procura na bolsa a chave do cadeado (o portão está sempre aberto, para que ela não precise se preocupar com isso), até que a companheira esteja segura. De qualquer forma, hoje Carla terá de fazer o trajeto sozinha.

Aos 30 anos já não pode se dar o luxo de inventar um método mirabolante que magicamente a proteja. Só pode contar com suas pernas para correr se percebe a presença de um homem desconhecido naquelas duas quadras que o inverno transformou em penumbra antes mesmo das 7 da tarde. O ônibus faz a conversão à esquerda para entrar no bairro, enquanto ela se levanta para solicitar a parada no próximo ponto.

Ela desce os degraus e tenta se convencer de que não há risco algum. Carla se lembra das inúmeras reuniões do grupo de discussão de gênero. Ela sabe que a maior parte das violações sexuais são cometidas por conhecidos, normalmente algum parente próximo, e não por estranhos em becos escuros. É inútil, as pernas tremem a cada passo.

São apenas duas quadras. A teoria da relatividade diz que tempo e espaço são relativos, e podem se contrair ou se expandir. Ela quase ri ao pensar que os homens mais ilustrados da história levaram séculos de observação para perceber um fenômeno que qualquer mulher vive diariamente.

“Boa noite. Durma bem. Te amo. Até logo.”

Era assim que a pequena Carla se despedia dos pais quando eles iam a sua cama desejar-lhe boa noite. Ela não queria que eles fossem embora, e “tchau” parecia uma expressão muito definitiva. Às sete horas e cinquenta e nove minutos da manhã ela se levantava e descia as escadas para encontrar os pais tomando café. Tomava o seu com leite e açúcar, convencida de que essa cena se repetia graças à força daquela profecia: “Até logo.”

À medida em que se aproxima do destino, seus passos ganham segurança. Não quer que os pais saibam que ela ainda é a mesma garota assustada que fora quando criança. Quando chega, alcança flagrar o rosto da mãe na janela, escondendo-se atrás da cortina. Ato contínuo, seu pai abre a porta e acende as luzes exteriores. Esta noite, todos dormem bem.

Ilustração: Talitta Reitz