Boate Bizz 0 359

Quando a música parou, o gordo atrás do balcão gritou: “um anjo passou por aqui!”. Todos deram risada, incrédulos de que o fenômeno sobrenatural fosse possível, mas desconfiados pelo som ter parado subitamente: era nítido que o silêncio dos instrumentos e dos microfones não havia sido intencional. Os músicos se olharam com ar de desconfiança, procurando uns nos outros a razão daquela pausa inesperada. Os olhos perdidos nada respondiam. Permaneceram calados até que o baixista foi atrás das caixas de som conferir o que tinha acontecido.

Depois de mexer em algumas conexões, o som voltou e a banda continuou. No lusco-fusco daquele galpão de teto baixo, era quase impossível enxergar quem estava na plateia e, do palco, apenas vultos em contraluz eram reproduzidos. O quarteto continuava a apresentação e o som ficava cada vez mais alto. Em certo momento de intensa emoção, os tímpanos pareciam estar explodindo e todos sentiram muita dor. Após o violento ápice sonoro, ficaram tontos, sentaram no chão e levantaram, taparam as orelhas com as palmas das mãos e com as pontas dos dedos apertavam a cabeça. A qualquer momento, sangue escorreria dos ouvidos.

Desta vez, o baterista foi quem correu com passos inseguros até os plugues e arrancou todos com as últimas forças, então caiu no chão com a mão agarrada aos cabos. Quando o som parou, quase todos estavam permanentemente surdos. Em desespero, caminharam para o jardim e inutilmente faziam pequenos testes para conferir se haviam retomado a audição. Havia esperança de que aquela experiência desastrosa apenas tivesse efeitos colaterais temporários. Mas era em vão. Os que ainda conseguiam ouvir um pouco, eram atormentados por um zumbido agudo e tão constante que desejavam ter ficado completamente surdos.

Deixaram o clube com passos lentos, vagando pelo velho Centro e as ruas de pedra. Fantasmas aterrorizados. “Pegue sua pá e comece a cavar”, gritava o velho gordo suicida que poucos minutos antes estava atrás do balcão. Berrava mesmo sabendo que ninguém poderia compreendê-lo.

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Vida comum parte 1 0 107

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Uma tentativa de eternidade 0 669

Estas linhas são sobre o momento em que o sol se lançou corajoso no abismo do horizonte de ontem. Carregava consigo a invejável certeza de que teria forças para regressar pelo lado de lá. É sobretudo uma daquelas tentativas de promover o efêmero à eternidade –  com algo de poesia.

Um olhar descolorido poderia até dizer que o sol sequer saiu do lugar, que nós é que feito mariposas ofuscadas giramos em torno da lâmpada, sem nos importarmos com um pra-onde-ir.

Verdade é que nunca nos preocupamos com as coisas como de fato são. Queremos apenas classificá-las de acordo com nossas percepções. Se sentei aqui, foi para escrever sobre o que senti ao ser tragado pelo vazio da noite de ontem, que sequer-um-abraço.

Em momento algum nos deixamos avisar pela vida sobre o que ela pretende de nós. Se nos detemos diante do orvalho na flor, é pela nossa necessidade de um suspiro n’alma. Queremos o sorriso da criança para o nosso deleite. Não nos importamos com a felicidade que ali brotou.

Sentimos o mundo à nossa disposição, sem nos darmos conta de que somos apenas mais uma alegoria na beleza de uma grandiosidade que nos foge à compreensão. Algo que já foi Deus. Que hoje é mistério. E que amanhã estará passível de uma nova interpretação.

Algo que tentaremos eternizar, com a mesma eficácia com que buscamos absorver a vida que nos envolve por esses dias em que a noite absorve o sol. E que passam. Um a um.

texto: Rafael Antunes
colagem: Katia Villagra