Boate Bizz 0 328

Quando a música parou, o gordo atrás do balcão gritou: “um anjo passou por aqui!”. Todos deram risada, incrédulos de que o fenômeno sobrenatural fosse possível, mas desconfiados pelo som ter parado subitamente: era nítido que o silêncio dos instrumentos e dos microfones não havia sido intencional. Os músicos se olharam com ar de desconfiança, procurando uns nos outros a razão daquela pausa inesperada. Os olhos perdidos nada respondiam. Permaneceram calados até que o baixista foi atrás das caixas de som conferir o que tinha acontecido.

Depois de mexer em algumas conexões, o som voltou e a banda continuou. No lusco-fusco daquele galpão de teto baixo, era quase impossível enxergar quem estava na plateia e, do palco, apenas vultos em contraluz eram reproduzidos. O quarteto continuava a apresentação e o som ficava cada vez mais alto. Em certo momento de intensa emoção, os tímpanos pareciam estar explodindo e todos sentiram muita dor. Após o violento ápice sonoro, ficaram tontos, sentaram no chão e levantaram, taparam as orelhas com as palmas das mãos e com as pontas dos dedos apertavam a cabeça. A qualquer momento, sangue escorreria dos ouvidos.

Desta vez, o baterista foi quem correu com passos inseguros até os plugues e arrancou todos com as últimas forças, então caiu no chão com a mão agarrada aos cabos. Quando o som parou, quase todos estavam permanentemente surdos. Em desespero, caminharam para o jardim e inutilmente faziam pequenos testes para conferir se haviam retomado a audição. Havia esperança de que aquela experiência desastrosa apenas tivesse efeitos colaterais temporários. Mas era em vão. Os que ainda conseguiam ouvir um pouco, eram atormentados por um zumbido agudo e tão constante que desejavam ter ficado completamente surdos.

Deixaram o clube com passos lentos, vagando pelo velho Centro e as ruas de pedra. Fantasmas aterrorizados. “Pegue sua pá e comece a cavar”, gritava o velho gordo suicida que poucos minutos antes estava atrás do balcão. Berrava mesmo sabendo que ninguém poderia compreendê-lo.

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maculada 0 200

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”