Futuro do pretérito 0 454

A pessoa mais bonita do mundo tem cor de amora, cheiro de mimosa e sabor de café. Isso pensava Gonzalo enquanto tocava pela última vez a campainha do número 157 da Rua Washington Luiz. Dora, a zeladora do edifício, fez questão de encontrá-lo na porta para lhe dizer que ela, a pessoa mais bonita do mundo, havia se mudado sem deixar direções.

Dora era uma senhora em torno de seus sessenta anos, vinha desses estados do interior onde há mais bicho que gente. Gostava em particular de Gonzalo porque com frequência ele lhe ajudava a carregar o lixo e sentia que essa notícia o destroçaria, no que estava correta. Pensava ainda que ela seria capaz de amenizar a situação, no que estava enganada. Tentou dizer-lhe que essas coisas acontecem e profetizou que tinha certeza que eles voltariam a se encontrar, sem prova nem convicção.

Por bem intencionada que fosse, a postura de Dora deixou Gonzalo ainda mais confuso. Ao tocar aquela campainha, esperava escutar a voz da pessoa mais bonita do mundo, dizendo-lhe que subisse àquele apartamento tão cheio de lembranças. Quando em vez disso se deparou com a presença da zeladora atribuiu-lhe muito mais autoridade do que ela tinha de fato. Com a voz trêmula perguntou Mas por que não me disse nada e por que não posso ser parte dos seus planos?

Certa como quem somente repete algo pela milésima vez, Dora lhe disse que o tempo é senhor da razão, daquele jeito que apenas os mais velhos costumam falar e que conduz ao desespero os mais jovens. Me ajuda, Dora disse Gonzalo, utilizando um imperativo tão impotente que sequer foi reconhecido como tal.

Enquanto aquela senhora abria a caixa de ferramentas de ditados populares sobre o amor, Gonzalo se perdia em meio ao nada que aquela ausência representava. Incapaz de articular seus pensamentos por meio de um código inteligível, abre a mochila, saca papel e caneta, rabisca num bloco de notas seu endereço e telefone e pede que a zeladora lhe procure, caso saiba algo sobre a pessoa mais bonita do mundo. Sem ouvir a resposta, se despede, agradece sem saber muito bem porquê e volta por onde veio, com os olhos fixos no chão, à distância constante de dois metros adiante.

Escolhi a rua Washington Luiz por causa do calçamento feito de ladrilhos. O apartamento 401 foi porque me pareceu estar à distância ideal em relação à rua. Nos momentos difíceis poderia me refugiar em meu castelo, vendo a vida dos outros passar pela janela. Além disso, o bairro era formado por construções térreas e era possível avistar as montanhas no horizonte.

Uma última razão para a escolha: o apartamento vinha mobiliado. Eu não queria gastar dinheiro com móveis e nem ter que levar muitas coisas quando fosse embora. Os móveis eram antigos, mas não do jeito de uma casa habitada por muito tempo pelo mesmo casal de avós. Ao contrário, eram antigos como se vários casais de avós tivessem vivido ali ao mesmo tempo.

Quando cheguei para fazer a mudança trazendo um par de panelas e uma mochila com objetos pessoais, fui recebido por uma senhora que me pareceu particularmente antipática. Antes de se apresentar me obrigou a subir pelo elevador de serviço enquanto explicava as regras do condomínio. Por fim me disse que seu nome era Dora e se colocou a minha disposição, secretamente esperava jamais precisar dela.

O armário do quarto era tão grande que minhas coisas não ocupavam sequer a metade do espaço. Na época eu tinha uma convicção consciente e jamais expressada verbalmente, de que essa era minha contribuição ao Universo. Ocupar o menor espaço possível. Muito ajuda quem não atrapalha, pensava enquanto um sorriso se esboçava em meu rosto.

Alguns meses depois Dora me entregou uma carta. O remetente identificou o endereço de um quarto de hotel na Romênia. Tinha uma caligrafia impecável, se notava seu capricho com os traços, mas não se identificou no lado de fora do envelope.

Bucareste, 29 de setembro de 2028

Querido Gonzalo,

Se você está lendo essa carta, a máquina do tempo funcionou. É uma pena, porque isso quer dizer que você não se lembra de nada do que vivemos juntos.

Da minha parte talvez as coisas sejam ainda mais confusas, porque me recordo de tudo sem que nada tenha acontecido. É interessante, ter memórias do que não houve. Viver uma experiência sem testemunhas é bem parecido com sonhar. Acho que por isso te escrevo essa carta. Mas pode ser só covardia por não ter tido coragem para me despedir.

Lembro-me de quando nos conhecemos. Foi há exatos dez anos para mim. Mas realmente não sei quando você pode ter recebido essa carta. Engraçado, sempre te escrevi cartas e uma das minhas grandes preocupações é que elas chegavam sempre atrasadas. Te dizia que ler uma carta é como olhar para o passado, e você me respondia que passava a mesma coisa com as estrelas e que a beleza era a mesma. A ironia é que agora te escrevo uma carta no futuro, para que você a leia no passado.

Você passou (passou? passara? passará? que tempo utilizar nessa situação?) por baixo da amoreira da esquina da rua Washington Luiz, onde eu vivia, com a alameda Dom Pedro, onde você vivia. Quis chamar sua atenção e atirei-lhe uma amora que te manchou a camiseta branca. Pedi desculpas falsas e você respondeu que não tinha problema Só estou indo fazer exercícios ali na praça. Como eu gostava de ouvir a sua voz…

Tratei de comer amoras todos os dias no mesmo horário, na esperança de te ver. Quando a primavera acabou e a árvore deixou de dar frutos, indiscretamente passei a ir direto à praça comer mimosas perto dos equipamentos de exercício. Adorava ver sua dedicação, mas o que me dava prazer era depois vir à minha casa e te preparar café enquanto trocávamos de posição, e agora era você quem me observava com uma admiração que jamais entendi.

Me dizia que eu era a pessoa mais bonita do mundo e que as vezes eu parecia um sonho. Eu achava engraçado. Com tanta gente bonita por aí. Você sempre repetia que nenhuma delas tinha cor de amora e me dava ternura perceber que você era um tonto por não perceber que eu só refletia teu olhar.

Foi perto do outono. Acordei e não conseguia me lembrar o nome da senhora que trabalhava em meu edifício. Percebi que era hora de partir. Já havia vivido o suficiente para saber que logo me esqueceria do que vivemos. Não podia suportá-lo. Sei que foi egoísta de minha parte, mas não podia abrir mão dessas lembranças.

Inventei uma desculpa e te disse que iria a um congresso, mas que voltaria na semana seguinte , mesmo sabendo que não era possível.

Tinha esperanças de que essa carta pudesse te trazer essas memórias novamente e que você me encontrasse aqui em Bucareste, mas talvez tudo isso tenha mesmo sido um sonho meu.

O telefone toca e quando atende escuta a voz do recepcionista do hotel:

– Senhor Francisco, um cavalheiro chamado Gonzalo acaba de chegar. Diz que o conhece e que gostaria de vê-lo.

Ilustração: Gustavo Ogg

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Dai-me Amor 0 176

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 320

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.