Futuro do pretérito 0 991

A pessoa mais bonita do mundo tem cor de amora, cheiro de mimosa e sabor de café. Isso pensava Gonzalo enquanto tocava pela última vez a campainha do número 157 da Rua Washington Luiz. Dora, a zeladora do edifício, fez questão de encontrá-lo na porta para lhe dizer que ela, a pessoa mais bonita do mundo, havia se mudado sem deixar direções.

Dora era uma senhora em torno de seus sessenta anos, vinha desses estados do interior onde há mais bicho que gente. Gostava em particular de Gonzalo porque com frequência ele lhe ajudava a carregar o lixo e sentia que essa notícia o destroçaria, no que estava correta. Pensava ainda que ela seria capaz de amenizar a situação, no que estava enganada. Tentou dizer-lhe que essas coisas acontecem e profetizou que tinha certeza que eles voltariam a se encontrar, sem prova nem convicção.

Por bem intencionada que fosse, a postura de Dora deixou Gonzalo ainda mais confuso. Ao tocar aquela campainha, esperava escutar a voz da pessoa mais bonita do mundo, dizendo-lhe que subisse àquele apartamento tão cheio de lembranças. Quando em vez disso se deparou com a presença da zeladora atribuiu-lhe muito mais autoridade do que ela tinha de fato. Com a voz trêmula perguntou Mas por que não me disse nada e por que não posso ser parte dos seus planos?

Certa como quem somente repete algo pela milésima vez, Dora lhe disse que o tempo é senhor da razão, daquele jeito que apenas os mais velhos costumam falar e que conduz ao desespero os mais jovens. Me ajuda, Dora disse Gonzalo, utilizando um imperativo tão impotente que sequer foi reconhecido como tal.

Enquanto aquela senhora abria a caixa de ferramentas de ditados populares sobre o amor, Gonzalo se perdia em meio ao nada que aquela ausência representava. Incapaz de articular seus pensamentos por meio de um código inteligível, abre a mochila, saca papel e caneta, rabisca num bloco de notas seu endereço e telefone e pede que a zeladora lhe procure, caso saiba algo sobre a pessoa mais bonita do mundo. Sem ouvir a resposta, se despede, agradece sem saber muito bem porquê e volta por onde veio, com os olhos fixos no chão, à distância constante de dois metros adiante.

Escolhi a rua Washington Luiz por causa do calçamento feito de ladrilhos. O apartamento 401 foi porque me pareceu estar à distância ideal em relação à rua. Nos momentos difíceis poderia me refugiar em meu castelo, vendo a vida dos outros passar pela janela. Além disso, o bairro era formado por construções térreas e era possível avistar as montanhas no horizonte.

Uma última razão para a escolha: o apartamento vinha mobiliado. Eu não queria gastar dinheiro com móveis e nem ter que levar muitas coisas quando fosse embora. Os móveis eram antigos, mas não do jeito de uma casa habitada por muito tempo pelo mesmo casal de avós. Ao contrário, eram antigos como se vários casais de avós tivessem vivido ali ao mesmo tempo.

Quando cheguei para fazer a mudança trazendo um par de panelas e uma mochila com objetos pessoais, fui recebido por uma senhora que me pareceu particularmente antipática. Antes de se apresentar me obrigou a subir pelo elevador de serviço enquanto explicava as regras do condomínio. Por fim me disse que seu nome era Dora e se colocou a minha disposição, secretamente esperava jamais precisar dela.

O armário do quarto era tão grande que minhas coisas não ocupavam sequer a metade do espaço. Na época eu tinha uma convicção consciente e jamais expressada verbalmente, de que essa era minha contribuição ao Universo. Ocupar o menor espaço possível. Muito ajuda quem não atrapalha, pensava enquanto um sorriso se esboçava em meu rosto.

Alguns meses depois Dora me entregou uma carta. O remetente identificou o endereço de um quarto de hotel na Romênia. Tinha uma caligrafia impecável, se notava seu capricho com os traços, mas não se identificou no lado de fora do envelope.

Bucareste, 29 de setembro de 2028

Querido Gonzalo,

Se você está lendo essa carta, a máquina do tempo funcionou. É uma pena, porque isso quer dizer que você não se lembra de nada do que vivemos juntos.

Da minha parte talvez as coisas sejam ainda mais confusas, porque me recordo de tudo sem que nada tenha acontecido. É interessante, ter memórias do que não houve. Viver uma experiência sem testemunhas é bem parecido com sonhar. Acho que por isso te escrevo essa carta. Mas pode ser só covardia por não ter tido coragem para me despedir.

Lembro-me de quando nos conhecemos. Foi há exatos dez anos para mim. Mas realmente não sei quando você pode ter recebido essa carta. Engraçado, sempre te escrevi cartas e uma das minhas grandes preocupações é que elas chegavam sempre atrasadas. Te dizia que ler uma carta é como olhar para o passado, e você me respondia que passava a mesma coisa com as estrelas e que a beleza era a mesma. A ironia é que agora te escrevo uma carta no futuro, para que você a leia no passado.

Você passou (passou? passara? passará? que tempo utilizar nessa situação?) por baixo da amoreira da esquina da rua Washington Luiz, onde eu vivia, com a alameda Dom Pedro, onde você vivia. Quis chamar sua atenção e atirei-lhe uma amora que te manchou a camiseta branca. Pedi desculpas falsas e você respondeu que não tinha problema Só estou indo fazer exercícios ali na praça. Como eu gostava de ouvir a sua voz…

Tratei de comer amoras todos os dias no mesmo horário, na esperança de te ver. Quando a primavera acabou e a árvore deixou de dar frutos, indiscretamente passei a ir direto à praça comer mimosas perto dos equipamentos de exercício. Adorava ver sua dedicação, mas o que me dava prazer era depois vir à minha casa e te preparar café enquanto trocávamos de posição, e agora era você quem me observava com uma admiração que jamais entendi.

Me dizia que eu era a pessoa mais bonita do mundo e que as vezes eu parecia um sonho. Eu achava engraçado. Com tanta gente bonita por aí. Você sempre repetia que nenhuma delas tinha cor de amora e me dava ternura perceber que você era um tonto por não perceber que eu só refletia teu olhar.

Foi perto do outono. Acordei e não conseguia me lembrar o nome da senhora que trabalhava em meu edifício. Percebi que era hora de partir. Já havia vivido o suficiente para saber que logo me esqueceria do que vivemos. Não podia suportá-lo. Sei que foi egoísta de minha parte, mas não podia abrir mão dessas lembranças.

Inventei uma desculpa e te disse que iria a um congresso, mas que voltaria na semana seguinte , mesmo sabendo que não era possível.

Tinha esperanças de que essa carta pudesse te trazer essas memórias novamente e que você me encontrasse aqui em Bucareste, mas talvez tudo isso tenha mesmo sido um sonho meu.

O telefone toca e quando atende escuta a voz do recepcionista do hotel:

– Senhor Francisco, um cavalheiro chamado Gonzalo acaba de chegar. Diz que o conhece e que gostaria de vê-lo.

Ilustração: Gustavo Ogg

Previous ArticleNext Article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Escala de Baumé 0 247

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 1644

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai