Futuro do pretérito 0 237

A pessoa mais bonita do mundo tem cor de amora, cheiro de mimosa e sabor de café. Isso pensava Gonzalo enquanto tocava pela última vez a campainha do número 157 da Rua Washington Luiz. Dora, a zeladora do edifício, fez questão de encontrá-lo na porta para lhe dizer que ela, a pessoa mais bonita do mundo, havia se mudado sem deixar direções.

Dora era uma senhora em torno de seus sessenta anos, vinha desses estados do interior onde há mais bicho que gente. Gostava em particular de Gonzalo porque com frequência ele lhe ajudava a carregar o lixo e sentia que essa notícia o destroçaria, no que estava correta. Pensava ainda que ela seria capaz de amenizar a situação, no que estava enganada. Tentou dizer-lhe que essas coisas acontecem e profetizou que tinha certeza que eles voltariam a se encontrar, sem prova nem convicção.

Por bem intencionada que fosse, a postura de Dora deixou Gonzalo ainda mais confuso. Ao tocar aquela campainha, esperava escutar a voz da pessoa mais bonita do mundo, dizendo-lhe que subisse àquele apartamento tão cheio de lembranças. Quando em vez disso se deparou com a presença da zeladora atribuiu-lhe muito mais autoridade do que ela tinha de fato. Com a voz trêmula perguntou Mas por que não me disse nada e por que não posso ser parte dos seus planos?

Certa como quem somente repete algo pela milésima vez, Dora lhe disse que o tempo é senhor da razão, daquele jeito que apenas os mais velhos costumam falar e que conduz ao desespero os mais jovens. Me ajuda, Dora disse Gonzalo, utilizando um imperativo tão impotente que sequer foi reconhecido como tal.

Enquanto aquela senhora abria a caixa de ferramentas de ditados populares sobre o amor, Gonzalo se perdia em meio ao nada que aquela ausência representava. Incapaz de articular seus pensamentos por meio de um código inteligível, abre a mochila, saca papel e caneta, rabisca num bloco de notas seu endereço e telefone e pede que a zeladora lhe procure, caso saiba algo sobre a pessoa mais bonita do mundo. Sem ouvir a resposta, se despede, agradece sem saber muito bem porquê e volta por onde veio, com os olhos fixos no chão, à distância constante de dois metros adiante.

Escolhi a rua Washington Luiz por causa do calçamento feito de ladrilhos. O apartamento 401 foi porque me pareceu estar à distância ideal em relação à rua. Nos momentos difíceis poderia me refugiar em meu castelo, vendo a vida dos outros passar pela janela. Além disso, o bairro era formado por construções térreas e era possível avistar as montanhas no horizonte.

Uma última razão para a escolha: o apartamento vinha mobiliado. Eu não queria gastar dinheiro com móveis e nem ter que levar muitas coisas quando fosse embora. Os móveis eram antigos, mas não do jeito de uma casa habitada por muito tempo pelo mesmo casal de avós. Ao contrário, eram antigos como se vários casais de avós tivessem vivido ali ao mesmo tempo.

Quando cheguei para fazer a mudança trazendo um par de panelas e uma mochila com objetos pessoais, fui recebido por uma senhora que me pareceu particularmente antipática. Antes de se apresentar me obrigou a subir pelo elevador de serviço enquanto explicava as regras do condomínio. Por fim me disse que seu nome era Dora e se colocou a minha disposição, secretamente esperava jamais precisar dela.

O armário do quarto era tão grande que minhas coisas não ocupavam sequer a metade do espaço. Na época eu tinha uma convicção consciente e jamais expressada verbalmente, de que essa era minha contribuição ao Universo. Ocupar o menor espaço possível. Muito ajuda quem não atrapalha, pensava enquanto um sorriso se esboçava em meu rosto.

Alguns meses depois Dora me entregou uma carta. O remetente identificou o endereço de um quarto de hotel na Romênia. Tinha uma caligrafia impecável, se notava seu capricho com os traços, mas não se identificou no lado de fora do envelope.

Bucareste, 29 de setembro de 2028

Querido Gonzalo,

Se você está lendo essa carta, a máquina do tempo funcionou. É uma pena, porque isso quer dizer que você não se lembra de nada do que vivemos juntos.

Da minha parte talvez as coisas sejam ainda mais confusas, porque me recordo de tudo sem que nada tenha acontecido. É interessante, ter memórias do que não houve. Viver uma experiência sem testemunhas é bem parecido com sonhar. Acho que por isso te escrevo essa carta. Mas pode ser só covardia por não ter tido coragem para me despedir.

Lembro-me de quando nos conhecemos. Foi há exatos dez anos para mim. Mas realmente não sei quando você pode ter recebido essa carta. Engraçado, sempre te escrevi cartas e uma das minhas grandes preocupações é que elas chegavam sempre atrasadas. Te dizia que ler uma carta é como olhar para o passado, e você me respondia que passava a mesma coisa com as estrelas e que a beleza era a mesma. A ironia é que agora te escrevo uma carta no futuro, para que você a leia no passado.

Você passou (passou? passara? passará? que tempo utilizar nessa situação?) por baixo da amoreira da esquina da rua Washington Luiz, onde eu vivia, com a alameda Dom Pedro, onde você vivia. Quis chamar sua atenção e atirei-lhe uma amora que te manchou a camiseta branca. Pedi desculpas falsas e você respondeu que não tinha problema Só estou indo fazer exercícios ali na praça. Como eu gostava de ouvir a sua voz…

Tratei de comer amoras todos os dias no mesmo horário, na esperança de te ver. Quando a primavera acabou e a árvore deixou de dar frutos, indiscretamente passei a ir direto à praça comer mimosas perto dos equipamentos de exercício. Adorava ver sua dedicação, mas o que me dava prazer era depois vir à minha casa e te preparar café enquanto trocávamos de posição, e agora era você quem me observava com uma admiração que jamais entendi.

Me dizia que eu era a pessoa mais bonita do mundo e que as vezes eu parecia um sonho. Eu achava engraçado. Com tanta gente bonita por aí. Você sempre repetia que nenhuma delas tinha cor de amora e me dava ternura perceber que você era um tonto por não perceber que eu só refletia teu olhar.

Foi perto do outono. Acordei e não conseguia me lembrar o nome da senhora que trabalhava em meu edifício. Percebi que era hora de partir. Já havia vivido o suficiente para saber que logo me esqueceria do que vivemos. Não podia suportá-lo. Sei que foi egoísta de minha parte, mas não podia abrir mão dessas lembranças.

Inventei uma desculpa e te disse que iria a um congresso, mas que voltaria na semana seguinte , mesmo sabendo que não era possível.

Tinha esperanças de que essa carta pudesse te trazer essas memórias novamente e que você me encontrasse aqui em Bucareste, mas talvez tudo isso tenha mesmo sido um sonho meu.

O telefone toca e quando atende escuta a voz do recepcionista do hotel:

– Senhor Francisco, um cavalheiro chamado Gonzalo acaba de chegar. Diz que o conhece e que gostaria de vê-lo.

Ilustração: Gustavo Ogg

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Geração Alpha 0 119

O comboio chega à estação. O homem a segurar a mão da sua filhinha, 3 ou 4 anos, para embarcarem.

Eis que a porta do vagão não abre sozinha. Não é automática como as portas do Metro, mas ele não sabe; é turista. Deve estar avariada, ele pensa, emperrou. Resolve forçar a porta. Usa toda a sua força mas não consegue. O comboio prestes a partir.

Na altura dos olhos da filha está o botão. Ela mete ali o dedinho e – tchanam! – a porta se abre.

O pai, misto de constrangimento e orgulho, solta um sorriso bobo. Leva a filha para dentro pela mão. Próxima paragem: Belém.

 

Murilo

 

Cruzeiro do Sul 0 119

Para Gal

 

Navegar pelo mar Mediterrâneo ou pelos outros mares interiores da pequena Europa era relativamente seguro. As distâncias sempre foram curtas e, mesmo durante as noites, Alfa de Ursa Menor oferecia aos marinheiros uma orientação segura. Todas as estrelas e constelações do hemisfério norte orbitam em torno da estrela polar e a partir dela se sabia para onde ir ou qual direção evitar.

– Você é o brasileiro mais calado que eu conheço, sabia?

– Isso não é muito, sou o único brasileiro que você conhece.

– Não é verdade. Não te contei que eu morei dois anos em Salvador?

– Ah, então é por isso. Eu sou de Curitiba, e os curitibanos não falam muito.

– Mas eu também vivi em Curitiba, por seis meses. Dava aulas de inglês em uma escola de línguas. Eles nunca me pagaram e depois disso passei uma temporada trabalhando na Ilha do Mel. E insisto que você fala muito pouco.

Os silêncios de Antonio a desesperaram desde o primeiro contato. É que apesar dele sempre ter demonstrado interesse, e de que ao longo de toda a convivência sempre tenha sido tão atencioso quanto um companheiro pode ser, ela sentia que as palavras eram a forma mais eficiente para se evitar qualquer mal entendido. Aprendeu cedo que suas atitudes eram condicionadas pelos seus discursos e, por isso, ao longo de seus relacionamentos descobriu o quanto os homens tentam por meio das palavras (ou da falta delas) manter sua liberdade de ação.

Por isso, cada demonstração de afeto desacompanhada da correspondente declaração lhe provocava calafrios. Ainda pior era ver que tinha se interessado, outra vez, por um desses homens que abraçam pouco e falam menos ainda.

– Me dá um beijo?

– Bobo, há coisas que não se pergunta.

– Mas como eu posso conseguir coisas quando elas dependem de outras pessoas?

– Aí você tem que ter a coragem de tomar uma atitude e esperar que seja correspondido.

Para ele, eram justamente as palavras que provocavam os males entendidos. Tinha muita dificuldade em traduzir ao português, e depois ao inglês, ao espanhol, ao francês, o alcance e a intensidade de seus desejos, medos e aspirações mais profundas. Acreditava sinceramente que o olhar, o sorriso e a expressão corporal eram representações muito mais inequívocas de todos os conflitos pelos quais passava.

– Me escreve uma carta?

– Esqueceu que há coisas que não se pergunta?

– Eu sei, mas eu quero uma carta. Além do mais, você é que tem que tomar a iniciativa.

– Mas eu tomei, até pedi um beijo.

Ao fim e ao cabo, ele conseguiu não só um, mas incontáveis beijos. Molhados de saliva, molhados de suor, molhados de lágrimas. Doces, salgados, amargos. Distantes, próximos, falados, abraçados. Bianca também conseguiu mais cartas do que qualquer pessoa que houvera conhecido. Cartas enviadas de outras cidades, outros países, outros continentes. Cartas pretéritas, presentes, futuras, perfeitas e mais-que-perfeitas. Algumas sequer lhe eram endereçadas, mas à mulher que um dia havia sido, ou à mulher que talvez viesse a ser.

Abaixo da linha do equador existe outro mundo. A estrela polar desaparece no horizonte e mesmo as constelações conhecidas abandonam seu comportamento habitual. Nas noites de outono o imponente caçador Órion descansa deitado, acompanhado das Três Marias que compõem seu cinturão.

Do lado de cá nada é seguro como do lado de lá. Mesmo o Cruzeiro do Sul, que serve de bússola com seu ponteiro indicando o meridiano, nasce no leste e se põe no oeste como todos os corpos celestes. Há pouco espaço para certezas quando se navega por águas desconhecidas.

Daqui é curioso olhar que Antonio e Bianca inverteram as posições. Não porque seja um fenômeno particularmente comum em relacionamentos tão duradouros, mas porque a intromissão de um terceiro elemento sempre provoca transformações profundas.

Agora é Antonio quem busca estar sempre por perto e, ao sentir que a pouca distância ainda é muito longe, se agarra desesperadamente às palavras. Fala sobre as estrelas e as constelações, e como elas não são as mesmas nos dois hemisférios. Fala sobre o regime das marés, e como eles são influenciados pelos movimentos lunares. Fala tão corretamente quanto possível, cuidando da colocação pronominal, muito mais complicada no português do que em qualquer outro idioma que conhece.

E diante da impotência em estabelecer o contato que tanto busca, se vê refletido nos olhos dela. Tenta entrar, e fala que vai cuidar de tudo. Não como quem sabe que pode cuidar de tudo. Nem como quem acha que pode cuidar de tudo. Sequer como quem acredita que pode cuidar de tudo. Fala que vai cuidar de tudo como quem implora permissão para cuidar de pelo menos uma parte de tudo o que pode acontecer dali em diante.

Para ela, as palavras já perderam muito do seu sentido. Não é insensível à cena. Tampouco é demasiado tarde para ele. Mas ela sentiu no próprio corpo o amor que ali cresceu nos últimos meses, e percebe que ele não precisa de linguagem para se expressar.

Como um marinheiro perdido, Antonio assiste cada nova estria com o mesmo estupor com que os antigos navegantes miravam o céu sem a estrela polar. Compara aquela esfera crescente com o universo em expansão e busca, nas novas formas e desenhos, algum sentido de orientação. É inútil, os dias passam e ele não sabe o que esperar.

Ela o surpreende com um olhar grato e condescendente. A gratidão por saber que tem ao seu lado a melhor pessoa possível, e a condescendência de quem sabe que pode caminhar sozinha, mas prefere ter alguém com quem compartilhar a experiência.

Esse olhar o deixa mais tranquilo. Entende que talvez não possa cuidar de tudo, mas terá o seu espaço. Afinal, lá fora estão o céu, as estrelas, as luas e as marés, tudo por ser explicado e entendido. E tudo recomeça.