Demônio de Fausto 0 210

De todas as histórias que me propus  a contar, nenhuma terá tanto a dizer quanto aquele relato trapaceiro embaixo da ponte do Canal. Foi a história mais absurda que poderia ter descrito. Quando olhei pela janela hoje cedo e vi o céu, tive ainda mais certeza: era tudo verdade.

Meu interlocutor? Pergunta fácil. Audiente muito ilustre, vindo de um canto escondido do cosmos somente para aquela sessão rápida e informal. Talvez, por esse motivo, estava alvoroçado e um tanto irritado. Podia ser só arrelia da viagem também. Minha assimilação foi afetada primeiro pela surpresa da visita (eu estava caminhando perto da ponte do Canal sem a intenção de encontrar quem quer que fosse e por vezes tinha fugido da vista de um ou outro conhecido); depois, pela soberba daqueles olhos lancinantes, cravados em um rosto comprido, bochechas vincadas e testa escondida pela franja. Cabelo oleoso, sufocado por um pork pie hat preto. Ao contrário do que fez em sua última visita, desta vez não veio acompanhado da gangue de pequenos demônios orientados tão somente pelo espetáculo e pela inveja. O coro era solo.

“Alguma coisa precisa mudar meu jovem. Alguma coisa nessa sua vida de merda precisa ser movimentada com urgência!”

“Você deveria me dar conselhos ruins, via de regra, não?!”

“Cala a boca pirralho. Você acha que brilha!”

“Desculpa.”

“Escute aqui, prepara essa cabeça. Nessa sua próxima história pode até ter um amorzinho, mas no fim, a única justificativa para tudo precisa ser a aniquilação. Nada desse papo otimista, dessa merdarada futurista. Você tá me entendendo? O barulho tem que ser tão forte que os cérebros derretam instantâneamente e escorram através dos olhos, ouvidos, nariz e até pela boca. Quero cenas de terror. Violência gratuita. Tá me entendendo, pirralho?!”

“Tá bom cara, porra, não precisa insistir tanto desse jeito. Já saquei qual vai ser dessa vez: vou pintar um quadrão vermelho, cheio de tripas. Se é o que você quer, vamo ai.”

“Isso, isso mesmo. Nada de suspense psicológico, nada de aventura com desfecho ‘mais ou menos’. E chega de misticismo. Nada de enigmas, signos justapostos, pistas para o tesouro, nada de referência sem vergonha, muito menos esse negócio de diarinho lírico do cotidiano. Vai pro pau! EU QUERO PORRADA! Tá entendendo?!”

“Mas na última história já deixamos ouvidos sangrando e cérebros quase explodindo. Essa parada de tripas tá ficando manjada também. Livro sobre jantar canibal, sobre suicídio, tudo isso tá muito modinha, saca? Até aquele plot de personagens abandonados à própria sorte em um vilarejo macabro tá virando filme de Hollywood classificação doze anos. Ainda bem que o politicamente correto começou a morrer depois do mandato do Obama, ninguém aguenta mais essa onda de bom-mocismo. Além de ser hipócrita, pasteuriza TUDO.”

“Beleza cara. Ok, ok e ok! Não precisa ser tão de graça então. Pode ser algo mais sutil, mas mesmo assim, tem que ser algo de virar o estômago.”

“Faz tempo que tô pensando em fazer uma história sobre guerra química. Tá meio oportuno, eu diria. E se a gente fizesse algo com cianeto no meio?”

“Cianeto cara, sério?! Você é muito previsível mesmo. Cianeto é para suicídio gourmet. Coisa pra gente famosa, do calibre de Horácio Quiroga, do Hitler e da horda dele. Cianeto é veneno pra historinha de anarquista sérvio, eu quero mesmo é mostarda nitrogenada, aí sim a coisa fica interessante.”

“Meu caralho! Tu quer bagunçar as personagens nesse nível? Corre o risco de virar um show de bizarrice sem fim.”

“Sim cara, eu falei para você abrir essa sua cabecinha de merda. Falei que a porrada tinha que ser intensa. A primeira cena que me vêm à cabeça é uma imagem com as personagens ardendo após uma explosão daquela gosma amarronzada com cheiro de peixe. Imagina a galera sufocando, com os olhos fumegantes e a pele cheia de bolhas. Quero todo mundo com feições cancerígenas, como se tivessem saído de um filme do Cronenberg. O resto do enredo você constrói aí. Já te dei quase tudo de graça.”

“Certo, entendi.”

“E quero que seja em um lugar menos estigmatizado também, para causar impacto. Pode ser em um contexto abastado e pacífico, foda-se que vai perder um pouco da verossimilhança. Caso você não se esqueça daquela astúcia essencial, tudo vai terminar bem mal, com direito a aplausos. E não se esqueça eim, sem entregar muito a história até que tudo esteja se aniquilando em bolhas de linfa. Destrua uma coisa bonita que eu quero ver.”

Mefistófeles de Fausto e seu chapéu preto desapareceram antes mesmo da minha resposta. Não sei se terei os vinte e quatro anos sem envelhecer concedidos ao mago alemão ou se meus manuscritos nunca irão arder nas chamas, como os do dramaturgo russo. O fato é que coordenei as pontas de meus dedos sobre o teclado e não sei quando irei parar. Certamente será a história mais absurda que já contei. E, no final, vou dizer com insolência atrevida: era tudo verdade.

Texto de Jadson André

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Vida comum parte 1 0 129

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Uma tentativa de eternidade 0 670

Estas linhas são sobre o momento em que o sol se lançou corajoso no abismo do horizonte de ontem. Carregava consigo a invejável certeza de que teria forças para regressar pelo lado de lá. É sobretudo uma daquelas tentativas de promover o efêmero à eternidade –  com algo de poesia.

Um olhar descolorido poderia até dizer que o sol sequer saiu do lugar, que nós é que feito mariposas ofuscadas giramos em torno da lâmpada, sem nos importarmos com um pra-onde-ir.

Verdade é que nunca nos preocupamos com as coisas como de fato são. Queremos apenas classificá-las de acordo com nossas percepções. Se sentei aqui, foi para escrever sobre o que senti ao ser tragado pelo vazio da noite de ontem, que sequer-um-abraço.

Em momento algum nos deixamos avisar pela vida sobre o que ela pretende de nós. Se nos detemos diante do orvalho na flor, é pela nossa necessidade de um suspiro n’alma. Queremos o sorriso da criança para o nosso deleite. Não nos importamos com a felicidade que ali brotou.

Sentimos o mundo à nossa disposição, sem nos darmos conta de que somos apenas mais uma alegoria na beleza de uma grandiosidade que nos foge à compreensão. Algo que já foi Deus. Que hoje é mistério. E que amanhã estará passível de uma nova interpretação.

Algo que tentaremos eternizar, com a mesma eficácia com que buscamos absorver a vida que nos envolve por esses dias em que a noite absorve o sol. E que passam. Um a um.

texto: Rafael Antunes
colagem: Katia Villagra