Cantina Açores 0 282

Faz um dia ameno de sol, no contexto de um período chuvoso no inverno de Curitiba; é fim de mês e o dinheiro rareia. A vontade de comer bem e em demasia logo após o apetite ser aberto por um bigode de grilo, sem despender grandes investimentos, me carrega à um dos mais tradicionais restaurantes da cidade: Cantina Açores. Chego mais para o fim do turno do almoço, com a luxuosa possibilidade de escolher onde me sentar – duas horas atrás, é bastante provável que algumas pessoas estavam organizando pequenos motins para conquistar os poucos lugares vagos – a mesa que recebe um feixe de luz solar me convida à habitá-la, apesar de ocupar um espaço mais ao fundo do salão, e que a essa hora é quase oculto aos olhares desatentos dos atendentes (que são os donos) do lugar.

Na primeira mesa chega um casal que parece ter uma amizade próxima com os proprietários, o cardápio de cervejas (que surpreendentemente existe) demora à chegar nas mãos deles, é entregue pela sua amiga, que trava um intenso monólogo travestido de diálogo. Quando enfim eles conseguem focar sua atenção no menu, a atendente oferece, enquanto já serve, uma generosa taça da batidinha especial da casa; antes que eles possam aceitar, a taça chega à mesa já desfalcada de um respeitável gole. Enquanto contemplo a batidinha alheia – mais uma novidade pra mim, que me considerava um habitué do recinto – minha existência é enfim notada, faço contato visual, olho no olho, mas pouco comovo; ergo minha mão com timidez, na altura do queixo, um aceno de cabeça em resposta é o código de que tudo foi compreendido. Explico que por hora não vou pedir a refeição, afinal o Marco ainda não chegou, peço uma garrafa de cerveja e pergunto (já mal intencionado) “quanto custa a batidinha?”, “a batidinha é um agrado para os clientes, já te trago”. Fico contente ao notar que as bordas da taça não denunciam nenhum gole no caminho da geladeira até minha mesa. Provo a iguaria e me abalo, entro no meio de uma batalha, o maracujá disputa violentamente o espaço com o álcool, tenho sede em apaziguar logo esse embate.

Da mesma forma que os rituais são representados nos filmes, quando se oferece algo à alguma entidade e ela se materializa instantaneamente na sua frente, vejo o Marco adentrar ao recinto assim que repouso o copo de cerveja à mesa. E apesar da existência do Marco ter quase dois metros de altura, ela também é notada com certo atraso pelos garçons, mas tudo fica bem quando quem vem tirar o pedido já se aproxima com um copo na mão; das vantagens de se almoçar em um boteco. O prato do dia é Parmegiana, de frango ou bovino, democraticamente optamos por escolhas distintas, em comum uma porção de batata frita e mais uma cerveja, afinal, é sexta-feira.

A salada, que certamente já estava pronta desde as onze, chega antes que possamos re-abastecer nossos copos. Tomo a decisão pouco sábia de ignorá-la, enquanto ouço sobre a última que rolou no prédio do Marco, que me é confidenciada em tom tenso e humorado: o síndico do seu prédio sofreu um impeachment. O golpe foi orquestrado por um morador que chegou há menos de três meses no condomínio, uma espécie de Eduardo Cunha do 301C. Além de cativar o coração dos moradores que vislumbraram a destruição do jardim em lugar de novas vagas para carros, o golpe foi amplamente apoiado pela bancada evangélica do condomínio, que implicavam com as camisetas do Iron Maiden do ex-síndico. O porteiro ouviu dizer em modernização no sistema de interfones e novos circuitos de monitoramento; ele já teme pelo seu emprego. Em todas as esferas, vivemos tempos sombrios.

Desembarca em nossa mesa a porção de batata frita, naufragada em óleo, meu coração reclama logo na segunda garfada, me finjo de desentendido e interpreto como forte emoção. Uma discussão acalorada se instaura entre os funcionários, pouco parece ter relação com o trabalho, bastante com o possível almoço de domingo em família. Ecoam por todo lugar palavrões associados à verbos que nem imaginava que podiam ser usadas para ofender. Assim que os ânimos se acalmam, nossa amiga vem à mesa munida da garrafa de batidinha, veio conferir se estamos sendo bem atendidos: um novo consenso declara que sim, como nunca. O filé, que mal cabe no prato, vem acompanhado de arroz, macarrão, chuchu e farofa; o estado de confusão total no universo é evitado com o feijão sendo servido numa cumbuca separada. É necessário saber no mínimo oito movimentos no xadrez para traçar uma estratégia digna para a degustação do banquete, numa ação cautelosa o feijão se funde à farofa, bem planejado cabem até umas batatas (aquelas) ao lado do bife. Sou um homem de projetos ousados.

Vejo-me refletido no fundo do prato, aliança da alvura da louça com vestígios de gordura, e um sorriso cansado denuncia o sucesso na empreitada. O tempo segue estável lá fora, já aqui dentro deveria chover papel picado, pois o sentimento é de fim de campeonato e todos sagraram-se campeões. Completamos a volta olímpica até o balcão, onde a contabilidade que é feita no guardanapo não falha: pouco mais de vinte reais pela comida, bebida e workshop de novos xingamentos, ministrado pela dona da casa. Justo, nem preciso fazer figas com os dedos – para torcer pelo saldo positivo – quando a máquina engole meu cartão. Pego uma bala de iogurte no balcão e vou embora desejando uma vida tão honesta quanto um almoço na Cantina Açores.

Escrito pelo Gabriel Protski

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maculada 0 199

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”