Cantina Açores 0 201

Faz um dia ameno de sol, no contexto de um período chuvoso no inverno de Curitiba; é fim de mês e o dinheiro rareia. A vontade de comer bem e em demasia logo após o apetite ser aberto por um bigode de grilo, sem despender grandes investimentos, me carrega à um dos mais tradicionais restaurantes da cidade: Cantina Açores. Chego mais para o fim do turno do almoço, com a luxuosa possibilidade de escolher onde me sentar – duas horas atrás, é bastante provável que algumas pessoas estavam organizando pequenos motins para conquistar os poucos lugares vagos – a mesa que recebe um feixe de luz solar me convida à habitá-la, apesar de ocupar um espaço mais ao fundo do salão, e que a essa hora é quase oculto aos olhares desatentos dos atendentes (que são os donos) do lugar.

Na primeira mesa chega um casal que parece ter uma amizade próxima com os proprietários, o cardápio de cervejas (que surpreendentemente existe) demora à chegar nas mãos deles, é entregue pela sua amiga, que trava um intenso monólogo travestido de diálogo. Quando enfim eles conseguem focar sua atenção no menu, a atendente oferece, enquanto já serve, uma generosa taça da batidinha especial da casa; antes que eles possam aceitar, a taça chega à mesa já desfalcada de um respeitável gole. Enquanto contemplo a batidinha alheia – mais uma novidade pra mim, que me considerava um habitué do recinto – minha existência é enfim notada, faço contato visual, olho no olho, mas pouco comovo; ergo minha mão com timidez, na altura do queixo, um aceno de cabeça em resposta é o código de que tudo foi compreendido. Explico que por hora não vou pedir a refeição, afinal o Marco ainda não chegou, peço uma garrafa de cerveja e pergunto (já mal intencionado) “quanto custa a batidinha?”, “a batidinha é um agrado para os clientes, já te trago”. Fico contente ao notar que as bordas da taça não denunciam nenhum gole no caminho da geladeira até minha mesa. Provo a iguaria e me abalo, entro no meio de uma batalha, o maracujá disputa violentamente o espaço com o álcool, tenho sede em apaziguar logo esse embate.

Da mesma forma que os rituais são representados nos filmes, quando se oferece algo à alguma entidade e ela se materializa instantaneamente na sua frente, vejo o Marco adentrar ao recinto assim que repouso o copo de cerveja à mesa. E apesar da existência do Marco ter quase dois metros de altura, ela também é notada com certo atraso pelos garçons, mas tudo fica bem quando quem vem tirar o pedido já se aproxima com um copo na mão; das vantagens de se almoçar em um boteco. O prato do dia é Parmegiana, de frango ou bovino, democraticamente optamos por escolhas distintas, em comum uma porção de batata frita e mais uma cerveja, afinal, é sexta-feira.

A salada, que certamente já estava pronta desde as onze, chega antes que possamos re-abastecer nossos copos. Tomo a decisão pouco sábia de ignorá-la, enquanto ouço sobre a última que rolou no prédio do Marco, que me é confidenciada em tom tenso e humorado: o síndico do seu prédio sofreu um impeachment. O golpe foi orquestrado por um morador que chegou há menos de três meses no condomínio, uma espécie de Eduardo Cunha do 301C. Além de cativar o coração dos moradores que vislumbraram a destruição do jardim em lugar de novas vagas para carros, o golpe foi amplamente apoiado pela bancada evangélica do condomínio, que implicavam com as camisetas do Iron Maiden do ex-síndico. O porteiro ouviu dizer em modernização no sistema de interfones e novos circuitos de monitoramento; ele já teme pelo seu emprego. Em todas as esferas, vivemos tempos sombrios.

Desembarca em nossa mesa a porção de batata frita, naufragada em óleo, meu coração reclama logo na segunda garfada, me finjo de desentendido e interpreto como forte emoção. Uma discussão acalorada se instaura entre os funcionários, pouco parece ter relação com o trabalho, bastante com o possível almoço de domingo em família. Ecoam por todo lugar palavrões associados à verbos que nem imaginava que podiam ser usadas para ofender. Assim que os ânimos se acalmam, nossa amiga vem à mesa munida da garrafa de batidinha, veio conferir se estamos sendo bem atendidos: um novo consenso declara que sim, como nunca. O filé, que mal cabe no prato, vem acompanhado de arroz, macarrão, chuchu e farofa; o estado de confusão total no universo é evitado com o feijão sendo servido numa cumbuca separada. É necessário saber no mínimo oito movimentos no xadrez para traçar uma estratégia digna para a degustação do banquete, numa ação cautelosa o feijão se funde à farofa, bem planejado cabem até umas batatas (aquelas) ao lado do bife. Sou um homem de projetos ousados.

Vejo-me refletido no fundo do prato, aliança da alvura da louça com vestígios de gordura, e um sorriso cansado denuncia o sucesso na empreitada. O tempo segue estável lá fora, já aqui dentro deveria chover papel picado, pois o sentimento é de fim de campeonato e todos sagraram-se campeões. Completamos a volta olímpica até o balcão, onde a contabilidade que é feita no guardanapo não falha: pouco mais de vinte reais pela comida, bebida e workshop de novos xingamentos, ministrado pela dona da casa. Justo, nem preciso fazer figas com os dedos – para torcer pelo saldo positivo – quando a máquina engole meu cartão. Pego uma bala de iogurte no balcão e vou embora desejando uma vida tão honesta quanto um almoço na Cantina Açores.

Escrito pelo Gabriel Protski

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Cruzeiro do Sul 0 107

Para Gal

 

Navegar pelo mar Mediterrâneo ou pelos outros mares interiores da pequena Europa era relativamente seguro. As distâncias sempre foram curtas e, mesmo durante as noites, Alfa de Ursa Menor oferecia aos marinheiros uma orientação segura. Todas as estrelas e constelações do hemisfério norte orbitam em torno da estrela polar e a partir dela se sabia para onde ir ou qual direção evitar.

– Você é o brasileiro mais calado que eu conheço, sabia?

– Isso não é muito, sou o único brasileiro que você conhece.

– Não é verdade. Não te contei que eu morei dois anos em Salvador?

– Ah, então é por isso. Eu sou de Curitiba, e os curitibanos não falam muito.

– Mas eu também vivi em Curitiba, por seis meses. Dava aulas de inglês em uma escola de línguas. Eles nunca me pagaram e depois disso passei uma temporada trabalhando na Ilha do Mel. E insisto que você fala muito pouco.

Os silêncios de Antonio a desesperaram desde o primeiro contato. É que apesar dele sempre ter demonstrado interesse, e de que ao longo de toda a convivência sempre tenha sido tão atencioso quanto um companheiro pode ser, ela sentia que as palavras eram a forma mais eficiente para se evitar qualquer mal entendido. Aprendeu cedo que suas atitudes eram condicionadas pelos seus discursos e, por isso, ao longo de seus relacionamentos descobriu o quanto os homens tentam por meio das palavras (ou da falta delas) manter sua liberdade de ação.

Por isso, cada demonstração de afeto desacompanhada da correspondente declaração lhe provocava calafrios. Ainda pior era ver que tinha se interessado, outra vez, por um desses homens que abraçam pouco e falam menos ainda.

– Me dá um beijo?

– Bobo, há coisas que não se pergunta.

– Mas como eu posso conseguir coisas quando elas dependem de outras pessoas?

– Aí você tem que ter a coragem de tomar uma atitude e esperar que seja correspondido.

Para ele, eram justamente as palavras que provocavam os males entendidos. Tinha muita dificuldade em traduzir ao português, e depois ao inglês, ao espanhol, ao francês, o alcance e a intensidade de seus desejos, medos e aspirações mais profundas. Acreditava sinceramente que o olhar, o sorriso e a expressão corporal eram representações muito mais inequívocas de todos os conflitos pelos quais passava.

– Me escreve uma carta?

– Esqueceu que há coisas que não se pergunta?

– Eu sei, mas eu quero uma carta. Além do mais, você é que tem que tomar a iniciativa.

– Mas eu tomei, até pedi um beijo.

Ao fim e ao cabo, ele conseguiu não só um, mas incontáveis beijos. Molhados de saliva, molhados de suor, molhados de lágrimas. Doces, salgados, amargos. Distantes, próximos, falados, abraçados. Bianca também conseguiu mais cartas do que qualquer pessoa que houvera conhecido. Cartas enviadas de outras cidades, outros países, outros continentes. Cartas pretéritas, presentes, futuras, perfeitas e mais-que-perfeitas. Algumas sequer lhe eram endereçadas, mas à mulher que um dia havia sido, ou à mulher que talvez viesse a ser.

Abaixo da linha do equador existe outro mundo. A estrela polar desaparece no horizonte e mesmo as constelações conhecidas abandonam seu comportamento habitual. Nas noites de outono o imponente caçador Órion descansa deitado, acompanhado das Três Marias que compõem seu cinturão.

Do lado de cá nada é seguro como do lado de lá. Mesmo o Cruzeiro do Sul, que serve de bússola com seu ponteiro indicando o meridiano, nasce no leste e se põe no oeste como todos os corpos celestes. Há pouco espaço para certezas quando se navega por águas desconhecidas.

Daqui é curioso olhar que Antonio e Bianca inverteram as posições. Não porque seja um fenômeno particularmente comum em relacionamentos tão duradouros, mas porque a intromissão de um terceiro elemento sempre provoca transformações profundas.

Agora é Antonio quem busca estar sempre por perto e, ao sentir que a pouca distância ainda é muito longe, se agarra desesperadamente às palavras. Fala sobre as estrelas e as constelações, e como elas não são as mesmas nos dois hemisférios. Fala sobre o regime das marés, e como eles são influenciados pelos movimentos lunares. Fala tão corretamente quanto possível, cuidando da colocação pronominal, muito mais complicada no português do que em qualquer outro idioma que conhece.

E diante da impotência em estabelecer o contato que tanto busca, se vê refletido nos olhos dela. Tenta entrar, e fala que vai cuidar de tudo. Não como quem sabe que pode cuidar de tudo. Nem como quem acha que pode cuidar de tudo. Sequer como quem acredita que pode cuidar de tudo. Fala que vai cuidar de tudo como quem implora permissão para cuidar de pelo menos uma parte de tudo o que pode acontecer dali em diante.

Para ela, as palavras já perderam muito do seu sentido. Não é insensível à cena. Tampouco é demasiado tarde para ele. Mas ela sentiu no próprio corpo o amor que ali cresceu nos últimos meses, e percebe que ele não precisa de linguagem para se expressar.

Como um marinheiro perdido, Antonio assiste cada nova estria com o mesmo estupor com que os antigos navegantes miravam o céu sem a estrela polar. Compara aquela esfera crescente com o universo em expansão e busca, nas novas formas e desenhos, algum sentido de orientação. É inútil, os dias passam e ele não sabe o que esperar.

Ela o surpreende com um olhar grato e condescendente. A gratidão por saber que tem ao seu lado a melhor pessoa possível, e a condescendência de quem sabe que pode caminhar sozinha, mas prefere ter alguém com quem compartilhar a experiência.

Esse olhar o deixa mais tranquilo. Entende que talvez não possa cuidar de tudo, mas terá o seu espaço. Afinal, lá fora estão o céu, as estrelas, as luas e as marés, tudo por ser explicado e entendido. E tudo recomeça.

quando a esmola é demais 0 252

depois de quase quinze anos Lúcia e Leonardo se reencontraram casualmente. trocaram telefones, combinaram de sair, se (re)conheceram e se apaixonaram.

tudo anda perfeito. como ficaram tanto tempo sem se ver? têm tanta coisa em comum. amam Jostein Gaarder na mesma intensidade e os dois preferem O Dia do Curinga ao batido O Mundo de Sofia. até curtem Woody Allen mas hoje têm lá suas ressalvas, depois de tanta denúncia e escândalo. a culinária favorita de ambos é a libanesa, Que específico!, Nossa, qual a probabilidade?, e já têm até um novo restaurante favorito de casal. os astros também estão ao lado deles, posto que ela Sagitário e ele Áries. gostam mais do outono. torciam pelo São Paulo mas já não se importam mais tanto com futebol. acham Chico melhor que Gil mas Com certeza o Caetano é melhor do que todos eles!. na janta em casa é só salada, salada só com azeite e limão, limão só siciliano e Sicília só no verão, que dá pra entrar na água. carro só preto ou prata, hatch, com no mínimo ar condicionado e direção hidráulica. não leem jornal mas se precisarem ler Que seja o Estadão porque a Folha tá cada dia mais descaradamente de direita. querem adotar uma criança, O mundo já tá cheio demais, né? E tem tanta criança sozinha por aí. planejam conhecer o Japão. se matricularam em uma escola de música para aprenderem a cantar e poderem gravar vídeos de casal pra colocar no YouTube, que os dois adoram.

sinceramente, a vida não poderia estar melhor para eles. a única coisa que talvez possa vir a se tornar um problema são os mais de cinquenta gigabytes e os dois gaveteiros repletos de informações sobre Lúcia que Leonardo andou acumulando sistematicamente nos últimos quase quinze anos. mas só se ela descobrir, também.

texto de Rômulo Candal
ilustra digital de Dario Rivarossa ilTassista Marino