Cantina Açores 0 317

Faz um dia ameno de sol, no contexto de um período chuvoso no inverno de Curitiba; é fim de mês e o dinheiro rareia. A vontade de comer bem e em demasia logo após o apetite ser aberto por um bigode de grilo, sem despender grandes investimentos, me carrega à um dos mais tradicionais restaurantes da cidade: Cantina Açores. Chego mais para o fim do turno do almoço, com a luxuosa possibilidade de escolher onde me sentar – duas horas atrás, é bastante provável que algumas pessoas estavam organizando pequenos motins para conquistar os poucos lugares vagos – a mesa que recebe um feixe de luz solar me convida à habitá-la, apesar de ocupar um espaço mais ao fundo do salão, e que a essa hora é quase oculto aos olhares desatentos dos atendentes (que são os donos) do lugar.

Na primeira mesa chega um casal que parece ter uma amizade próxima com os proprietários, o cardápio de cervejas (que surpreendentemente existe) demora à chegar nas mãos deles, é entregue pela sua amiga, que trava um intenso monólogo travestido de diálogo. Quando enfim eles conseguem focar sua atenção no menu, a atendente oferece, enquanto já serve, uma generosa taça da batidinha especial da casa; antes que eles possam aceitar, a taça chega à mesa já desfalcada de um respeitável gole. Enquanto contemplo a batidinha alheia – mais uma novidade pra mim, que me considerava um habitué do recinto – minha existência é enfim notada, faço contato visual, olho no olho, mas pouco comovo; ergo minha mão com timidez, na altura do queixo, um aceno de cabeça em resposta é o código de que tudo foi compreendido. Explico que por hora não vou pedir a refeição, afinal o Marco ainda não chegou, peço uma garrafa de cerveja e pergunto (já mal intencionado) “quanto custa a batidinha?”, “a batidinha é um agrado para os clientes, já te trago”. Fico contente ao notar que as bordas da taça não denunciam nenhum gole no caminho da geladeira até minha mesa. Provo a iguaria e me abalo, entro no meio de uma batalha, o maracujá disputa violentamente o espaço com o álcool, tenho sede em apaziguar logo esse embate.

Da mesma forma que os rituais são representados nos filmes, quando se oferece algo à alguma entidade e ela se materializa instantaneamente na sua frente, vejo o Marco adentrar ao recinto assim que repouso o copo de cerveja à mesa. E apesar da existência do Marco ter quase dois metros de altura, ela também é notada com certo atraso pelos garçons, mas tudo fica bem quando quem vem tirar o pedido já se aproxima com um copo na mão; das vantagens de se almoçar em um boteco. O prato do dia é Parmegiana, de frango ou bovino, democraticamente optamos por escolhas distintas, em comum uma porção de batata frita e mais uma cerveja, afinal, é sexta-feira.

A salada, que certamente já estava pronta desde as onze, chega antes que possamos re-abastecer nossos copos. Tomo a decisão pouco sábia de ignorá-la, enquanto ouço sobre a última que rolou no prédio do Marco, que me é confidenciada em tom tenso e humorado: o síndico do seu prédio sofreu um impeachment. O golpe foi orquestrado por um morador que chegou há menos de três meses no condomínio, uma espécie de Eduardo Cunha do 301C. Além de cativar o coração dos moradores que vislumbraram a destruição do jardim em lugar de novas vagas para carros, o golpe foi amplamente apoiado pela bancada evangélica do condomínio, que implicavam com as camisetas do Iron Maiden do ex-síndico. O porteiro ouviu dizer em modernização no sistema de interfones e novos circuitos de monitoramento; ele já teme pelo seu emprego. Em todas as esferas, vivemos tempos sombrios.

Desembarca em nossa mesa a porção de batata frita, naufragada em óleo, meu coração reclama logo na segunda garfada, me finjo de desentendido e interpreto como forte emoção. Uma discussão acalorada se instaura entre os funcionários, pouco parece ter relação com o trabalho, bastante com o possível almoço de domingo em família. Ecoam por todo lugar palavrões associados à verbos que nem imaginava que podiam ser usadas para ofender. Assim que os ânimos se acalmam, nossa amiga vem à mesa munida da garrafa de batidinha, veio conferir se estamos sendo bem atendidos: um novo consenso declara que sim, como nunca. O filé, que mal cabe no prato, vem acompanhado de arroz, macarrão, chuchu e farofa; o estado de confusão total no universo é evitado com o feijão sendo servido numa cumbuca separada. É necessário saber no mínimo oito movimentos no xadrez para traçar uma estratégia digna para a degustação do banquete, numa ação cautelosa o feijão se funde à farofa, bem planejado cabem até umas batatas (aquelas) ao lado do bife. Sou um homem de projetos ousados.

Vejo-me refletido no fundo do prato, aliança da alvura da louça com vestígios de gordura, e um sorriso cansado denuncia o sucesso na empreitada. O tempo segue estável lá fora, já aqui dentro deveria chover papel picado, pois o sentimento é de fim de campeonato e todos sagraram-se campeões. Completamos a volta olímpica até o balcão, onde a contabilidade que é feita no guardanapo não falha: pouco mais de vinte reais pela comida, bebida e workshop de novos xingamentos, ministrado pela dona da casa. Justo, nem preciso fazer figas com os dedos – para torcer pelo saldo positivo – quando a máquina engole meu cartão. Pego uma bala de iogurte no balcão e vou embora desejando uma vida tão honesta quanto um almoço na Cantina Açores.

Escrito pelo Gabriel Protski

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Vida comum parte 1 0 129

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Chegada 0 676

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai