Lembranças Azuis 0 1245

Esta é a segunda vez que escrevo sobre mim, a primeira foi uma carta. Decidi começar hoje, depois de tanto papai insistir para que eu escrevesse. Ele sempre disse que é assim que os escritores descobrem o que sentem, transformando sentimentos em palavras que dão sentidos ao que sentimos. Por isso eu deveria fazer o mesmo quando estivesse triste, para transformar o que sentia em algo melhor.

Tive um dia ruim, por isso escrevo.

Primeiro vou me apresentar: meu nome é Pérsio, tenho 14 anos, gosto de jogar futebol, não gosto de azeitonas porque elas têm os caroços mais difíceis de serem arrancados, e minha cor favorita é o azul porque descobri há dois anos que sou daltônico e tudo o que é verde para os outros, é azul pra mim. Então quando vejo algo azul, fico imaginando se é mesmo azul ou é verde. O azul é uma cor desafiadora para mim, e eu gosto muito de desafios e aventuras, igual ao Dom Quixote.

No ano passado fiz uns exames e o médico falou que tenho uma síndrome.

Síndrome de Asperger é o nome. Na época eu não sabia o que significava e papai disse que era uma síndrome de pessoas que tinham a perna direita mais forte que a esquerda. Por isso deveriam se esforçar para não andarem sempre para a esquerda e cuidarem no futebol, pra não machucar o goleiro na hora de chutar para o gol.

Hoje já sei que Asperger não tem nada a ver com a força das pernas, ainda que eu tenha o chute mais forte da 5ª D. Quem tem Asperger, entre outras, não sente as coisas como nos livros, nada é tão intenso. Papai falou que os sentimentos são tão fortes assim porque aprendemos com os livros, que de tanto ler, o homem começou a viver as metáforas que só existiam nas histórias, igual ao Dom Quixote.

Eu nunca senti falta de sentir as coisas, até descobrir que o Asperger não agia na minha perna direita. A partir daí, passei a viver nas páginas dos livros, porque sabia que lá moravam as sensações. Mas nada dizia nada, ou era tudo sem sentido.

Descobri que apenas a dor física era pra mim. Desde então se tornou uma espécie de masturbação. Trancado no banheiro eu enfiava a ponta do lápis embaixo das unhas dos pés, até ver o sangue. Não gostava, mas queria sentir alguma coisa.

Um dia papai me descobriu com os dedos sangrando. Achei que ia ficar de castigo, mas não. Ele pediu para que eu escrevesse uma carta para uma pessoa desconhecida, contando por que tinha feito aquilo.

Escrevi e contei tudo sobre minha vontade de sentir as coisas. Contei também que, se tivesse um cavalo, sairia pelas ruas até os campos e descobriria finalmente o que é viver de metáforas, igual ao Dom Quixote. Não exatamente como ele, porque não seria uma figura triste.

E já que a carta seria entregue a uma pessoa desconhecida, aproveitei e perguntei a ela o que era a felicidade.

Fechei a carta num envelope e entreguei a papai para que levasse à pessoa desconhecida. Como já era nove e quarenta e cinco da noite, fui dormir, porque acordaria às quinze para as sete do dia seguinte para ir pra escola.

Cinco minutos para me vestir, dez para tomar uma xícara de café com leite e meio pão com geleia de tamarindo, vinte minutos a pé até a escola e lá estava eu, com dez minutos para jogar um pouco de futebol até bater o sinal.

Quando a aula acabou, saí correndo para chegar em quinze minutos em casa, mas encontrei papai no portão, me esperando. Fui até ele e vi que segurava minha carta. Perguntei se ele ainda não tinha entregado.

Ele disse que não, que ele era a pessoa desconhecida e ia me ensinar as coisas que eu não conhecia.

Na hora estranhei e disse que ele não era um desconhecido, mas sim o meu pai. Mas papai me explicou que as pessoas nunca são totalmente conhecidas pela gente. Sempre temos algo a aprender sobre elas, mesmo quando são nossos pais, e que isso torna as pessoas sempre um tanto desconhecidas.

Na hora eu senti uma coisa que agora sei que é o que todo mundo chama felicidade, porque sorri quando soube daquilo.

No caminho de casa passamos no bosque, onde papai falou sobre a felicidade, que a maioria das pessoas acha que felicidade é sinônimo de sorriso, e por isso riem para o vazio, para se sentirem menos sozinhas.

Naquele dia aprendi que sentimos felicidade quando o mundo parece agir de acordo com o nosso bem, e que isso se chama plenitude, que é outro sentimento. Então, a felicidade nada mais é do que uma plenitude muito intensa. É quando caminhamos sem notar que o tempo também está andando. Papai contou que em momentos de felicidade extrema esquecemos do resto do mundo e nada mais importa, só o que sentimos. Ele disse que ficou assim quando eu nasci.

Eu acho que sinto felicidade quando estou dormindo, porque não penso em mais nada. Será que plenitude é uma espécie de sono profundo? Será que a morte é uma espécie de sono profundo? Estar pleno é estar morto? Papai…

A partir deste dia papai me buscava sempre na saída da escola. Fazíamos caminhos diferentes para voltar pra casa, pois era assim que a vida deveria ser vivida: sem rumos pré-estabelecidos, e cada dia ele me ensinava um sentimento à minha escolha.

Um dia ele perguntou se eu sabia o que era o amor. Eu disse que o amor era o que fazia as pessoas casarem, e ele disse que essa é a ideia errada, que o amor era outra coisa. Uma coisa que completa a gente, mesmo que a gente tenha todos os membros, porque ele completa no sentido metafórico. É quando uma pessoa interage com você e desperta o seu melhor, mas não é como no futebol, que um zagueiro ruim faz um atacante parecer melhor, é no sentido metafórico, onde os dragões do Dom Quixote realmente batalham com ele.

Papai disse que entre eu, ele e mamãe existe amor, porque a gente sempre age querendo fazer o outro feliz, sempre queremos ser bons uns com os outros, e que isso se chama amor de família. Na hora senti que papai me amava, porque ele terminou de falar e olhou pra mim com um sorriso, e eu sorri pra ele.

Um dia perguntei a papai o que era tristeza e ele falou que eu era novo demais para essas coisas, que a vida iria me ensinar, porque é impossível viver uma vida inteira sem conhecer a tristeza. E que isso, por si só, já é algo triste.

Eu achei que ele não quisesse me ensinar porque era muito novo também. Tinha quarenta e dois anos e só descobriria o que é a tristeza quando estivesse com o cabelo cinza, e que mesmo assim não iria me ensinar porque só a vida deve ensinar a tristeza, não as pessoas que a gente ama. Mas me enganei.

Hoje, voltando do enterro de papai, chorei. Chorei porque nunca mais vou ver ele fora das lembranças, e que elas vão me causar uma dor mais forte que a ponta do lápis embaixo das unhas.

Soube que era tristeza quando mamãe me abraçou, me deu um beijo na testa, me apertou ainda mais e disse pra eu não ficar triste.

Quando olhei, ela estava sorrindo. Mas eu sabia que era um daqueles risos que as pessoas soltam para o vazio, para se sentirem menos sozinhas. As lágrimas diziam tudo, porque papai uma vez me disse que só os humanos choram lágrimas, que nos outros animais elas não passam de secreção, igual ao suor pra gente.

Não precisei ficar velho pra descobrir o que é tristeza, ou será que envelheci rápido demais?

Agora papai só existe nas minhas lembranças, e às lembranças não se pode ensinar. Papai jamais saberá o que é tristeza, e isso é bom, porque não queremos que as pessoas que amamos fiquem tristes.

Papai prometeu que quando voltasse do hospital iria me ensinar o que é saudade, mas isso vou ter que aprender sozinho.

texto: Rafael Antunes
ilustração: Rebeca Storrer

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Dai-me Amor 0 248

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 389

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.