Lembranças Azuis 0 1932

Esta é a segunda vez que escrevo sobre mim, a primeira foi uma carta. Decidi começar hoje, depois de tanto papai insistir para que eu escrevesse. Ele sempre disse que é assim que os escritores descobrem o que sentem, transformando sentimentos em palavras que dão sentidos ao que sentimos. Por isso eu deveria fazer o mesmo quando estivesse triste, para transformar o que sentia em algo melhor.

Tive um dia ruim, por isso escrevo.

Primeiro vou me apresentar: meu nome é Pérsio, tenho 14 anos, gosto de jogar futebol, não gosto de azeitonas porque elas têm os caroços mais difíceis de serem arrancados, e minha cor favorita é o azul porque descobri há dois anos que sou daltônico e tudo o que é verde para os outros, é azul pra mim. Então quando vejo algo azul, fico imaginando se é mesmo azul ou é verde. O azul é uma cor desafiadora para mim, e eu gosto muito de desafios e aventuras, igual ao Dom Quixote.

No ano passado fiz uns exames e o médico falou que tenho uma síndrome.

Síndrome de Asperger é o nome. Na época eu não sabia o que significava e papai disse que era uma síndrome de pessoas que tinham a perna direita mais forte que a esquerda. Por isso deveriam se esforçar para não andarem sempre para a esquerda e cuidarem no futebol, pra não machucar o goleiro na hora de chutar para o gol.

Hoje já sei que Asperger não tem nada a ver com a força das pernas, ainda que eu tenha o chute mais forte da 5ª D. Quem tem Asperger, entre outras, não sente as coisas como nos livros, nada é tão intenso. Papai falou que os sentimentos são tão fortes assim porque aprendemos com os livros, que de tanto ler, o homem começou a viver as metáforas que só existiam nas histórias, igual ao Dom Quixote.

Eu nunca senti falta de sentir as coisas, até descobrir que o Asperger não agia na minha perna direita. A partir daí, passei a viver nas páginas dos livros, porque sabia que lá moravam as sensações. Mas nada dizia nada, ou era tudo sem sentido.

Descobri que apenas a dor física era pra mim. Desde então se tornou uma espécie de masturbação. Trancado no banheiro eu enfiava a ponta do lápis embaixo das unhas dos pés, até ver o sangue. Não gostava, mas queria sentir alguma coisa.

Um dia papai me descobriu com os dedos sangrando. Achei que ia ficar de castigo, mas não. Ele pediu para que eu escrevesse uma carta para uma pessoa desconhecida, contando por que tinha feito aquilo.

Escrevi e contei tudo sobre minha vontade de sentir as coisas. Contei também que, se tivesse um cavalo, sairia pelas ruas até os campos e descobriria finalmente o que é viver de metáforas, igual ao Dom Quixote. Não exatamente como ele, porque não seria uma figura triste.

E já que a carta seria entregue a uma pessoa desconhecida, aproveitei e perguntei a ela o que era a felicidade.

Fechei a carta num envelope e entreguei a papai para que levasse à pessoa desconhecida. Como já era nove e quarenta e cinco da noite, fui dormir, porque acordaria às quinze para as sete do dia seguinte para ir pra escola.

Cinco minutos para me vestir, dez para tomar uma xícara de café com leite e meio pão com geleia de tamarindo, vinte minutos a pé até a escola e lá estava eu, com dez minutos para jogar um pouco de futebol até bater o sinal.

Quando a aula acabou, saí correndo para chegar em quinze minutos em casa, mas encontrei papai no portão, me esperando. Fui até ele e vi que segurava minha carta. Perguntei se ele ainda não tinha entregado.

Ele disse que não, que ele era a pessoa desconhecida e ia me ensinar as coisas que eu não conhecia.

Na hora estranhei e disse que ele não era um desconhecido, mas sim o meu pai. Mas papai me explicou que as pessoas nunca são totalmente conhecidas pela gente. Sempre temos algo a aprender sobre elas, mesmo quando são nossos pais, e que isso torna as pessoas sempre um tanto desconhecidas.

Na hora eu senti uma coisa que agora sei que é o que todo mundo chama felicidade, porque sorri quando soube daquilo.

No caminho de casa passamos no bosque, onde papai falou sobre a felicidade, que a maioria das pessoas acha que felicidade é sinônimo de sorriso, e por isso riem para o vazio, para se sentirem menos sozinhas.

Naquele dia aprendi que sentimos felicidade quando o mundo parece agir de acordo com o nosso bem, e que isso se chama plenitude, que é outro sentimento. Então, a felicidade nada mais é do que uma plenitude muito intensa. É quando caminhamos sem notar que o tempo também está andando. Papai contou que em momentos de felicidade extrema esquecemos do resto do mundo e nada mais importa, só o que sentimos. Ele disse que ficou assim quando eu nasci.

Eu acho que sinto felicidade quando estou dormindo, porque não penso em mais nada. Será que plenitude é uma espécie de sono profundo? Será que a morte é uma espécie de sono profundo? Estar pleno é estar morto? Papai…

A partir deste dia papai me buscava sempre na saída da escola. Fazíamos caminhos diferentes para voltar pra casa, pois era assim que a vida deveria ser vivida: sem rumos pré-estabelecidos, e cada dia ele me ensinava um sentimento à minha escolha.

Um dia ele perguntou se eu sabia o que era o amor. Eu disse que o amor era o que fazia as pessoas casarem, e ele disse que essa é a ideia errada, que o amor era outra coisa. Uma coisa que completa a gente, mesmo que a gente tenha todos os membros, porque ele completa no sentido metafórico. É quando uma pessoa interage com você e desperta o seu melhor, mas não é como no futebol, que um zagueiro ruim faz um atacante parecer melhor, é no sentido metafórico, onde os dragões do Dom Quixote realmente batalham com ele.

Papai disse que entre eu, ele e mamãe existe amor, porque a gente sempre age querendo fazer o outro feliz, sempre queremos ser bons uns com os outros, e que isso se chama amor de família. Na hora senti que papai me amava, porque ele terminou de falar e olhou pra mim com um sorriso, e eu sorri pra ele.

Um dia perguntei a papai o que era tristeza e ele falou que eu era novo demais para essas coisas, que a vida iria me ensinar, porque é impossível viver uma vida inteira sem conhecer a tristeza. E que isso, por si só, já é algo triste.

Eu achei que ele não quisesse me ensinar porque era muito novo também. Tinha quarenta e dois anos e só descobriria o que é a tristeza quando estivesse com o cabelo cinza, e que mesmo assim não iria me ensinar porque só a vida deve ensinar a tristeza, não as pessoas que a gente ama. Mas me enganei.

Hoje, voltando do enterro de papai, chorei. Chorei porque nunca mais vou ver ele fora das lembranças, e que elas vão me causar uma dor mais forte que a ponta do lápis embaixo das unhas.

Soube que era tristeza quando mamãe me abraçou, me deu um beijo na testa, me apertou ainda mais e disse pra eu não ficar triste.

Quando olhei, ela estava sorrindo. Mas eu sabia que era um daqueles risos que as pessoas soltam para o vazio, para se sentirem menos sozinhas. As lágrimas diziam tudo, porque papai uma vez me disse que só os humanos choram lágrimas, que nos outros animais elas não passam de secreção, igual ao suor pra gente.

Não precisei ficar velho pra descobrir o que é tristeza, ou será que envelheci rápido demais?

Agora papai só existe nas minhas lembranças, e às lembranças não se pode ensinar. Papai jamais saberá o que é tristeza, e isso é bom, porque não queremos que as pessoas que amamos fiquem tristes.

Papai prometeu que quando voltasse do hospital iria me ensinar o que é saudade, mas isso vou ter que aprender sozinho.

texto: Rafael Antunes
ilustração: Rebeca Storrer

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Escala de Baumé 0 248

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Vida comum parte 1 0 1151

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.