23h28 0 66

Na volta pra casa, passamos em frente ao restaurante do nosso primeiro encontro.

A pintura da fachada desgastou com a mesma intensidade que as minhas lembranças.

Vagas, porém vivas.

De lá pra cá vivemos um ritual:

Ela sempre pede um prato novo para experimentar.

Eu peço o preferido dela.

E acabamos trocando depois da primeira garfada.

Por um instante revivi dias que eram azuis e eu não sabia.

Lembrei da primeira vez que a vi adoçar o café.

Aliás, ela adoçava tudo.

O café, o suco, o chá e por fim, minha vida.

Era um tempo em que eu olhava mais pros os olhos dela do que pros ponteiros do relógio.

Quando foi que tudo mudou?

Divago enquanto minhas mãos seguram o volante tão próximas uma da outra, que parecem presas por algemas invisíveis.

Vejo o reflexo distorcido do semáforo vermelho através de uma poça d’água no asfalto.

Reduzo a velocidade. Olho para o lado e a vejo dormindo, com seu doce queixo acomodado sobre o cinto de segurança.

Também vi medos nunca superados, feridas nunca curadas e desejos nunca supridos.

Por um instante sua pele tornou-se uma vidraça, e seus orgãos, suas fraquezas.

O sinal ordena que eu siga.

É o que faço há anos.

Cuidando dela e das suas inseguranças.

Porque mudanças acontecem.

Mas sei que ao despertar,  ainda serei sua inspiração, e ela, minha única certeza.

texto: Jean Suzuki

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O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”

Eu te amei. 0 121

– Eu te amei.
– Você foi covarde.
– E você foi intransigente.
– Eu tive que seguir a minha vida sem você.

Olharam-se, desejaram sorte um para o outro, “a gente se vê por aí…”, um tentou não levar o rancor, o outro só tentou seguir em frente. Um arrumou um novo companheiro, o outro arrumou um novo emprego.
 
Os dois se encontraram ontem por acaso, um deu oi, o outro deu um abraço. Os dois estavam bem. Um foi para a casa com uma velha canção do Jobim na cabeça, o outro se lembrou de um poema do Neruda.
 
Um tem a esperança de que o destino dos dois volte a se cruzar, o outro não.

 
 

texto de Sissa Stecanella

ilustração de Sophia Montenegro