Mãe 0 933

Eu nunca quis ter filhos. Na verdade acho toda essa história de colocar alguém no mundo a maior loucura, e as pessoas chamam de “milagre”. Biologicamente, fomos “abençoadas” com a dádiva de gerar a vida. Mãe é o símbolo do amor imensurável, ou deveria ser.

O que eu lembro, era que só eu ía até o quarto, quando ela não conseguia sair da cama. E os motivos dela eram a infância, seu pai, seu marido, a falta de dinheiro, a vontade louca de se jogar na frente de um caminhão. Ela dizia que aquela tristeza havia começado na adolescência. Ela já nutria desde a infância a ideia de que seu pai a achava feia. De onde ela tirou esse pensamento, é um mistério. Cresceu fazendo desse pensamento, verdade. Não se amava. Sentiu-se menos triste, depois que entrou pra igreja e conheceu Jesus. Aprendeu que deveria “Amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”. Mas como amar a Deus e ao próximo se amor próprio não existe?

Ouvi de tudo. Queria ajudar a resolver, afinal, eu amava minha mãe e queria que ela saísse daquela depressão. Quando usei essa palavra com ela, logo interpretou como uma ofensa, afinal, “depressão era coisa de quem não tinha Deus”. Brigou comigo quando falei pra ela procurar ajuda profissional.

Meu pai não se interessava em saber o porquê daquilo, eu sempre suspeitei que ele não a amava. Brigavam, ele ia para a frente da TV e ela se afundava na cama. Teve uma vez que passou o final de semana sem sair de lá. Só comeu porque me preocupei em levar comida. Passou um mês inteiro sem falar com meu pai. Se abria só comigo, me fazia de psicóloga. E eu no auge de minha maturidade aos 10 anos, ouvia tudo, absorvia tudo, não sabia como ajudar. Escutar aquele falatório nunca doeu tanto quanto a vez que ela disse que queria morrer, que queria nunca ter existido, mas tinha orgulho de ser mãe, e achava que a missão dela nessa Terra era só essa.

Queria que a tristeza dela passasse. Então enchia ela de desenhos e cartas, limpava a casa do jeito que conseguia, para demonstrar o meu amor e, quem sabe assim, fazer com aquela ideia de morrer desaparecesse. Ela tinha fases felizes, sempre se manteve diligente com o trabalho, já que era a fonte de dinheiro da casa.

Meu pai, sem muito estudo, sempre teve um salario baixo. O que era motivo para novas brigas e mais crises depressivas. Durante o final de semana essas crises se intensificaram, e no domingo a depressão que sempre dá em todo mundo, pra minha mãe era motivo de choro. E ela chorava até dormir, sozinha, já que pai ficava até de madrugada vendo TV.  Ficava aquele “climão” pesado.

Foi assim até meus 12 anos, quando eu surtei. Eu via meu pai e minha irmã como parasitas. Eu me sentia sobrecarregada, pois, os desabafos estavam mais e mais frequentes. Cheguei a perguntar pro meu pai se aquilo não afetava ele. Ele me respondeu que “não devemos nos preocupar com aquilo que não podemos resolver”. Achei cruel. Minha irmã vivia num mundo imaginário, particular, que eu tinha inveja. No mundo dela, não existiam desabafos. Só notas azuis no boletim e as novidades de se fazer tudo primeiro, que só os primogênitos conhecem. Financeiramente falando, isso significava, coisas novas pra filha mais velha, que cuidava bem, para que a mais nova usasse depois. Nunca me faltou nada, além da novidade é claro.

Enfim, aconteceu que em uma sexta a tarde, como de costume tínhamos que limpar a casa. As atividades domésticas eram divididas entre eu e minha irmã, já que a mãe trabalhava demais e o pai já “ajudava” cozinhando e lavando a roupa. Minha irmã não queria limpar nada, ela detestava serviços domésticos. Eu também queria detestar, mas vi que, mais brigas viriam se eu resolvesse não fazer nada, além de viver em um chiqueiro. E a casa suja e bagunçada seria mais um motivo para mãe não conseguir sair da cama. E uma oportunidade de desabafar de como eu e minha irmã não a ajudávamos.

Daquela brigas entre irmãs que aconteciam o tempo inteiro, naquela tarde eu sai de mim. Quando em vez de ir cumprir com a parte dela das tarefas, ela resolveu ligar a internet, que na época era discada, aumentando o valor da conta de telefone, pra mim foi a gota d’água. Depois de gritar e xingar a minha irmã de “preguiçosa, retardada, idiota, egoísta” e falar que eu queria que ela “morresse”, comecei a chorar aos prantos, coisa que ela nunca tinha visto, já que eu não fazia parte do “mundinho” dela. Nesse momento me perguntou o que eu tinha. Eu só conseguia repetir em meio aos soluços “eu não aguento mais, vou ficar maluca”. Foi então, que ela me disse “você precisa aprender a não ligar pra essas coisas”.

Eu queria tanto uma solução e a que eu tive foi me afastar. Me fechei e nunca mais me envolvi nos assuntos da casa. Deixei de ir até o quarto quando a mãe estava lá. A partir daquele momento, minha mãe, meu pai e minha irmã passaram a ser para mim exemplos perfeitos do que eu não queria ser.

Quando eu tinha 16 anos a mãe enfim teve condições financeiras de procurar ajuda profissional. Todas as minhas suspeitas foram confirmadas: depressão! Ela descobriu que tinha deficiência na produção de serotonina. Começou a tomar remédios e pode sentir amor próprio. Me disse que aquela vontade de morrer tava passando, pediu perdão por não ter acreditado em mim.

Entendi o que é amor por causa dela, mesmo não lhe entendendo, nem lhe suportando, mesmo não gostando dela em alguns momentos, eu me importava e me preocupava, eu a amo.

E hoje eu estou aqui desabafando tudo isso, porque fiz um exame de sangue e descobri duas coisas. A primeira, é que meu sangue é B -, como o seu, mãe. E a segunda é que deu positivo, estou grávida!

 

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Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Vida comum parte 1 0 1151

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.