Mãe 0 87

Eu nunca quis ter filhos. Na verdade acho toda essa história de colocar alguém no mundo a maior loucura, e as pessoas chamam de “milagre”. Biologicamente, fomos “abençoadas” com a dádiva de gerar a vida. Mãe é o símbolo do amor imensurável, ou deveria ser.

O que eu lembro, era que só eu ía até o quarto, quando ela não conseguia sair da cama. E os motivos dela eram a infância, seu pai, seu marido, a falta de dinheiro, a vontade louca de se jogar na frente de um caminhão. Ela dizia que aquela tristeza havia começado na adolescência. Ela já nutria desde a infância a ideia de que seu pai a achava feia. De onde ela tirou esse pensamento, é um mistério. Cresceu fazendo desse pensamento, verdade. Não se amava. Sentiu-se menos triste, depois que entrou pra igreja e conheceu Jesus. Aprendeu que deveria “Amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”. Mas como amar a Deus e ao próximo se amor próprio não existe?

Ouvi de tudo. Queria ajudar a resolver, afinal, eu amava minha mãe e queria que ela saísse daquela depressão. Quando usei essa palavra com ela, logo interpretou como uma ofensa, afinal, “depressão era coisa de quem não tinha Deus”. Brigou comigo quando falei pra ela procurar ajuda profissional.

Meu pai não se interessava em saber o porquê daquilo, eu sempre suspeitei que ele não a amava. Brigavam, ele ia para a frente da TV e ela se afundava na cama. Teve uma vez que passou o final de semana sem sair de lá. Só comeu porque me preocupei em levar comida. Passou um mês inteiro sem falar com meu pai. Se abria só comigo, me fazia de psicóloga. E eu no auge de minha maturidade aos 10 anos, ouvia tudo, absorvia tudo, não sabia como ajudar. Escutar aquele falatório nunca doeu tanto quanto a vez que ela disse que queria morrer, que queria nunca ter existido, mas tinha orgulho de ser mãe, e achava que a missão dela nessa Terra era só essa.

Queria que a tristeza dela passasse. Então enchia ela de desenhos e cartas, limpava a casa do jeito que conseguia, para demonstrar o meu amor e, quem sabe assim, fazer com aquela ideia de morrer desaparecesse. Ela tinha fases felizes, sempre se manteve diligente com o trabalho, já que era a fonte de dinheiro da casa.

Meu pai, sem muito estudo, sempre teve um salario baixo. O que era motivo para novas brigas e mais crises depressivas. Durante o final de semana essas crises se intensificaram, e no domingo a depressão que sempre dá em todo mundo, pra minha mãe era motivo de choro. E ela chorava até dormir, sozinha, já que pai ficava até de madrugada vendo TV.  Ficava aquele “climão” pesado.

Foi assim até meus 12 anos, quando eu surtei. Eu via meu pai e minha irmã como parasitas. Eu me sentia sobrecarregada, pois, os desabafos estavam mais e mais frequentes. Cheguei a perguntar pro meu pai se aquilo não afetava ele. Ele me respondeu que “não devemos nos preocupar com aquilo que não podemos resolver”. Achei cruel. Minha irmã vivia num mundo imaginário, particular, que eu tinha inveja. No mundo dela, não existiam desabafos. Só notas azuis no boletim e as novidades de se fazer tudo primeiro, que só os primogênitos conhecem. Financeiramente falando, isso significava, coisas novas pra filha mais velha, que cuidava bem, para que a mais nova usasse depois. Nunca me faltou nada, além da novidade é claro.

Enfim, aconteceu que em uma sexta a tarde, como de costume tínhamos que limpar a casa. As atividades domésticas eram divididas entre eu e minha irmã, já que a mãe trabalhava demais e o pai já “ajudava” cozinhando e lavando a roupa. Minha irmã não queria limpar nada, ela detestava serviços domésticos. Eu também queria detestar, mas vi que, mais brigas viriam se eu resolvesse não fazer nada, além de viver em um chiqueiro. E a casa suja e bagunçada seria mais um motivo para mãe não conseguir sair da cama. E uma oportunidade de desabafar de como eu e minha irmã não a ajudávamos.

Daquela brigas entre irmãs que aconteciam o tempo inteiro, naquela tarde eu sai de mim. Quando em vez de ir cumprir com a parte dela das tarefas, ela resolveu ligar a internet, que na época era discada, aumentando o valor da conta de telefone, pra mim foi a gota d’água. Depois de gritar e xingar a minha irmã de “preguiçosa, retardada, idiota, egoísta” e falar que eu queria que ela “morresse”, comecei a chorar aos prantos, coisa que ela nunca tinha visto, já que eu não fazia parte do “mundinho” dela. Nesse momento me perguntou o que eu tinha. Eu só conseguia repetir em meio aos soluços “eu não aguento mais, vou ficar maluca”. Foi então, que ela me disse “você precisa aprender a não ligar pra essas coisas”.

Eu queria tanto uma solução e a que eu tive foi me afastar. Me fechei e nunca mais me envolvi nos assuntos da casa. Deixei de ir até o quarto quando a mãe estava lá. A partir daquele momento, minha mãe, meu pai e minha irmã passaram a ser para mim exemplos perfeitos do que eu não queria ser.

Quando eu tinha 16 anos a mãe enfim teve condições financeiras de procurar ajuda profissional. Todas as minhas suspeitas foram confirmadas: depressão! Ela descobriu que tinha deficiência na produção de serotonina. Começou a tomar remédios e pode sentir amor próprio. Me disse que aquela vontade de morrer tava passando, pediu perdão por não ter acreditado em mim.

Entendi o que é amor por causa dela, mesmo não lhe entendendo, nem lhe suportando, mesmo não gostando dela em alguns momentos, eu me importava e me preocupava, eu a amo.

E hoje eu estou aqui desabafando tudo isso, porque fiz um exame de sangue e descobri duas coisas. A primeira, é que meu sangue é B -, como o seu, mãe. E a segunda é que deu positivo, estou grávida!

 

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Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”