Mãe 0 176

Eu nunca quis ter filhos. Na verdade acho toda essa história de colocar alguém no mundo a maior loucura, e as pessoas chamam de “milagre”. Biologicamente, fomos “abençoadas” com a dádiva de gerar a vida. Mãe é o símbolo do amor imensurável, ou deveria ser.

O que eu lembro, era que só eu ía até o quarto, quando ela não conseguia sair da cama. E os motivos dela eram a infância, seu pai, seu marido, a falta de dinheiro, a vontade louca de se jogar na frente de um caminhão. Ela dizia que aquela tristeza havia começado na adolescência. Ela já nutria desde a infância a ideia de que seu pai a achava feia. De onde ela tirou esse pensamento, é um mistério. Cresceu fazendo desse pensamento, verdade. Não se amava. Sentiu-se menos triste, depois que entrou pra igreja e conheceu Jesus. Aprendeu que deveria “Amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”. Mas como amar a Deus e ao próximo se amor próprio não existe?

Ouvi de tudo. Queria ajudar a resolver, afinal, eu amava minha mãe e queria que ela saísse daquela depressão. Quando usei essa palavra com ela, logo interpretou como uma ofensa, afinal, “depressão era coisa de quem não tinha Deus”. Brigou comigo quando falei pra ela procurar ajuda profissional.

Meu pai não se interessava em saber o porquê daquilo, eu sempre suspeitei que ele não a amava. Brigavam, ele ia para a frente da TV e ela se afundava na cama. Teve uma vez que passou o final de semana sem sair de lá. Só comeu porque me preocupei em levar comida. Passou um mês inteiro sem falar com meu pai. Se abria só comigo, me fazia de psicóloga. E eu no auge de minha maturidade aos 10 anos, ouvia tudo, absorvia tudo, não sabia como ajudar. Escutar aquele falatório nunca doeu tanto quanto a vez que ela disse que queria morrer, que queria nunca ter existido, mas tinha orgulho de ser mãe, e achava que a missão dela nessa Terra era só essa.

Queria que a tristeza dela passasse. Então enchia ela de desenhos e cartas, limpava a casa do jeito que conseguia, para demonstrar o meu amor e, quem sabe assim, fazer com aquela ideia de morrer desaparecesse. Ela tinha fases felizes, sempre se manteve diligente com o trabalho, já que era a fonte de dinheiro da casa.

Meu pai, sem muito estudo, sempre teve um salario baixo. O que era motivo para novas brigas e mais crises depressivas. Durante o final de semana essas crises se intensificaram, e no domingo a depressão que sempre dá em todo mundo, pra minha mãe era motivo de choro. E ela chorava até dormir, sozinha, já que pai ficava até de madrugada vendo TV.  Ficava aquele “climão” pesado.

Foi assim até meus 12 anos, quando eu surtei. Eu via meu pai e minha irmã como parasitas. Eu me sentia sobrecarregada, pois, os desabafos estavam mais e mais frequentes. Cheguei a perguntar pro meu pai se aquilo não afetava ele. Ele me respondeu que “não devemos nos preocupar com aquilo que não podemos resolver”. Achei cruel. Minha irmã vivia num mundo imaginário, particular, que eu tinha inveja. No mundo dela, não existiam desabafos. Só notas azuis no boletim e as novidades de se fazer tudo primeiro, que só os primogênitos conhecem. Financeiramente falando, isso significava, coisas novas pra filha mais velha, que cuidava bem, para que a mais nova usasse depois. Nunca me faltou nada, além da novidade é claro.

Enfim, aconteceu que em uma sexta a tarde, como de costume tínhamos que limpar a casa. As atividades domésticas eram divididas entre eu e minha irmã, já que a mãe trabalhava demais e o pai já “ajudava” cozinhando e lavando a roupa. Minha irmã não queria limpar nada, ela detestava serviços domésticos. Eu também queria detestar, mas vi que, mais brigas viriam se eu resolvesse não fazer nada, além de viver em um chiqueiro. E a casa suja e bagunçada seria mais um motivo para mãe não conseguir sair da cama. E uma oportunidade de desabafar de como eu e minha irmã não a ajudávamos.

Daquela brigas entre irmãs que aconteciam o tempo inteiro, naquela tarde eu sai de mim. Quando em vez de ir cumprir com a parte dela das tarefas, ela resolveu ligar a internet, que na época era discada, aumentando o valor da conta de telefone, pra mim foi a gota d’água. Depois de gritar e xingar a minha irmã de “preguiçosa, retardada, idiota, egoísta” e falar que eu queria que ela “morresse”, comecei a chorar aos prantos, coisa que ela nunca tinha visto, já que eu não fazia parte do “mundinho” dela. Nesse momento me perguntou o que eu tinha. Eu só conseguia repetir em meio aos soluços “eu não aguento mais, vou ficar maluca”. Foi então, que ela me disse “você precisa aprender a não ligar pra essas coisas”.

Eu queria tanto uma solução e a que eu tive foi me afastar. Me fechei e nunca mais me envolvi nos assuntos da casa. Deixei de ir até o quarto quando a mãe estava lá. A partir daquele momento, minha mãe, meu pai e minha irmã passaram a ser para mim exemplos perfeitos do que eu não queria ser.

Quando eu tinha 16 anos a mãe enfim teve condições financeiras de procurar ajuda profissional. Todas as minhas suspeitas foram confirmadas: depressão! Ela descobriu que tinha deficiência na produção de serotonina. Começou a tomar remédios e pode sentir amor próprio. Me disse que aquela vontade de morrer tava passando, pediu perdão por não ter acreditado em mim.

Entendi o que é amor por causa dela, mesmo não lhe entendendo, nem lhe suportando, mesmo não gostando dela em alguns momentos, eu me importava e me preocupava, eu a amo.

E hoje eu estou aqui desabafando tudo isso, porque fiz um exame de sangue e descobri duas coisas. A primeira, é que meu sangue é B -, como o seu, mãe. E a segunda é que deu positivo, estou grávida!

 

Previous ArticleNext Article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Dai-me Amor 0 174

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 318

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.