Qualquer erro é mera coincidência 0 468

postado por Ander.

Eis que ontem no submundo light AKA lapa surgiu ao lado de nossa mesa um tipo artista velho underground oferecendo seus serviços: desenhar um retrato de alguém da roda. Talvez nunca teríamos topado desembolsar 10 pila se o tal sujeito não tivesse se apresentando como Fernandinho Buarque de Hollanda, primo de Chico Buarque, o que ficou provado não só pelo artigo num jornal amarelo e plastificado, mas também pelos olhos: idênticos ao do baluarte da ‘nossa’ música popular brasileira. A principio totalmente encantada, fiquei vidrada no desenhista que introduziu várias gírias do seu contexto no nosso e contou várias histórias.

Entre um traço e outro, chegavam vários bróders e cumprimentavam-no, talvez fossem estes uma possível velha guarda da Lapa, o que era muito divertido de ficar imaginando, talvez não, mas whatever, já que os tempos imemoriais da malandragem carioca ultrapassam qualquer obrigatoriedade com a veracidade da história. Afinal fantasiar sobre o que não se viveu e encarnar no coração esse espírito do passado é feito pelos seres humanos a todo tempo, quando buscam algum traço mais lúdico para a própria existência.

Fernandindo trampa no jockey club do rio de janeiro as sextas, sábados e domingos, cuidando de potrinhos, “aqueles cavalinhos pequenos” e nos convidou para visitá-lo, mora no Curvelo, ali em Santa Tereza e alegou que o dinheiro ganho pela sua arte seria destinado a alguns rolos de esparadrapo para o filhinho do vizinho, de 5 anos, que andando de skate perdeu dois dedinhos do pé.

A poesia escrita no verso do retrato disse ser de Clarice Lispector, uma homenagem, já que supostamente era o dia do aniversário dela. Mentira, não era aniversário de nascimento, nem de morte da escritora. Ele não teve um filho com ela, tampouco era Julinho de Adelaide, pseudônimo do seu primo.

Sua presença acompanhada de várias frases de efeito porém, nos serviu de história pra mais uma noite etílica e desocupada.

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Distante das Linhas de Nazca 0 967

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 782

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski