Individualidades absorvidas 0 424

postado por Rafaé

         Fórmulas matemáticas e álcool. Oito em cada dez frequentadores do Largo da Ordem vivenciam ao menos um destes prazeres. A estatística não possui uma fonte oficial, portanto se você, meu caro, necessita de dados oficiais, pode trocar meus números pelo termo “maior parte”.

         Se a noite é de calor, a história se repete: bares lotam as calçadas com suas mesas e cadeiras de madeira. Olhando ali, a pluralidade dos clientes se mistura e já não se consegue os observar individualmente. Sabe-se apenas que, na média, a combinação álcool e cotidiano nutre a ideia de lazer – que os trouxe até ali.

         Mas independente de calor ou frio as salas do curso pré vestibular ao lado estão sempre lotadas. Ironia ou não, elas possuem uma visão panorâmica para os bares. Tortura, só pode!

         Cada grupo com seus prazeres e obrigações. Mas olhando daqui, da calçada, com a pressa que andamos, o que vemos são duas enormes massas. Sem pensar definimos: de um lado, os que se divertem no bar, do outro os dedicados que se esforçam em estudar. Obviamente sem pensar, pois nossa individualidade é sempre mais importante que a dos outros. É claro que essa definição é leviana, como muitas que temos em nossas vidas, por comodidade ou insegurança.

         Em meio aos que se divertem no bar, temos os inconformados, os não correspondidos e os deprimidos, que veem na bebida uma última alternativa antes da derradeira saída – pela janela. Já nas salas de aula, olhando aqui de baixo, não percebemos os que vagam em seus pensamentos, longe dali (talvez no bar). Isso sem contar os que começam belos relacionamentos com uma quase inocente troca de bilhetes escondida. Jamais conseguimos perceber as individualidades olhando de fora. Parte por pressa, parte por comodidade.

         Passando por aqui, entre bares e salas de aula, perdidos em nossos devaneios, não nos dispomos a perceber a individualidade dos outros. E para eles, se é que me percebem aqui, sou apenas uma peça que compõe a massa dos errantes caminhantes – sem individualidade alguma.

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Distante das Linhas de Nazca 0 963

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 776

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski