A liberdade de quem ama 4 447

postado por Rafaé

Nada daquilo faz sentido. Estes últimos meses não existiram. Quero voltar a viver.

O silêncio que se seguiu foi inevitável. Assim como foi violenta a profundidade com que o olhar de Alice invadiu o de Bento, antes mesmo que ele terminasse de falar. Meses se passaram naqueles segundos. Quilômetros foram rodados dentro daquele meio metro que os separava.

Encharcaria minha vida com todo suor necessário pra chegar até você, Alice.

Mais silêncio. A imensidão silenciosa engolia todos aqueles meses em que Bento se torturou pela liberdade do seu amor – Alice.

Alice livre, sorridente – distante, ausente.

Marteladas diárias por não saber onde estava sendo depositado o carinho que um dia o protegeu e motivou seus sorrisos. As dores de não receber notícias de quem se quer. Deus sabe o quanto pedi pra que lhe livrasse desta corrosiva sensação.

Diariamente Bento se banhava, se vestia e se perfumava pensando na melhor combinação para um possível encontro com Alice, ao acaso. E assim se lançava às ruas, sem um rumo estabelecido.

Sorriso colado na cara, tão caro aos solitários.

Mas na madrugada de hoje, a combinação não o satisfez. A submissão de sua felicidade ao acaso o irritou. E como pensou em fazer várias vezes, pegou sua bicicleta e pedalou, por toda a linha que os unia, com curvas, retas, subidas e descidas iluminadas pelas luzes amareladas dos postes.

Não sentiu cansaço ou dúvida. O foco era certo. Há tempos não fazia o trajeto, mas a sensação era presente e forte o suficiente pra esquecer o tempo que passou sem senti-la. Logo estava lá, diante do portão de Alice. Todas as luzes apagadas.

De uma hora para outra, sua roupa se encharcou com o suor gelado. Talvez pelo cansaço. Talvez pelo nervosismo. Mas o corpo de Bento escorria suor e suas pernas pareciam amortecidas.

Não hesitou. Campainha tocada, era só esperar por Alice.

Nada daquilo faz sentido. Estes últimos meses não existiram…

Após um silêncio frio de mais de um minuto, Bento sentia o momento gelar, desmanchar sob o sereno que molhava ainda mais as suas roupas… E aos poucos seu olhar foi desviando daquele embate de subjetividades.

Eis que Alice dispara sua única frase na noite.

Estes meses existiram e foram vividos.

Como se reativado, o espaço-tempo voltou a funcionar. O tempo escorria. O meio metro voltou a ser quilômetros…

Talvez estes olhares jamais se penetrem como em outros tempos. Talvez nunca mais se cruzem. Mas Bento continuará a pedalar atrás, rezando por uma possível felicidade.

E mesmo sem cantar direito, voltou pra casa tentando relembrar a música…

“O seu amor
Ame-o e deixe-o
Livre para amar
Ame-o e deixe-o
Ir aonde quiser
Ame-o e deixe-o brincar
Ame-o e deixe-o correr
Ame-o e deixe-o cansar
Ame-o e deixe-o dormir em paz
Ame-o e deixe-o
Ser o que ele é” ***

Obviamente chegou em casa encharcado de suor, sereno e lágrimas. Despiu-se, entrou no banheiro e, diante do espelho, colou um sorriso na cara, tão caro aos solitários.

***Trecho da música O seu amor, do Doces Bárbaros.

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Distante das Linhas de Nazca 0 965

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 779

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski