Seu lixo 0 638

postado por Henrique, o boss

Naquela noite, terminadas as tarefas, faltava apenas retirar o lixo da casa, que estava encostado na porta da sala do apartamento aguardando seu destino. Colocou as sandálias e levou-os até a central de lixo do condomínio. Uma tampa para o reciclável e outra para o orgânico. Feito isso, após fechar a tampa final tropeçou em uma lajota solta, o que soltou a tira de sua havaiana direita. Foi se abaixar para arrumar as ditas, mas raspou com vigor o braço em uma farpa de metal na enorme lata de lixo do condominio “eu sabia que isso iria acontecer um dia, está aí há meses”.
Após essa rápida crise de culpa branda resolveu correr para o apartamento para limpar o corte no ante-braço. Ao pegar o elevador um cara vestido de verde “tendo um dia ruim?” “nem me fale, a esta hora da noite vou levar o lixo pra fora e ainda corto o braço. E isso é só uma parte da história”. Com um sorriso esquisito, o estranho aperta o botão de emergência, travando o elevador. “E sua noite está apenas começando. Você sabia que o lixo que não é lixo, não vai pro lixo?” “O que?” “Mas você vai!”
Ao abrir a porta do elevador, uns pombos misturados a alguns urubus voam assustados com a luz que sai do elevador. “Amigo, eu não sei quem é você, mas me leva de volta já, preciso cuidar do meu braço”. “Assim ficamos iguais” e cortou o ante-braço no mesmo lugar. “Podemos ir agora?” E empurrou o condômino para fora do elevador, que se fechou.
Escuridão de 92%. Ouvia apenas um barulho de asas longe e perto. Mas o cheiro. Notas de bosta misturadas com lixo clássico de pia de cozinha, com tons de cerveja amanhecida acompanhadas de ondas do inconfundível aroma de mercúrio de baterias esgotadas. “A maioria das pessoas acredita em mágica. Aquela sensação de que o lixo desaparece”. E o sangue escorria dos braços. “Por favor, porque você está fazendo isso?” “É minha função” e começou a cavar, ou melhor, abrir espaço em meio ao lixo.
O nosso condômino já estava em vias de desmaiar quando resolve em um último lampejo de desespero correr. Mas cai em um buraco em meio aos buracos que se formam aleatoriamente entre os sacos de lixo do Mercadorama, Big e toda uma variedade de sacolas não biodegradáveis. “Como quiser” e começou a jogar lixo e mais lixo em cima do moribundo.
Terminada a cerimônia, o rapaz de verde, robusto, enrola um pedaço de pano qualquer em seu corte e aperta o botão do elevador. A porta se abre, o ambiente é inundado por um corredor de luz. Novamente alguns pássaros se dispersam, a porta se fecha e em seguida ele sobe em direção aos céus.
Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Distante das Linhas de Nazca 0 1277

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 1213

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski