O outono levou o meu amor 2 803

Essa nossa vida gosta mesmo de um romance, né moço? Lembro como se fosse ontem da última viagem que fiz com o meu velhinho. Era um mês de maio bonito, com as folhas caindo para anunciar o outono, e nós achamos que conhecer Buenos Aires seria uma boa comemoração para os nossos 58 anos de casados. Sabe, o Bernardo, o meu velhinho, conseguia fazer até mesmo uma ida à panificadora ficar mais interessante, e sugeriu que fôssemos em segredo, sem contar a ninguém. “Igual fazíamos naquela época…”, ele disse. E eu aceitei. Eu sempre aceitava.

A verdade é que “naquele tempo” ainda tínhamos alguém de quem fugir, mas depois que envelhecemos acabamos sendo a família um do outro. Nossos poucos amigos se foram antes de nós, não tínhamos irmãos e nunca conseguimos ter filhos. Não que não tivéssemos tentado, porque com a energia que ele tinha ficávamos dias e dias sem sair do quarto. Também éramos muito saudáveis (ele comia um limão todos os dias em jejum, pra renovar as vitaminas) mas aconteceu de nunca acontecer. Sabe como é a vida, não adianta ficar forçando as coisas, né? Um dia, quando ele percebeu que aquilo estava me deixando deprimida, voltou mais cedo do trabalho com um buquê de rosas brancas, uma caixa do meu chocolate preferido, e falou que o nosso amor era igual àquele chocolate: tão grande e tão gostoso, que provavelmente deveríamos guardar só pra nós dois. Devia mesmo ser verdade, e eu acreditei. Eu sempre acreditava.

Que que eu tava falando mesmo? Ah sim… nosso vôo fez uma conexão no Uruguai – é conexão que se fala, né? – e o vôo para Buenos Aires atrasou por causa de uma bendita chuva. Eu estava cansada do vôo anterior, e aquelas cadeiras duras do aeroporto estavam me matando! Ele falou que eu não precisava me preocupar, que era pra eu ficar ali esperando enquanto ele ia descobrir o que estava acontecendo. E eu fiquei. Eu sempre ficava.

É incrível, moço. Você passa 50, 60 anos ao lado de uma pessoa, ela sai por 5 minutos pra ir ao banheiro e você já sente saudades. É como se o amor fosse tão urgente, que todo o resto pudesse esperar. E enquanto meu Bernardinho tentava descobrir quando que a gente ia sair daquele aeroporto-país, eu fiquei ali esperando, tentando confortar os meus 75 anos naquela cadeira mais dura que rapadura amanhecida. Ele jurou que não levou mais de 10 minutinhos, mas pra mim demorou mais tempo que a viagem inteira. No início eu achei que ele tivesse parado pra tomar uma água, ou não estivesse entendendo o que as pessoas estavam falando, porque lá embaixo só o Brasil que fala português. Os vizinhos todos falam um espanhol indígena meio arrastado. Mas ele começou a demorar mais, e mais, e você sabe como é a imaginação. A gente sempre pensa no pior. Comecei a imaginar que ele tivesse passado mal, caído em cima das garrafas de whisky caro, tido um ataque do coração, ou valha-me Deus o que mais poderia ter acontecido. Tinha um casal novinho, novinho sentado ao meu lado esperando o mesmo vôo, e percebeu a minha preocupação. Eles tentaram me acalmar, falando que se tivesse acontecido alguma coisa com ele teriam avisado no microfone. É por isso que essa juventude de hoje está estragada, eles acham que está sempre tudo bem. Mas o meu velho poderia ter morrido e eu nem ficaria sabendo, moço! Não era pra ficar preocupada? É o homem da minha vida, eu me preocupei. Eu sempre me preocupava.

Depois disso vi ao longe um homem de cabelos brancos, óculos antigo, jaqueta marrom, calça social, olhando para todos os lados sorrindo e andando meio arqueado, com as mãos cruzadas pra trás – ele dizia que era porque o coração dele era muito grande, então tinha que balancear o peso com as mãos. Aiai meu velhinho… – você tem um lenço aí, moço? Obrigada. As cataratas dificultaram um pouco pra ter certeza que era ele, mas era. E quando eu tive certeza, não sabia se ficava mais aliviada por ele estar bem ou brava pela demora, até que ele chegou dizendo “Amorzinho, o avião vai atrasar mais um pouco, mas está tudo bem. Eu trouxe um chocolatinho pra te deixar mais feliz.”. Acho que eu vou precisar do lenço de novo, moço. Agradecida. Tem como não se emocionar com um homem que depois de tantas rugas ainda te chama de amorzinho e traz chocolate pra ver você sorrir? Eu me emociono. Eu sempre me emocionei.

Algumas semanas depois de voltarmos da viagem o coração dele parou mesmo, e eu entreguei meu velhinho pra Nossa Senhora cuidar até eu chegar lá. Eu fiquei meses sem sair de casa, e estes 3 últimos anos duraram mais que uma vida, até que eu percebi que teria que reaprender a viver. Sabe, tudo de novo? Reaprender a pegar as cartas, a ir comprar pão, a sair na rua sozinha, a ligar a televisão no horário da novela, e a comprar o meu chocolatinho. E a cada vez que eu fazia isso, podia jurar que escutava ele falando “Parabéns, amorzinho” no meu ouvido, como ele sempre fazia. A verdade é que a gente nem percebe o quanto depende de uma pessoa. O meu Bernardinho me ensinou a ver a vida de um jeito mais encantador, mesmo depois de não estar mais aqui. E é por isso que eu estou indo levar as cinzas dele pra jogar em Paris, a cidade mais romântica do mundo. Ele merece, né? Ele sempre mereceu.


Ô moço, agora é você quem está precisando do lenço. Toma aqui. Obrigada, viu?
André Petrini. 
Foto: nunodantas / cc

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Escala de Baumé 0 2195

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Vida comum parte 1 0 2834

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.