Acorde 0 681

Marco Antonio Santos

– É meio simples, na real. É dó na sexta corda, mi na terceira, lá na segunda e dó de novo, mas na primeira. 

E é isso. E daí muda, e vira esse outro aqui. Tá vendo o desenho?

(pausa de quatro segundos e alguns milésimos)

Oh. Tá prestando atenção?

– Tô sim.

– Tá o que? Prestando atenção aqui ou na TV?

– Nos dois.

– Não dá, cara. Se você quiser ver TV eu paro de mostrar isso aqui.

– Tá.

Eu tô com a cabeça meio voando, na verdade. Sabe o futebol?

– De terça?

– É.

– O que que tem?

– Então. Diz que essa semana não vai ter.

– Ah, beleza. Eu não ia poder jogar, também.

– Pois é. Acho que foi por isso que cancelaram. Mas sei lá.

– Tá.

Naquela manhã, todos os assuntos foram amenos.

Durante a tarde, gastei alguns minutos tentando formular uma piada ou um conceito. Já não lembro do raciocínio completo, por duas razões. Primeiro, porque não anotei a anedota. Segundo, porque quando terminei de pensar, percebi que ela não era tão legal assim.

De qualquer forma, era mais ou menos assim que a coisa ia.

Era alguma coisa sobre o trajeto profissional de um cara dentro de uma empresa. Tipo ascensão e queda. Nessa empresa as pessoas trabalham de terno e gravata, ou tailleur, essas coisas. O que eles produzem ou vendem não importa. O cara é um funcionário médio, e nem é do alto escalão nem nada, mas é escolhido pela diretoria pra virar o novo presidente da companhia, por alguma razão que ninguém tem muita certeza, e ninguém também tem coragem de perguntar mais abertamente. Aí fica aquele burburinho pelos corredores. Aquele clima desagradável, e tal. Agora, o cara em si nem percebe, porque ele é meio desligadão, e não tem tato ou habilidades sociais tão bem desenvolvidas pra se ligar nesse tipo de coisa. O cara é um pária. Todos os outros funcionários ficam desconfiados, porque o cara nem era tão bom assim nas coisinhas que fazia, e obviamente não tem preparo à altura de um cargo tão alto. E tem também o grande lance, que na verdade é o grande lance de todas as atividades humanas, que é a questão do ego. Os de alguns dos que também queriam aquele cargo, mais especificamente. Eles ficam meio de birra com o cara, e sei lá mais o que. Inveja. É coisa de idiota. Mas existe. Todo mundo sabe. No primeiro dia de trabalho do novo presidente como presidente, e não só mais como “o rapaz que senta ali”, ele chega mais ou menos uma hora e quinze atrasado. Até telefonam pra ele, e tudo, mas ele diz que está preso no trânsito. É mentira. Ele estava dormindo. Sabe quando alguém telefona pra você de manhã, e você quer fingir que já estava desperto há muito tempo, e fala com a voz firme, e esse tipo de coisa? Então. É assim que ele faz. Mas todo mundo no escritório fica esperando o cara numa atitude estranha, ferina. Quando ele chega, começa a pedir desculpas pro pessoal, dando aqueles sorrisinhos de canto de boca, que não convencem ninguém, e que nunca fizeram ninguém parecer especialmente agradável ou simpático. Mas ele dá. E os funcionários se olham de forma estranha, como se reprovassem o novo chefe em silêncio, e até o volume dos “bom dia” é baixinho, e um cara que é um pouco mais próximo do novo presidente resolve lançar um “Bom dia não. É boa tarde, né, meu camarada?”. O novo presidente parece meio embaraçado, meio ofendido. Completamente perdido. É estranho.

O fato é que eu tenho que trabalhar um pouco melhor isso. A brincadeira tratava da inadequação do sujeito num ambiente que já era um tanto hostil antes, e agora vai ficar muito mais. Até a moça que, entre outras coisas, faz o cafezinho na empresa faz questão de desprezar a autoridade do cara. Ela finge que não é informada sobre as reuniões entre ele e a diretoria, pra fazer ele parecer irresponsável quando não serve nada pros convidados. A brincadeira não era nem sobre as situações. Era sobre o clima nesse lugar.

Existem ideias que movem, e outras ideias que param.

Essa moveu meus pensamentos por alguns minutos.

Mas ideias mais bobas que esta já moveram muitas horas da minha vida em outros tempos e em outras circunstâncias.

Durante a tarde os assuntos também foram amenos.

Houve certa confusão quanto à nossa decisão sobre o que almoçar. Não tínhamos muito dinheiro, como quase nunca temos, mas estávamos tentados a comer fora. Depois de uma conversa, evitamos este equívoco e cozinhamos um espaguete com molho vermelho (do jeito mais genérico possível), com uma salada de tomates e alface para acompanhar, e uns bifes de alguma carne barata. Acho que era patinho, ou alguma coisa assim. Não faz tanta diferença. Tomamos caipirinha e umas cervejas. Sempre temos dinheiro para o que não presta.

Saímos à noite. Fomos a um bar, depois para outro, e depois para outro, mas por este terceiro apenas passamos para buscar um casal de amigos. A noite prometia, ou pelo menos parecia que sim. A verdade é que me esforço para pensar que elas sempre prometem. Acho uma pena que quase nunca cumpram. Os assuntos eram amenos, mais uma vez, mas naquele momento e naquele contexto fazia sentido não falar de coisas sérias. A gente queria se divertir. Estávamos todos bêbados. Entramos numa balada. Dançamos. Bebemos mais. Alguém chorou no balcão. Acho que fui eu, de forma disfarçada, enquanto olhava para o chão fingindo que estava procurando alguma coisa, escondendo os olhos e pensando, pensando, pensando. Ou talvez tenha acontecido em uma das vezes em que fui ao banheiro, aí tranquei a porta, olhei para a pessoa no espelho, não gostei do que vi e comecei a pensar, pensar, pensar. Enfim. Não tenho certeza de que era eu chorando. E como não tenho certeza se fui eu, não me estendo sobre o tema. Alguém passou mal. Não lembro se era algum dos meus amigos. Acho que não. O casal brigou em alguma altura, e voltaram a se entender pouco depois. Alguém perdeu o telefone celular na pista de dança. Não fez diferença alguma para mim. Na hora de ir embora, me postei na fila para pagar minha conta e reparei que dois homens começaram a brigar ali por perto. Todo mundo virou para acompanhar. Aproveitei a brecha e cheguei antes de todos à área dos caixas. (acho até que vi seus olhos). O cara com quem divido casa e contas me avisou de que estava saindo também, então o esperei do lado de fora. Não vi o casal de amigos em mais nenhum momento naquela noite.

Voltamos para casa. Este foi um sábado qualquer. Ou sexta. De sexta pra sábado, ou de sábado pra domingo. Tudo é anestesia e ilusão. Ou não. Talvez eu esteja sendo injusto, porque afinal de contas este é o tipo de risco que a gente sempre corre, o tempo inteiro. Sobretudo quando falamos. Porque tendemos a achar o que pensamos correto, então não gastamos muito tempo com julgamentos morais sobre nossos próprios pensamentos. Não precisamos arcar com as consequências do que pensamos. Mas precisamos arcar com as consequências do que falamos. Sei lá. Não sei por que toquei no assunto. A gente sempre corre o risco de parecer bobo. A gente sempre corre o risco de parecer limitado. A gente sempre corre o risco de ser atropelado, se não prestarmos atenção na hora de atravessar a rua, ou se estivermos trocando de música no nosso aparelho de mp3 no momento errado. Agora é só assim que se ouve música. Mp3 player, telefone celular, esse tipo de coisa. Uma hora dessas vou me deter a pensar melhor sobre essa coisa de ouvir música de forma personalizada, nesse modo em que escolhemos nossas listas de reprodução e desprezamos a grande gama de informação que…enfim. Vou pensar nisso, e nas consequências positivas e negativas disso. Mas outro dia. Ou outro mês. Tenho que começar pensando se faz algum sentido gastar tempo e energia com isso. Ou com qualquer coisa.

Meu companheiro de casa arranjou um emprego novo. Ele começa em breve. Vai ganhar mais dinheiro que no emprego anterior, fazendo uma coisa que já sabe fazer muito bem. Parece bom. Espero que seja. A namorada dele vai voltar a morar aqui. Ele parece feliz com isso, apesar de ela ser meio louca. Claro que não posso afirmar isso, mas ele parece feliz mesmo. E ela parece louca mesmo. A minha namorada não vai voltar a morar aqui. As contas têm vindo mais caras nos últimos meses. Isso é pensar de forma utilitarista. Mas eu não preciso pedir desculpas pelo que penso. Talvez precise pedir desculpas por compartilhar o que eu penso. Nesse caso, aqui está o pedido: desculpa.

Que seja.

Admito a hipótese de que a vida seja, de fato, uma experiência alucinante. Só acho uma pena que este feliz acidente não tenha ocorrido com a minha. Acho que um meteoro vai cair aqui, mas não tenho certeza do motivo de pensar assim. Talvez eu apenas queira que ele caia. Ou que seja uma turbina de avião, que nem naquele filme do rapaz que é sonâmbulo e está dormindo num parque lindo quando uma turbina de avião cai no quarto dele, e depois ele começa a conversar com um coelho enorme que tem uma voz muito assustadora e que fala pra ele que o mundo está para acabar, e o jovem sabe que é verdade, de alguma forma. Está aí. Eu apenas acho que um meteoro vai cair aqui.

Não consegui ensinar a música pro cara que mora comigo. Ele não mostrou muita vontade de aprender, de qualquer forma. O que é curioso, já que ficou me enchendo o saco durante vários dias para que eu gastasse algumas horas mostrando os movimentos tanto da mão esquerda quanto da mão direita. De qualquer forma, ele gosta dessa progressão de acordes. Eu também. Mas sou suspeito.

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Escala de Baumé 0 1908

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Vida comum parte 1 0 2581

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.