Cartas de Camila – Para Joel 0 568

 

Deisy Soares

As cartas caiam das mãos aflitas de Tia Clarice. Ela acabara de ler palavras fortes e lindas demais para o seu coração velho e entristecido compreender.

Desajeitadamente, ela se acomoda na cama e abre outra carta de sua falecida sobrinha. Escrito a mão, com letras desenhadas estava o nome de Joel.

“Para um grande amigo chamado Joel, 

 

Ah meu pequeno, ainda me lembro de quando te conheci. Você era uma pessoa triste e parecia tão solitário. Hoje tem um sorriso leve, iluminado, o tipo de sorriso que faz com que as pessoas ao seu redor sintam-se melhores do que realmente devem ser. Que bom saber que um pouco disso veio da semente que plantei no seu coração, dando a ele algo em que acreditar, algo chamado amizade.

 

Quanta inspiração você me trouxe. Com esses olhos brilhantes que mais lembram os de uma criança que ainda está descobrindo o mundo. Sujeito hiperativo que não quer fazer descobertas um dia de cada vez, mas quer descobrir tudo em um segundo.

 

Como um menino que se lambuza comendo marmelada até ficar com a cara grudenta, que ao mesmo tempo sai correndo, sem limpar a boca ou lavar as mãos, esquecendo até de respirar. Porque tem pressa, quer fazer tudo, quer mudar o mundo.

Lembra quando eu estava pensando em fazer um poema sobre aquele choramingo da Bianca? Que ideia foi aquela mesmo? “Amor, preocupação e dor de cotovelo”, haha! É uma pena, mas ainda não consegui escrevê-lo, quem sabe esse pode ser o título para um texto escrito por você, o que acha?

 

Você e suas ideias. O tempo todo me dizendo que sou uma menina boba e ingênua, e minha teimosia mandando eu te dizer que isso é um baita equívoco da sua parte. Haha, discussões divertidas.

De qualquer forma sempre gostei de ver em seus olhos uma Camila pequena, frágil e serelepe. Faz com que eu me sinta confortável em mostrar os meus defeitos e em parecer uma pessoa maluca. Sensação que você nunca deve ter notado, por que o Sr. Joel não é muito atencioso para essas coisas.

Mas saiba meu grande companheiro, passamos por tantas coisas engraçadas, lindas, leves e fortes. Lembranças que mudaram a minha vida, marcaram a nossa história. Jamais vou poder expressar o quanto você foi importante em minha vida. Cansei de ouvir sobre a sua vontade de mudar o mundo e só deixo aqui a minha opinião: 

 

Talvez você não consiga mudar tudo o que existe de ruim no mundo, mas de alguma forma acho que está fazendo a coisa certa, pois, o meu mundo você conseguiu mudar, mudar para a melhor.

 

Por esses dias estou um pouco preocupada, ando sentindo aquelas dores no peito. Sinto como se o meu coração fosse explodir entre as minhas costelas. Imagine aquelas farpas de madeira que se encravam embaixo da unha do dedo indicador. Sabe aquelas pontadas? Pense que não é um dedo, mas meu coração, açoitado, desesperado, aflito. Sinto-me assim quando percebo que o mundo não pode mudar só com o amor que eu tenho nas mãos.

Se eu me for, e eu sinto que será logo, por favor, não volte a ficar sozinho nem sinta a minha falta, por que eu sempre vou estar com você. Pense em mim em cada galho de árvore serelepe, voando, com o sopro do vento.

Com carinho, Camila.” 

 

Ainda do outro lado da folha, um pequeno poema escrito com letras corridas e um pouco borradas.

 

“No instante em que seus olhos encontram os meus, eu desvio o olhar, deixando com que ele desça até os seus lábios.

Seguro o seu rosto, de leve. Fecho os meus olhos. Beijo seu rosto. Sinto seu cheiro. Meu coração e o meu corpo se desesperam com o sangue que queima em minhas veias.

Sinto as minhas pernas tremerem, enquanto nossos lábios se tocam. Aos poucos, levemente, eles se tocam. E nada mais importa nesse mundo. 

 

Céu escuro, onde as estrelas cadentes não existem e a lua deixou de brilhar. O que será feitos dos amantes apaixonados e dos sonhadores que caminham à noite em busca de inspiração e amor? 

 

Tem dias que eu só queria não sentir tanto sentimento e tanta saudade dos momentos com muitos sorrisos e pouco juízo”

Joel e Camila se amaram em um sonho de quinta feira, enquanto ela dormia um sono cansado por sentir dores fortes no peito.

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Distante das Linhas de Nazca 0 1052

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 879

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski