Texto de em 29 de novembro de 2015 . Nenhum comentário.

Como sobreviver a toda essa loucura? Fazendo pão!

Pensei que sendo útil, minha situação poderia melhorar, e como o pão é algo muito significativo no que se refere à religião, eu pensei que poderia ser o padeiro oficial da igreja de Doris. Então comecei minha indústria, segui a receita e fui juntando os ingredientes do que seria um lindo pão, deveras saudável. Cinco xícaras de farinha de trigo, duas de farinha integral, uma xícara repleta de óleo, quatro colheres das de sopa de açúcar mascavo, uma colher cheia de sal, quatro colheres das de sopa de linhaça, duas xícaras de farelo de trigo e um saquinho de fermento seco e água morna. “Pronto, agora vai!” Sovei a massa e reservei esperando que crescesse, era uma questão de tempo e quando dobrasse de tamanho, faltariam apenas alguns detalhes. Eu estava todo orgulhoso de mim e minha modéstia que já não existia, tinha se dissolvido em um copo de cerveja que testemunhava o grande acontecimento.

Mas não foi! O pão não cresceu o milagre não ocorreu. Eu observava a massa esperando perceber qualquer indício do aumento de tamanho, mas qual, nada, nem um pobre milímetro. Foi aí que uma grande crise se instalou em mim, o mau humor tomou conta de meu ser, a angústia e o desespero também. Maldita hora que eu decidi ser útil, aquele maldito pão acabava por atualizar todas as malditas coisas nas quais nunca obtive sucesso. As derrotas amargas cuspidas e escarradas em minha face, todas as coisas que algum dia eu havia começado e que não consegui terminar se materializaram naquela massa morta. Aí eu fui me encolhendo, fui sumindo, meu ego estava em pedaços nada mais terrível para um ególatra.  Agora não havia mais saída, os cruzados chegariam a qualquer momento.

 

Texto: Oneide Diedrich. Psicólogo, vocalista nas bandas Pelebrói Não Sei e Gripe Forte, e autor do livro Réquiem para Doris.
Ilustração: Murilo Marcondes