Antes do catecismo o pão 0 64

Como sobreviver a toda essa loucura? Fazendo pão!

Pensei que sendo útil, minha situação poderia melhorar, e como o pão é algo muito significativo no que se refere à religião, eu pensei que poderia ser o padeiro oficial da igreja de Doris. Então comecei minha indústria, segui a receita e fui juntando os ingredientes do que seria um lindo pão, deveras saudável. Cinco xícaras de farinha de trigo, duas de farinha integral, uma xícara repleta de óleo, quatro colheres das de sopa de açúcar mascavo, uma colher cheia de sal, quatro colheres das de sopa de linhaça, duas xícaras de farelo de trigo e um saquinho de fermento seco e água morna. “Pronto, agora vai!” Sovei a massa e reservei esperando que crescesse, era uma questão de tempo e quando dobrasse de tamanho, faltariam apenas alguns detalhes. Eu estava todo orgulhoso de mim e minha modéstia que já não existia, tinha se dissolvido em um copo de cerveja que testemunhava o grande acontecimento.

Mas não foi! O pão não cresceu o milagre não ocorreu. Eu observava a massa esperando perceber qualquer indício do aumento de tamanho, mas qual, nada, nem um pobre milímetro. Foi aí que uma grande crise se instalou em mim, o mau humor tomou conta de meu ser, a angústia e o desespero também. Maldita hora que eu decidi ser útil, aquele maldito pão acabava por atualizar todas as malditas coisas nas quais nunca obtive sucesso. As derrotas amargas cuspidas e escarradas em minha face, todas as coisas que algum dia eu havia começado e que não consegui terminar se materializaram naquela massa morta. Aí eu fui me encolhendo, fui sumindo, meu ego estava em pedaços nada mais terrível para um ególatra.  Agora não havia mais saída, os cruzados chegariam a qualquer momento.

 

Texto: Oneide Diedrich. Psicólogo, vocalista nas bandas Pelebrói Não Sei e Gripe Forte, e autor do livro Réquiem para Doris.
Ilustração: Murilo Marcondes

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Eu te amei. 0 82

– Eu te amei.
– Você foi covarde.
– E você foi intransigente.
– Eu tive que seguir a minha vida sem você.

Olharam-se, desejaram sorte um para o outro, “a gente se vê por aí…”, um tentou não levar o rancor, o outro só tentou seguir em frente. Um arrumou um novo companheiro, o outro arrumou um novo emprego.
 
Os dois se encontraram ontem por acaso, um deu oi, o outro deu um abraço. Os dois estavam bem. Um foi para a casa com uma velha canção do Jobim na cabeça, o outro se lembrou de um poema do Neruda.
 
Um tem a esperança de que o destino dos dois volte a se cruzar, o outro não.

 
 

texto de Sissa Stecanella

ilustração de Sophia Montenegro

O cúmulo do acúmulo 0 84

Foi quando eu precisei trocar os armários da minha casa que me dei conta de quanta coisa eu tinha em um espaço tão pequeno: ingressos de shows, mapas de algumas cidades que conheci, bilhetes do metrô, até um adereço de festa que pisca. Pensando a respeito do assunto, concluí que algumas coisas eu guardo como lembrança, e outras porque julgo que possam vir a ser úteis um dia. Nesse último caso, a experiência já me provou que isso raramente acontece e, então, decidi ou doar ou jogar fora. Já com relação às demais, não me parece tão simples de resolver.

Quando eu tinha onze anos, um garoto mais velho chamado Cássio me deu um Sonho de Valsa. Eu não era apaixonada pelo Cássio, só achava ele bem bonito porque ele tinha olhos verdes. Mas, curiosamente, eu guardei a embalagem do bombom o ano todo dentro da agenda do colégio.

Depois, quando começaram as festas de quinze anos, eu adorava guardar os convites. Eu tinha um baú cheio deles. Um dia minha mãe foi limpar meu quarto, os encontrou e decidiu jogar fora, sem imaginar o quanto eu ia chorar por conta disso. Arrependida, ela ligou para todas as minhas amigas e tentou repor os convites perdidos, sem muito sucesso.

Do meu primeiro namorado, demorei para desapegar dos e-mails que trocávamos durante o dia enquanto eu estava trabalhando. Quando digo “desapegar” é parar de ficar relerendo pois, na verdade, acredito que os e-mails ainda estão ali. No amor, sou ainda mais apegada ao que chamo de “materialização dos sentimentos”. Meu segundo namorado rendeu um texto bonito e só. Com relação ao terceiro, é tanta coisa que eu prefiro nem comentar.

Nunca pensei que uma troca de armários seria capaz de fazer alguém refletir tanto. “Será que sou uma acumuladora? Daquelas que aparece no Discovery Home & Health? Será que algum dia eu terei tanta coisa que serei incapaz de me movimentar?” Já me disseram que quem arruma a casa, arruma a vida. Também já ouvi que o quarto reflete como a gente está por dentro. Acho que a sabedoria popular tem razão no meu caso.

Eu sou tão cheia, por fora e por dentro, que me sinto transbordar o tempo todo. Tenho dificuldade de me mover. Estou sempre presa. Mãos fechadas. Não deixo nada ir, guardo tudo com medo de esquecer – e não esqueço nunca. Sinto como se todas essas coisas pudessem fazer com que nada acabasse. Eu pego os sentimentos e coloco em objetos com a esperança de que eles permaneçam. Minhas coisas são minhas raízes. Minhas coisas ocupam espaços eternamente. Tudo é tanto e ao mesmo tempo é falta. A falta é enorme. Meu peito infla, aperta, sufoca.

E foi quando eu precisei trocar os armários da minha casa que me dei conta de quanta coisa eu tinha em um espaço tão pequeno.

 

texto de Mariana Porto.
fotografia de SÉRJO.