Novidades, mentiras e paranoia justificável 3 924

Meu caríssimo amigo”, começava a carta. Seguia com um “Como vão as coisas por aí? Cá pras bandas de Portugal, tudo vai bem. Muito bem”.

 

Iniciemos este relato logo com dois parênteses, o primeiro dizendo respeito à carta em si: há anos não recebia cartas. Nunca soube, também, do hábito de João por enviá-las, de forma que me senti genuinamente especial por ser o destinatário desta. O segundo destaque vem para explicar a frase de abertura da remessa. João realmente se julgava erudito, mas essa coisa de “caríssimo amigo” nasceu de uma antiga piada nossa, pois minha companhia custava realmente caro aos meus companheiros, em tempos de bebedeira e desocupação. Eu bebia muito e toda a trupe acabava por arcar com minhas despesas. Vivia desempregado, um pouco pela minha inaptidão natural à labuta, mas, principalmente, pelo consumo desenfreado de álcool, em si. Bebia, faltava, perdia o emprego. Perdia o emprego, saía beber. Naquela época, inventei, sem querer, o sonho de milhares de cientistas pela história – o famigerado moto-perpétuo. Hoje já trabalho e já não bebo.

 

Bom, à carta.

 

Ando me engraçando com várias raparigas por cá, e percebi que gosto de cá estar”, ele prosseguiu. Naquele momento, ainda pela quarta ou quinta linha, começou a me encher o saco a péssima emulação do português lusitano. Mas, ah, como me conhece, o João: logo na sequência, desistiu. “Esse começo foi uma piada, amigo. Não estou pegando ninguém e não sei falar como os portugueses. Aliás, eles pra mim não fazem nenhum sentido”. Relaxei.

Na sequência, uma página e meia de João me contando sua rotina em Castelo Branco. “Estou trabalhando como manobrista num hotel deslumbrante, com uma vista absurda para o mar”, se gabou. Ele conseguiu um emprego como manobrista, mesmo tendo entrado em Portugal com visto de estudante e não sendo habilitado a dirigir legalmente no país. Bom, quem nunca? Eu, sempre – fiz quase isso em Milão, quando forjei uma carta de recomendação brasileira para conseguir um emprego de contador num escritório. E eu também só tinha visto para estudar. Continuou: “Quando quiser vir pra cá, me avisa. Eu consigo um desconto excelente pra você se hospedar aqui”. Uma viagem para uma praia na Europa não seria nada mau, pensei, e decidi dar uma pesquisada mais tarde sobre Castelo Branco.

João passou, então, quase uma página a discorrer sobre as dificuldades do fazer humor no além-mar. “Anteontem fui fazer a piada do ‘como sua bunda no verão, né?’. Ninguém me entendeu. ‘Pois então’, disseram, ‘meu rabo está todo úmido, de fato’. Aí quem riu fui eu. Este povo tem mesmo algumas dificuldades”. Apesar da pretensa erudição, que já mencionei, o homem tinha um enorme repertório de piadas chulas e de duplo sentido. Não costumo ver graça, mas confesso ter esboçado um sorriso gostoso nessa, mais pelo “rabo” que os portugueses usam para “bunda” do que pela piada em si. João explicou que, pra frase fazer sentido, teria que ser “fodo teu rabo no verão, né?”, mas aí o trocadilho não existiria.

Pulou um espaço de três linhas, e as coisas ficaram esquisitas. “Você riu do ‘rabo’, né? Eu conheço você, cara”, prosseguiu. A essa altura eu comecei a ficar ressabiado com os poderes premonitórios do João. Porra, a gente se gostava bastante, mas eu não me lembro dessa intimidade toda. Sério que ele conhecia tanto assim o meu humor? “Relaxa, amigo. Não fica com essa cara de espanto, eu não tô te espiando”, ele disse na carta, e eu juro que nessa hora olhei de canto pro meu laptop, pra ver se a luzinha da webcam estava ligada. Eu estava suando. “Hahahaha. Bom, vou abrir logo o jogo. Eu nem te conheço. Isso é só uma ação conscientizadora sobre os perigos de se expôr na internet”, ele escreveu.

 

Peraí. Quê?

 

Meu nome é Jorge, eu trabalho numa ONG aqui em Curitiba mesmo, e a gente tá enviando essas cartas pra desconhecidos, usando como dados as coisas que descobrimos numa busca rápida pela web”. Aparentemente, os funcionários são treinados para flagrar vários traços da nossa personalidade, usando uns aplicativos que monitoram os grupos de que a gente faz parte, os locais onde a gente trabalha, etc. Fizeram um bom trabalho, visto que detectaram até meu moderado medo de perseguição.

O João era, então, Jorge. OK, eu consigo aceitar. Fiquei um pouco chocado, mas tudo bem. Eu participo de diversos grupos que devem dizer algo sobre mim, eu pensei, mas como foi que eles descobriram onde eu moro?, eu me perguntei. Como se ainda estivesse lendo minha mente, o Jorge respondeu. “Teu endereço deu um pouco mais de trabalho e eu não posso explicar exatamente, mas digamos que temos alguns contatos que mensuram os dados do cartão Renner™”.

Ele terminou a carta com um “Tome mais cuidado com os seus dados pessoais, rapaz. Se quiser (e puder) colaborar com esse nosso trabalho, segue o número da conta e a agência da ONG. Você pode doar o valor que quiser, e fica fácil pra você transferir, porque é Banco do Brasil”. Jorge resolveu deixar claro que estava de posse de pelo menos algumas das informações que forneci ao banco.

p.s.: o João não tem absolutamente nada a ver com isso“, e então fui logo às redes sociais fazer algumas perguntinhas para o João, porque ele devia estar envolvido nessa grande palhaçada. Assim que abri o perfil pessoal do meu amigo, percebi que já estava de volta ao Brasil. “Voltou de Coimbra”, dizia uma marcação. Não pesquisaram a cidade praonde ele foi, mas eu caí mesmo assim. João aparentemente não tinha culpa e a postagem já tinha seis meses de existência, o que me levou a pensar que devo marcar um café com ele qualquer dia desses.

Pra tentar me acalmar, dei um ctrl+T, digitei “castelo branco portugal”, apertei enter.

Rapaz, Castelo Branco nem praia tem.

 

por Rômulo Candal.

(a imagem é um mapa encontrado na internet)

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Escala de Baumé 0 1911

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3200

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai