Sorriso instante 0 89

A vida dá algumas oportunidades, que você aproveita, ou as desperdiça. A frase era o mantra de um companheiro e foi a única coisa que pensei ao atravessar a catraca e perceber o banco vazio ao lado dela no fundo do ônibus. Fui direto. Talvez rápido demais para quem caminha dentro de um ônibus, mas os segundos eram horas entre nós.

Dia-pós-dia pegava o ônibus das seis e vinte e sete. Ela já embarcada e eu nunca soube desde onde. E se por descuido da vida não a encontrasse, era como o dia não fosse. Arrastava só. O castanho quase liso dos cabelos toca os ombros e emoldura olhos prestes a dizerem algo da alma. Estive nos bancos atrás, à frente, diagonais, sem nunca um contato maior que dois, três, quatro olhares por instantes que acolheriam a eternidade. Até hoje.

Corri até o fundo e “Bom dia”.

“Bom dia”, ajeitou a bolsa no colo e um espaço maior para mim, como esperasse.

“Cada vez mais difícil acordar com esse frio, né?”, já arrependido ao meio da pergunta. Quem é que fala de tempo com desconhecidos?, qual o próximo assunto?, o trânsito? Merda!

“Pois é, hoje tá um dia bom pra ficar na cama”, deus, o que ela quis falar com isso?, bandeira branca, podemos prosseguir?, ou simplesmente não quer estar aqui ouvindo esse papo sem rumo?

Sem respirar, segui “Eu sempre vejo você no ônibus. Já inventei um monte de destinos quando desço e você segue viagem”.

“E pra onde você me manda?”, pela primeira vez algum interesse.

“Ah, desde um trabalho burocrático, até vigia num cativeiro”.

“E se eu te disser que sou a louca do busão, que fico dando voltas e voltas o dia inteiro, com uma passagem só?”.

“Sério?, então hoje não vou trabalhar, só pra acompanhar a sua viagem!, mas acho que vou sentir fome em algum momento. Você traz lanche?”

Rimos nosso primeiro sorriso juntos.
Que essa lembrança esteja em meu sempre.

Não me preocupariam os rumos, a vida era o presente. Quando o freio, o baque, os berros. O peso do grito cego no ar: “Alguém se machucou aí?”. Nada dentro do ônibus. Nenhuma resposta sobressai ao desespero. Descemos todos e as dores.

Sob as rodas, um corpo ao meio. Numa parte se lia “Dr. Ribas” no jaleco branco em sangue.

Ainda sem entender o que havia acontecido

“Paaaaaaiiiii!, não, pelo amor de Deus, paizinho!”, era ela.

Era ele. Seu pai. O médico desesperado de encontro ao ônibus. Em um instante, passado. O tempo que solta sua mão e segue adiante.

Não esperamos que um cirurgião cometa um ato de desespero como esse. Esperamos que, sei lá, um medicamento, um bisturi. Mas somos todos iguais quando entre os braços do desespero.

Acreditamos compreender pessoas, lugares, mas seguimos à janela de um ônibus observando as paisagens que correm para o passado-da-vida.

A angústia me arrancou dali e do sorriso-sem-nome que ainda hoje na alma.

Virei as costas e multidão.

De repente o ponto de sempre, de onde ela seguia e todo dia volto a pegar o ônibus das seis e vinte e sete. O antes, o depois, e nada. Os ônibus agora maiores. Nublados.

Todas as manhãs, da catraca ao fundo e o banco do dia em que fui a eternidade de um sorriso com riso. E nada.

 

Texto: Rafael Antunes
Ilustração: Nina Zambiassi

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maculada 0 203

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”