Texto de em 28 de julho de 2016 . Nenhum comentário.

A vida dá algumas oportunidades, que você aproveita, ou as desperdiça. A frase era o mantra de um companheiro e foi a única coisa que pensei ao atravessar a catraca e perceber o banco vazio ao lado dela no fundo do ônibus. Fui direto. Talvez rápido demais para quem caminha dentro de um ônibus, mas os segundos eram horas entre nós.

Dia-pós-dia pegava o ônibus das seis e vinte e sete. Ela já embarcada e eu nunca soube desde onde. E se por descuido da vida não a encontrasse, era como o dia não fosse. Arrastava só. O castanho quase liso dos cabelos toca os ombros e emoldura olhos prestes a dizerem algo da alma. Estive nos bancos atrás, à frente, diagonais, sem nunca um contato maior que dois, três, quatro olhares por instantes que acolheriam a eternidade. Até hoje.

Corri até o fundo e “Bom dia”.

“Bom dia”, ajeitou a bolsa no colo e um espaço maior para mim, como esperasse.

“Cada vez mais difícil acordar com esse frio, né?”, já arrependido ao meio da pergunta. Quem é que fala de tempo com desconhecidos?, qual o próximo assunto?, o trânsito? Merda!

“Pois é, hoje tá um dia bom pra ficar na cama”, deus, o que ela quis falar com isso?, bandeira branca, podemos prosseguir?, ou simplesmente não quer estar aqui ouvindo esse papo sem rumo?

Sem respirar, segui “Eu sempre vejo você no ônibus. Já inventei um monte de destinos quando desço e você segue viagem”.

“E pra onde você me manda?”, pela primeira vez algum interesse.

“Ah, desde um trabalho burocrático, até vigia num cativeiro”.

“E se eu te disser que sou a louca do busão, que fico dando voltas e voltas o dia inteiro, com uma passagem só?”.

“Sério?, então hoje não vou trabalhar, só pra acompanhar a sua viagem!, mas acho que vou sentir fome em algum momento. Você traz lanche?”

Rimos nosso primeiro sorriso juntos.
Que essa lembrança esteja em meu sempre.

Não me preocupariam os rumos, a vida era o presente. Quando o freio, o baque, os berros. O peso do grito cego no ar: “Alguém se machucou aí?”. Nada dentro do ônibus. Nenhuma resposta sobressai ao desespero. Descemos todos e as dores.

Sob as rodas, um corpo ao meio. Numa parte se lia “Dr. Ribas” no jaleco branco em sangue.

Ainda sem entender o que havia acontecido

“Paaaaaaiiiii!, não, pelo amor de Deus, paizinho!”, era ela.

Era ele. Seu pai. O médico desesperado de encontro ao ônibus. Em um instante, passado. O tempo que solta sua mão e segue adiante.

Não esperamos que um cirurgião cometa um ato de desespero como esse. Esperamos que, sei lá, um medicamento, um bisturi. Mas somos todos iguais quando entre os braços do desespero.

Acreditamos compreender pessoas, lugares, mas seguimos à janela de um ônibus observando as paisagens que correm para o passado-da-vida.

A angústia me arrancou dali e do sorriso-sem-nome que ainda hoje na alma.

Virei as costas e multidão.

De repente o ponto de sempre, de onde ela seguia e todo dia volto a pegar o ônibus das seis e vinte e sete. O antes, o depois, e nada. Os ônibus agora maiores. Nublados.

Todas as manhãs, da catraca ao fundo e o banco do dia em que fui a eternidade de um sorriso com riso. E nada.

 

Texto: Rafael Antunes
Ilustração: Nina Zambiassi