Brasas ao vento 1 98

De tempos em tempos observo a menina do prédio em frente, quando se dobra a fumar na janela do quinto andar. É sempre à noite, vejo pouco mais que a silhueta e o ponto luminoso da brasa.

Ela olha para baixo, assim como quem contempla o vento, como quem faz do fumo apenas um aperitivo para o frescor da noite.

Penso que eu queria ser aquele cigarro, entre seus dedos e lábios, os dois melhores lugares do mundo. E a desenho num rascunho platônico de paixão, sem ousar interromper aquele momento, o derradeiro careta das onze.

Quando percebo-me, estou a ensaiar abordagens ridículas, dessas que sou especialista. Apanharia também um cigarro para gritar Ei, você, é, você mesma, você tem fogo?

Assim, como um idiota, como se não houvesse um vão de dez metros de comprimento e quinze de altura a nos separar. Como se não houvesse um vão ainda maior, o guia politicamente correto das relações humanas e primeiras impressões.

Penso num dia a gente se encontrar por acaso, cada um saindo de seu prédio. Você é a menina que fuma na janela, não é? Sim, sou eu. Pô, eu te achei linda. Ah, pode crer… eu nunca te vi.

Teríamos algo mais em comum? Eu esticava a orelha entre o ruído de um carro e outro. Imaginava-me a gritar Ei, o que está ouvindo aí? E ela diria Sounds of Washing Machine, e eu Meu Deus, adoro esse som, mas prefiro o Bed Bangs on the Wall.

E, assim, revelado meu entusiamo, findariam minhas chances. Sabe-se que existe uma linha tênue entre estas duas coisas que elas não gostam: homem desinteressado e homem interessado demais.

Que livros em sua estante, que discos em sua vitrola, que filmes? Isso importa? Chega a ser bobo: a gente gosta de quem gosta das coisas que a gente gosta, mas não gosta de quem gosta das coisas que a gente é.

Pego também meu paiero. Encosto-me na janela, enrolo, acendo, puxo e assopro naquela direção. Quem sabe ao menos a fumaça pudesse tocá-la. Mas com o vento se esvai e, antes que eu pudesse terminar o cigarro, ele cai de meus dedos, como se soubesse que deveria pular por mim.

Todo cigarro é, no fundo, uma mini vontade de morrer. É um pedacinho da gente que se joga porque nos falta drama para sucumbirmos inteiros. Antepasto de cinzas à terra.

Tal qual lento suicida, penso que também me apeguei à sua mini vontade de morrer. Como se vislumbrasse no fumo uma brecha, uma coisa mal resolvida que eu estaria ali para sarar. Sinto o privilégio de assistir ao momento na janela. Sem filtros, sem falsas alegrias ou lamentos desmedidos, sem likes, emojis e insossos kkk´s.

Eu só queria juntar minha janela na tua, tua melancolia na minha, pra gente ser feliz. E com dois, a vista mais bonita, o vício da noite e do amanhã.

Mas se já apagastes, meu bem, uma pena. Dia desses avistei outra brasa ali no sétimo andar. Disseram-me que ali o vento bate mais fresco e que a vida se consome na brevidade da palha.

 

Murilo.

 

Crédito Foto:riccardo.fissore Flickr via Compfight cc

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maculada 0 203

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”