Um lance 0 184

Ricardo não soube reagir quando ouviu da garota à sua frente que devia ser tão velho quanto os pais dela, então sorriu sem mostrar os dentes, meio envergonhado pela falta de palavras e meio feliz de se ver atracado com uma novinha, e mudou de assunto, de idades para repelente de insetos. “Você tem antimosquito, bebê?”, dissimulou. “Não, mas fique susse que meus pais devem ter, na praia eles têm tudo”. “Gente velha não fala susse, gatinha”. “Aí o problema é meu ou de vocês?”

Sara tinha acabado de virar maior de idade e programado para si, com anuência dos genitores, uma pausa estratégica no frenesi tradicional da idade, substituindo o eventual começo de algum curso universitário por outros dois menos formais, ainda que também potencialmente profissionalizantes: um de fotografia e outro de cozinha – este principal, possível prenúncio de um de chef, mais cheio de pompa. A viagem ao litoral marcava a comemoração do que a família convencionou chamar de começo da vida adulta da menina, quando ela passaria a se responsabilizar pela condução dos próprios caminhos, e ela queria aproveitar junto ao gato grisalho e misterioso que conheceu em um baile de formatura de amigas de outra escola. Mas nada sério entre eles. Um lance sendo um lance.

Na primeira vez em que o viu, ele estava indo para lá em um trenzinho dançante que cortava o salão de festas. “No paren la fiesta, don’t stop the paaaaaaaarty” bombando nos falantes. Na volta, ele já estava sem paletó e com a gravata na testa. Ela gritou “vem, Capitão Codorna” com uma mão em concha na direção do alvo, com o tronco inclinado, decote à vista e sorriso aberto. Ele não entendeu se era com ele ou com seu sobrinho, logo atrás, mas prestou atenção e animou-se com a persistência do olhar que o seguia. Estragou a brincadeira e descarrilhou rumo à boca da menina, drinque Alexander na mão que não lhe servia de caixa amplificadora. Perguntou “o que você falou?”, começaram a trocar ideia aos gritos e, em busca de um lugar mais reservado, encontraram o fumódromo. Ignoraram que nenhum dos dois suportava sequer o cheiro de cigarro e se agarraram ali mesmo, entortando os olhares dos adultos no ambiente. A cochicharia em torno do casal recém-formado começou a se misturar à nuvem de fumaça, mas eles não conseguiam estar menos aí para isso, porque com ocupações mais imediatas. O sobrinho apareceu e quebrou o clima, mas se alegrou de ter perdido o tio festeiro sob aquela condição, desde que o fanfarrão o levasse embora mais tarde.

Na descida ao litoral, ela fez questão de dirigir e escolher a trilha sonora. O carro era dela e ali sua vontade prevalecia. Fora que não aguentava os apegos nostálgicos dele, que veio com uns papos de Raimundos das antigas, Elton John e Prince que lhe pareciam absolutamente desinteressantes e dispensáveis. Ele que se arranjasse para curtir Cage The Elephant, Céu, O Terno e não sabia lá mais quem enquanto admirava a serra do mar, em uma manhã de sábado com serração que devia descambar em sol forte quando estivessem mais perto de chegar no destino, pouco antes da hora do almoço. Ricardo disse que suportaria o mau gosto dela porque eram só duas horinhas e pouco de descida, e que depois pegava o violão para tocar umas músicas de verdade, e ela disse que suportaria a ofensa dele porque tinha acordado feliz demais para gastar tempo discutindo com o pessoal da ala geriátrica, e o cheiro de mato a impedia de absorver as tonguices que ouvia.

Já na casa de veraneio, em um balneário com imóveis de preços excludentes, cheio de placas de vende-se e aluga-se, Ricardo conheceu os pais da ficante, Beto e Estela, arquitetos de carreira prolífica e sócios em um escritório cheio de notoriedade na capital. Tinham seus trabalhos publicados em revistas do ramo, tanto nas mais sérias, cheias de fotografias conceituais, quanto nas mais meramente comerciais, onde compravam espaços como lhes convinham. Pareciam felizes e confortáveis consigo próprios e entre si. Já depois de passarem protetor 50, com os corpos quase adaptados ao calor do meio dia, o casalzinho foi convidado para colocar os pratos na mesa, à espera do almoço que estava saindo: postas de cação ao forno com alcaparras e molho de requeijão light, batatas gratinadas e salada de camarão, alface, manga e rúcula.

Ricardo entrou na cozinha pedindo talheres, atento ao barulho intermitente da máquina de espremer laranjas operada por Beto. Olhou para a sogra, parada em frente ao fogão do cômodo bem iluminado: uma mulher alta, bonita, de cabelos pretos até a metade do pescoço, com alguns fios brancos enriquecendo a composição, olhos castanhos elegantemente maquiados, o pijama de seda, bom prenúncio de como Sara poderia vir a ser. Olhou também para o sogro, no balcão de eletrodomésticos: um homem dignamente careca de máquina zero, com tribais nos antebraços, pés descalços, as veias das mãos saltadas, mostrando bem definidos alguns músculos que o genro nem conhecia a cada novo uso do equipamento, o olhar fechado, cheio de foco e poder, os ombros largos começando o movimento de amassar as laranjas até não sair mais nada, a força de quem fazia aquilo sempre. Estela disse que os garfos e facas ficavam na primeira gaveta embaixo da pia e os pegadores na de baixo, aí Ricardo recolheu o que devia e aproveitou para falar, mirando o agora quase amigo: “Também tenho uma tatuagem meio assim nas costas”, ao que foi respondido com um sorriso leve, de dentes brancos e incisivos superiores levemente tortos e um “mais tarde mostra pra gente”. Ao final do almoço, Sara se ofereceu para fazer um café, desde que não precisasse lavar a louça que todos sujaram de forma tão apaixonada, agressiva, selvagem.

Após o café, Estela serviu um licor de amêndoas e começou a descrever a quinzena de férias que ela e o esposo aproveitavam. Fecharam um trabalho de redecoração com uma sorveteria local, sem perder negócio nem viagem naquela crise, e mostraram aos pombinhos dois lustres de tetos projetados e montados por eles, em placas de metal retorcido, meio de reciclagem, um destinado à casa da praia de amigos e outro de presente para a filha. Ricardo ficou positivamente impressionado com a afetividade dos anfitriões, ajudou a tirar a mesa e dormiu com Sara até 18h, quando levantaram bem dispostos e saíram sem destino pela orla, fazendo checkpoints alternados entre as biroscas do caminho, cheias de cerveja em lata e máquinas de passar cartão, e em pontos da areia, onde sentavam para assistir o começo da noite, o mar agitado, a bagunça da gente de frente para o oceano.

O domingo começou cedo. Todo mundo de pé às seis e meia, porque Sara queria praticar bodyboard, amor de infância. Os homens protegidos com bonés e regatas, as mulheres de maiôs e chapéus, os quatro de chinelos e óculos escuros, afim de bronze e sal. A leitura que a garota fez do mar os fez fincarem guarda-sol em um ponto de frente para boas ondas, um pouco baixas, ideais para ela brincar depois de tanto tempo sem praticar o esporte preferido. Na água, sentia-se livre. A menina em sua prancha. Estela de volta na calçada, em busca de uma barraca de água de coco. Beto tirou os óculos e voltou o corpo para o genro, que estava com os olhos descobertos e voltados para ele, aguardando, com a cabeça deitada na própria camiseta. Encaravam-se, sorriam-se, observavam-se. Dois minutos, três, não sabiam. Tanto fazia. Estavam sozinhos.

 

Marco Antonio Santos

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Dai-me Amor 0 383

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 491

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.