Um lance 0 94

Ricardo não soube reagir quando ouviu da garota à sua frente que devia ser tão velho quanto os pais dela, então sorriu sem mostrar os dentes, meio envergonhado pela falta de palavras e meio feliz de se ver atracado com uma novinha, e mudou de assunto, de idades para repelente de insetos. “Você tem antimosquito, bebê?”, dissimulou. “Não, mas fique susse que meus pais devem ter, na praia eles têm tudo”. “Gente velha não fala susse, gatinha”. “Aí o problema é meu ou de vocês?”

Sara tinha acabado de virar maior de idade e programado para si, com anuência dos genitores, uma pausa estratégica no frenesi tradicional da idade, substituindo o eventual começo de algum curso universitário por outros dois menos formais, ainda que também potencialmente profissionalizantes: um de fotografia e outro de cozinha – este principal, possível prenúncio de um de chef, mais cheio de pompa. A viagem ao litoral marcava a comemoração do que a família convencionou chamar de começo da vida adulta da menina, quando ela passaria a se responsabilizar pela condução dos próprios caminhos, e ela queria aproveitar junto ao gato grisalho e misterioso que conheceu em um baile de formatura de amigas de outra escola. Mas nada sério entre eles. Um lance sendo um lance.

Na primeira vez em que o viu, ele estava indo para lá em um trenzinho dançante que cortava o salão de festas. “No paren la fiesta, don’t stop the paaaaaaaarty” bombando nos falantes. Na volta, ele já estava sem paletó e com a gravata na testa. Ela gritou “vem, Capitão Codorna” com uma mão em concha na direção do alvo, com o tronco inclinado, decote à vista e sorriso aberto. Ele não entendeu se era com ele ou com seu sobrinho, logo atrás, mas prestou atenção e animou-se com a persistência do olhar que o seguia. Estragou a brincadeira e descarrilhou rumo à boca da menina, drinque Alexander na mão que não lhe servia de caixa amplificadora. Perguntou “o que você falou?”, começaram a trocar ideia aos gritos e, em busca de um lugar mais reservado, encontraram o fumódromo. Ignoraram que nenhum dos dois suportava sequer o cheiro de cigarro e se agarraram ali mesmo, entortando os olhares dos adultos no ambiente. A cochicharia em torno do casal recém-formado começou a se misturar à nuvem de fumaça, mas eles não conseguiam estar menos aí para isso, porque com ocupações mais imediatas. O sobrinho apareceu e quebrou o clima, mas se alegrou de ter perdido o tio festeiro sob aquela condição, desde que o fanfarrão o levasse embora mais tarde.

Na descida ao litoral, ela fez questão de dirigir e escolher a trilha sonora. O carro era dela e ali sua vontade prevalecia. Fora que não aguentava os apegos nostálgicos dele, que veio com uns papos de Raimundos das antigas, Elton John e Prince que lhe pareciam absolutamente desinteressantes e dispensáveis. Ele que se arranjasse para curtir Cage The Elephant, Céu, O Terno e não sabia lá mais quem enquanto admirava a serra do mar, em uma manhã de sábado com serração que devia descambar em sol forte quando estivessem mais perto de chegar no destino, pouco antes da hora do almoço. Ricardo disse que suportaria o mau gosto dela porque eram só duas horinhas e pouco de descida, e que depois pegava o violão para tocar umas músicas de verdade, e ela disse que suportaria a ofensa dele porque tinha acordado feliz demais para gastar tempo discutindo com o pessoal da ala geriátrica, e o cheiro de mato a impedia de absorver as tonguices que ouvia.

Já na casa de veraneio, em um balneário com imóveis de preços excludentes, cheio de placas de vende-se e aluga-se, Ricardo conheceu os pais da ficante, Beto e Estela, arquitetos de carreira prolífica e sócios em um escritório cheio de notoriedade na capital. Tinham seus trabalhos publicados em revistas do ramo, tanto nas mais sérias, cheias de fotografias conceituais, quanto nas mais meramente comerciais, onde compravam espaços como lhes convinham. Pareciam felizes e confortáveis consigo próprios e entre si. Já depois de passarem protetor 50, com os corpos quase adaptados ao calor do meio dia, o casalzinho foi convidado para colocar os pratos na mesa, à espera do almoço que estava saindo: postas de cação ao forno com alcaparras e molho de requeijão light, batatas gratinadas e salada de camarão, alface, manga e rúcula.

Ricardo entrou na cozinha pedindo talheres, atento ao barulho intermitente da máquina de espremer laranjas operada por Beto. Olhou para a sogra, parada em frente ao fogão do cômodo bem iluminado: uma mulher alta, bonita, de cabelos pretos até a metade do pescoço, com alguns fios brancos enriquecendo a composição, olhos castanhos elegantemente maquiados, o pijama de seda, bom prenúncio de como Sara poderia vir a ser. Olhou também para o sogro, no balcão de eletrodomésticos: um homem dignamente careca de máquina zero, com tribais nos antebraços, pés descalços, as veias das mãos saltadas, mostrando bem definidos alguns músculos que o genro nem conhecia a cada novo uso do equipamento, o olhar fechado, cheio de foco e poder, os ombros largos começando o movimento de amassar as laranjas até não sair mais nada, a força de quem fazia aquilo sempre. Estela disse que os garfos e facas ficavam na primeira gaveta embaixo da pia e os pegadores na de baixo, aí Ricardo recolheu o que devia e aproveitou para falar, mirando o agora quase amigo: “Também tenho uma tatuagem meio assim nas costas”, ao que foi respondido com um sorriso leve, de dentes brancos e incisivos superiores levemente tortos e um “mais tarde mostra pra gente”. Ao final do almoço, Sara se ofereceu para fazer um café, desde que não precisasse lavar a louça que todos sujaram de forma tão apaixonada, agressiva, selvagem.

Após o café, Estela serviu um licor de amêndoas e começou a descrever a quinzena de férias que ela e o esposo aproveitavam. Fecharam um trabalho de redecoração com uma sorveteria local, sem perder negócio nem viagem naquela crise, e mostraram aos pombinhos dois lustres de tetos projetados e montados por eles, em placas de metal retorcido, meio de reciclagem, um destinado à casa da praia de amigos e outro de presente para a filha. Ricardo ficou positivamente impressionado com a afetividade dos anfitriões, ajudou a tirar a mesa e dormiu com Sara até 18h, quando levantaram bem dispostos e saíram sem destino pela orla, fazendo checkpoints alternados entre as biroscas do caminho, cheias de cerveja em lata e máquinas de passar cartão, e em pontos da areia, onde sentavam para assistir o começo da noite, o mar agitado, a bagunça da gente de frente para o oceano.

O domingo começou cedo. Todo mundo de pé às seis e meia, porque Sara queria praticar bodyboard, amor de infância. Os homens protegidos com bonés e regatas, as mulheres de maiôs e chapéus, os quatro de chinelos e óculos escuros, afim de bronze e sal. A leitura que a garota fez do mar os fez fincarem guarda-sol em um ponto de frente para boas ondas, um pouco baixas, ideais para ela brincar depois de tanto tempo sem praticar o esporte preferido. Na água, sentia-se livre. A menina em sua prancha. Estela de volta na calçada, em busca de uma barraca de água de coco. Beto tirou os óculos e voltou o corpo para o genro, que estava com os olhos descobertos e voltados para ele, aguardando, com a cabeça deitada na própria camiseta. Encaravam-se, sorriam-se, observavam-se. Dois minutos, três, não sabiam. Tanto fazia. Estavam sozinhos.

 

Marco Antonio Santos

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maculada 0 203

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”