Texto de em 09 de Fevereiro de 2017 . Nenhum comentário.

O cursor piscava como se zombasse da minha falta de ação. A luz estava apagada, isso já era um rito. A pressão do compromisso dava sensação de nó na garganta. No fim, aquilo tudo se resumia na criação de um atestado de ignorância. O cursor divertia-se disparado.

Toda vez que desviava os olhos da luz, perdia-me no escuro da indecisão, no nada. Percebi que a gota d’água que caía no chão do banheiro ecoava em minha mente dispersa, agravando o sentimento de solidão e inutilidade diante da luz. Depois de me certificar que o som das gotas não seria mais uma distração, sentei em frente à tela novamente.

Encarei o cursor até perder o foco. Não conseguia inventar uma única história. Sim! Uma história era o que precisava. No começo, escrever era uma forma de registrar os dias.  Sem compromisso, escrevia tudo errado. Aprendi a ler com quase oito anos. Gostava muito dos livros, revistas, gibis, mas só folhear, observando as figurinhas, não me ajudou a decodificar melhor. Não sei ao certo se era por preguiça ou por puro encantamento, mas as letras sempre me pareceram pequenas demais quando diagramadas nas folhas de papel e comparadas às imagens explosivas.

Meus problemas com códigos que interpretam a natureza iam mais além. Só acertava os exercícios de matemática depois da terceira tentativa de resolução. Nunca decorei a tabuada. Até entendo um pouco de teoria musical, mas não sei tocar instrumento algum. Escrevia só pra mim. Na adolescência resolvi criar um blog. Foi quando escrever se tornou virtualmente real. Mas a velha mania das imagens era inseparável. Aos poucos, a escrita nos diários dava lugar ao desenho. Preenchia os cadernos com pontos, linhas, formas, composições, frases, palavras soltas e ideias para novos posts. Pensamento sempre foi imagem. Em um artigo acadêmico, li a seguinte frase: “Por que nós pensamos com palavras”. Reli. Era tão óbvio, mas nunca tinha chegado à compreensão desse pensamento.

Em frente à tela, me vi no embate de minha vida. Imagem e palavra, feminino e masculino, bem e mal, razão e emoção. “Quanta evolução desde o pensamento barroco” pensei sarcasticamente. Vi que não precisava inventar, estava tudo a minha frente, digitei. A página em branco já não era mais problema. Não sabia se escrevia ou desenhava. Precisava entregar a história e a ilustração no prazo. Depois que digitei, reli enquanto assobiava minha melodia melancólica preferida.

Texto e imagem da Caroline Rehbein