Cursor 0 101

O cursor piscava como se zombasse da minha falta de ação. A luz estava apagada, isso já era um rito. A pressão do compromisso dava sensação de nó na garganta. No fim, aquilo tudo se resumia na criação de um atestado de ignorância. O cursor divertia-se disparado.

Toda vez que desviava os olhos da luz, perdia-me no escuro da indecisão, no nada. Percebi que a gota d’água que caía no chão do banheiro ecoava em minha mente dispersa, agravando o sentimento de solidão e inutilidade diante da luz. Depois de me certificar que o som das gotas não seria mais uma distração, sentei em frente à tela novamente.

Encarei o cursor até perder o foco. Não conseguia inventar uma única história. Sim! Uma história era o que precisava. No começo, escrever era uma forma de registrar os dias.  Sem compromisso, escrevia tudo errado. Aprendi a ler com quase oito anos. Gostava muito dos livros, revistas, gibis, mas só folhear, observando as figurinhas, não me ajudou a decodificar melhor. Não sei ao certo se era por preguiça ou por puro encantamento, mas as letras sempre me pareceram pequenas demais quando diagramadas nas folhas de papel e comparadas às imagens explosivas.

Meus problemas com códigos que interpretam a natureza iam mais além. Só acertava os exercícios de matemática depois da terceira tentativa de resolução. Nunca decorei a tabuada. Até entendo um pouco de teoria musical, mas não sei tocar instrumento algum. Escrevia só pra mim. Na adolescência resolvi criar um blog. Foi quando escrever se tornou virtualmente real. Mas a velha mania das imagens era inseparável. Aos poucos, a escrita nos diários dava lugar ao desenho. Preenchia os cadernos com pontos, linhas, formas, composições, frases, palavras soltas e ideias para novos posts. Pensamento sempre foi imagem. Em um artigo acadêmico, li a seguinte frase: “Por que nós pensamos com palavras”. Reli. Era tão óbvio, mas nunca tinha chegado à compreensão desse pensamento.

Em frente à tela, me vi no embate de minha vida. Imagem e palavra, feminino e masculino, bem e mal, razão e emoção. “Quanta evolução desde o pensamento barroco” pensei sarcasticamente. Vi que não precisava inventar, estava tudo a minha frente, digitei. A página em branco já não era mais problema. Não sabia se escrevia ou desenhava. Precisava entregar a história e a ilustração no prazo. Depois que digitei, reli enquanto assobiava minha melodia melancólica preferida.

Texto e imagem da Caroline Rehbein

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O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”

Matemática básica 0 245

Me beije agora antes de ir embora. Aqui nessa terra, onde as mulheres brilham e os homens roubam, vai ser difícil ficar longe de você. Mas eu aguento. Tenho um cabelo da hora e sou cheio de boas intenções. Não tenho medo. Posso dirigir minha Kombi vermelha e branca e também viajar por muitos quilômetros se quiser.

O início do inverno é sempre meio dolorido. Mas eu paro e lembro das tardes tristes de verão. Um sentimento negativo anula outro positivo e vice-versa. Matemática básica. Por isso, quando você fizer suas malas e pegar aquele avião pra bem longe, vou refazer os cálculos, não será fácil, trabalho duro, mas no fim a fórmula é simples: um sentimento anula o outro.

Não sou eu quem está dizendo. Antes que você venha com aquele papo de: dá onde tu tirou essa ideia de merda?! Quem desenvolveu essa fórmula foi o próprio Einstein quando desvendou o movimento Browniano. Parece mirabolante, mas a força do princípio reside na simplicidade.

Agora, esquece essa conversa mole. Antes de você ir embora, eu merecia aquele beijo.

Jadson André