Linhas 0 96

O sol quente fez com que Cláudia buscasse as sombras da escadaria para comer seu sanduíche enquanto esperava pelo horário marcado em frente ao prédio histórico. Os degraus de pedra e chicletes eram o mais próximo que havia chegado de entrar na universidade, e embora olhasse aquele monumento sem muita emoção, adentrou as portas de ferro enquanto separava o alface de seu lanche idiota de dieta.

Quando veio para a capital, após a partida de sua mãe (que Deus a tenha), Cláudia podia enxergar como sua rotina seria agitada com eventos, jantares, festas, e conversas embriagadas de sorrisos. Tão diferente da vida que deixava para trás junto com a solidão do interior. Três anos depois, ainda sem amigos ou planos para o final de semana, parecia ter pouco a perder quando ligou para o anúncio do cartaz. Seria modelo. Os R$ 80 do cachê comprariam um vestido de sair. Preto, elegante e confortável. O único GG da loja. Ainda não tinha tomado coragem de prová-lo, mas não havia um dia em que não parasse em frente à vitrine para olhar aquela peça e imaginar como ele mudaria sua vida. Sua insegurança seria arrancada com o preço da etiqueta logo no primeiro uso, e estaria pronta para conhecer a cidade que tremia aos pés de seu quarto no centro. Em suas miragens estava sempre sentada em um banco de bar, com dois ou três rapazes e mais algumas moças. Todos desconhecidos, mas muito simpáticos. Sorrisos largos e toques frequentes. Ela toma mais um gole do drinque enquanto olha para uma das novas amigas que lhe dá o sinal: ele gostou de você. Ela ameaça ir embora, mas ninguém deixa. Vamos para uma festa na casa da Aninha, um deles convida. “Por que não?”, dizem, certos da ausência de uma resposta convincente. E ela aceita, porque não tem pressa para voltar para casa e a noite de estréia do vestido não precisa acabar cedo. O grupo a deixa à vontade consigo mesma, e ela consegue se sentir divertida. Viver não é mais um fardo. Ela finalmente faz parte daquilo, ainda que esteja apenas olhando para a vitrine de uma loja popular.

Agora nua, imóvel e rodeada há 1 hora por estudantes que alternavam os olhares entre seu corpo e os cavaletes com tela. O cheiro de óleo inunda a sala. Que porcaria de ideia foi essa, Cláudia? Você não nasceu pra ser modelo, e o vestido nem era tão bonito assim. Vou sair correndo, eu preciso fugir daqui. Pensa, pensa! As mãos apertam agoniadas o banco de madeira em que está sentada, até que uma voz interrompe sua urgência. “Pronto, pessoal? Finalizem e tragam para mim. Cláudia, pode ir se vestir”. Ouvir um professor falar nunca lhe trouxe tanta felicidade. Antes que possa respirar, pula do banco e corre para o espaço onde estavam suas roupas.

É preciso passar pelos alunos mais uma vez para chegar à porta e nunca mais voltar. São poucos passos, dá pra ir rápido o suficiente para que não me vejam muito. Claudia sai em disparada sem olhar para os lados, até que é interrompida pela mesma voz que a chama mais uma vez. Olha rapidamente, sem a intenção de parar, mas não é possível. Lá estão todos os alunos, enfileirados lado a lado com seus quadros à espera de sua nova modelo. Ela para, atordoada, e eles aplaudem. Como de costume, dedicam o primeiro quadro a ela, como forma de agradecimento pelo tempo e coragem. Ela não entende, mas se aproxima. Os olhos tremem. Há o medo do que os detalhes vão mostrar sobre seu próprio corpo, ressaltando aquilo que lutava tanto para esconder, mas ainda admirada com a visão de cada um sobre si mesma. As luzes, as cores e as formas. O cuidado. Tanto cuidado! Todas as suas marcas estavam ali, iluminadas pelo dom de alguém que via nela mais do que ela era. Ninguém nunca havia olhado para ela daquele jeito. É tudo tão bonito, tão brutal. Não sabia que poderia se sentir bonita. Não sabia que eu poderia ser uma obra de arte.

Foto: HelenBushe

Previous ArticleNext Article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

maculada 0 200

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”