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Texto de em 14 de Fevereiro de 2017 . Nenhum comentário.

Ffo

Passei boa parte da minha vida transformando a realidade em sonhos, e, não demorou muito para isso se converter em um pesadelo. O desejo de fazer de tudo me guiou ao nada. O primeiro emprego se foi, o segundo passou, do terceiro mal me lembro, o quarto acabou antes da experiência, mas a vida continuou. As oportunidades cada vez mais raras, as exigências mais estratosféricas e o dinheiro cada vez mais curto. A insurgência contra o mercado formal de trabalho foi natural, até porque, foi ele quem se rebelou antes contra a minha pessoa.

 

A internet em casa foi cortada, tinha o dinheiro contado para pagar a conta, mas não sou de entregar os pontos tão facilmente. Assumi o risco, outra vez; fui num bar no centro, tomar umas e usar o wi-fi. A cena é trágica, sozinho numa mesa para oito, o celular ao alcance de uma mão, o copo próximo a outra e a página do jornal com as oportunidades de emprego sob os cotovelos. Já me convencia de que ser frentista noturno não era a pior ideia do mundo (sim, minhas insurgências sempre duraram pouco), quando resolvi virar as páginas do jornal. Já que havia gastado quatro reais nisso, porque não consumir aquele conteúdo duvidoso? Pedi outra cerveja de cereais não maltados, igualmente duvidosos, para brindar minha série de péssimas escolhas.

 

A coluna de economia abrigava o retrato de um jovem empresário, bem mais jovem que eu – “Mais uma cerveja, por favor”. – os dentes perfeitamente alinhados, certamente mais brancos que o papel jornal, a estrutura física de um boxeador e o semblante de um galã de novela – “Traz uma dose de vodka também. Isso, a mais barata” – que filho da puta. Descanso o copo sobre a foto, sei que vai doer ler a matéria, mas não me resta muita alternativa. Mais um daqueles donos de startups, que teve alguma grande ideia inovadora (bocejo longo) e recebeu incentivo de algum gringo desocupado. Já nas primeiras linhas confirmo que o clichê do nosso tempo já estava formado, o cidadão ganhou dinheiro desenvolvendo um aplicativo. Quantos aplicativos cabem num celular hoje em dia? E quantos cabem na nossa vida? Caralho, por que diabos um cara que fez um aplicativo chamado Happy Puppy está estampado no jornal? A urgência de esvaziar a bexiga se aliou à de esvaziar a mente. Pedi um Minister solto quando voltei do banheiro, nada como um cigarro de quarenta centavos para organizar a bagunça mental.

 

De volta à mesa, tiro meu copo de cima do nosso empresário, a foto nem borrou direito, que sujeitinho impertinente. Não queria mais ler, mas não respeito mais minhas vontades. Acho que preciso voltar a frequentar um psicólogo. Os olhos voltam a seguir as linhas do jornal. Que fofo, você se cadastra no aplicativo e se candidata a levar cachorros de madame para passear. Que tipo de gringo investe nisso? Vou fazer um aplicativo para gringos selecionarem as piores ideias para se investir dinheiro, acho que é a única chance que tenho de ficar rico. O depoimento da dona Ludmila chega a ser comovente: agora que seu Shih Tzu passeia quatro vezes por semana, está muito mais disposto e até mesmo sorridente. Não pode ser, devo ter comprado uma edição impressa do Sensacionalista, só isso explica. Vamos ao depoimento do Rômulo, um exemplar passeador de cães: “Eu sempre amei os animais, cursei jornalismo, mas queria ter cursado veterinária. Meu apartamento é pequeno, não posso ter cachorros lá, mas agora é como se eu tivesse vários. A gente realmente se apega aos bichinhos que a gente leva para passear. Fora a ajuda que dá, né? Mês passado o aplicativo me rendeu mil e oitocentos reais.” Chega, já passou do ponto, faz tempo. Vai que algum bom trampo passou batido na coluna de empregos? Melhor conferir antes da próxima dose.

 

Será que rola ler algum livro entre um abastecimento e outro? Nunca vi nenhum frentista com um livro debaixo do braço. Na verdade é cena cada vez mais rara de se ver, em qualquer lugar. Sendo chapeiro numa lanchonete com certeza não dá pra ler, mas diz que o salário pode até ser maior em alguns meses, porque tem a divisão da caixinha dos funcionários. Sei lá. Às vezes dá pra pelo menos ouvir uma música no fone. Acho que como frentista não tem como. Não faço ideia de qual profissão vai me oferecer mais monotonia, de qualquer forma, estou bêbado demais para tomar qualquer decisão prudente. Vendo por esse ponto de vista, devo estar bêbado já fazem uns seis anos. Que merda! Bom, amanhã é um novo dia, sobrou um troco para pôr um crédito no celular, pra ligar no posto e na lanchonete. Eu só queria é ganhar um pouco de dinheiro fazendo nada, tipo observando pássaros ou jogando pão pros peixes. Ou passeando com cachorros? Qual o nome do aplicativo mesmo? Já abracei o capeta tantas vezes que não estranharia se ele me desse um beijo.

 

Gabriel Protski