Sou poeira 0 112

Propulsiono voraz

Aciono o ferrolho

Pra viagem audaz

Rindo do infortúnio

Rumo ao paraíso

Um novo muito velho

Mas ainda suspenso

Nada de equilíbrio

É pura estática

Eu não sou robô

Nunca tive muita prática

Vivo no mundo sujo da Capital

Minha ferida exposta

Clamo o primor sideral

Vida de fronteira

Vô André sabe contar

Com os dedos parcialmente amputados

Desenha no ar

Completa a terceira

Desdiz a primeira

Aponta corpos de luz

Blefa no jogo das ilusões

Adoráveis tempos inúteis

As luzes de alerta são só explosões

Preencha meus ossos ocos

Arrependimento é paraíso

Sem dados ou troco

Sem navegador

Cruzo o segundo oceano

Nova era

Foda-se o descobridor

O plágio é compreensível

Sou replicante

Transfigurado de emoção

Vestindo película invisível

Invado íntima multidão

Sinto, revisito, encaro

Falta de sentido, o fim é a morte

Disparo contra muro instransponível

Aponto os números da sorte

Aposto com a própria vida

You’ll never take me alive

All-in mothafucka

 

Ouço histórias violentas

Proferidas por lábios senis

Elas são quadros únicos

Dos quais tento não esquecer

A fé não sustenta

Lua após lua

Estrela após estrela

Estão todas no passado

Menos fujo, mais me entrego

Sou mentiroso, não nego

Menos digo, mais completo

Vivo pra contar

O capacete preserva meu sopro

Novo gálea espacial

Cinta jugular

Minha coleira do mal

Limbo intergaláctico

Extingue meu ser

Desacelero meu pacto

Sem gravidade

Assumo a dianteira

Cauda longa

Sempre em curso

Sou poeira

 

Texto de Jadson André

Imagem por Caroline Rehbein

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Vida comum parte 1 0 129

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Chegada 0 676

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai