Texto de em 30 de Março de 2017 . Nenhum comentário.

“Às vezes eu me sinto como uma criança sem mãe. Muito longe de casa”, gritou meu marido e bateu a porta do quarto, trancando com chave. Eu até podia entender, estávamos mesmo longe de casa, vivendo em um tempo obscuro. Por esse lado fazia sentido. Mas a gente tinha finalmente o que queria, aquele era um lugar especial. Neste ponto as coisas mudavam e eu passava a não entender onde ele queria chegar com aquele papo.

Enfim, eu ali sentada no sofá da sala, encarando a televisão. A máquina acendeu a tela e me disse que eu não podia fazer nada. Dizia que era melhor eu ficar ali sentada enquanto ela encontraria um programa que talvez me distraísse e agradasse. Aceitei o convite da máquina e perguntei o que ela poderia me sugerir. Me apresentou um grande número de opções. Tantas que eu tive muita dificuldade em escolher. Até que desisti e disse que colocasse qualquer coisa. Ela respondeu que não poderia fazer isso, por mais que tivesse inúmeras atrações, para todos os gostos, não funcionaria sem um ponto inicial. Era necessário que eu desse o start. “Mostre-me algo épico”, exclamei. A tela me apresentou um cenário medieval, tão imundo que me parecia especialmente realista. Era uma série chamada Charlemagne e tinha aquela coisa de império, romance, traições, guerras e sangue. Porém, o que me deixou intrigada mesmo foi como o primeiro episódio tinha um foco bem importante na relação de Carlos com a mãe dele, Berta de Laon.

O nome da minha mãe é uma variação das versões femininas da alcunha Carlos. Tem todo aquele lance do significado, da força e virilidade, que nem todos conseguem acreditar, mas que às vezes faz bastante sentido. Fiquei meio filosofando sobre esses nomes. Pausei a televisão e comecei a consultar alguns dicionários etimológicos pelo celular. Foi então que ouvi barulhos ensurdecedores. Pareciam estar vindo de muito perto do nosso prédio. A primeira memória que minha mente acessou foi a imagem de explosões coloridas no céu. Mas o ritmo que aqueles sons assumiam, a continuidade interrompida por curtos intervalos, me fizeram desacreditar que podiam ser fogos de artifício.  “São disparos!”, deduzi.

Corri até a janela Oeste, de onde conseguiria ver o Centro Cívico. Mas a Campos Sales estava diferente, não era uma rua única, de largas pistas. Haviam colocado um canteiro com árvores medianas bem no meio, separando a rua em dois lados. Olhei para a esquina de cima e vi que o som dos tiros vinha da região do Tribunal. Mas logo clarões começaram aparecer em outras partes da região Norte da cidade. Munições traçantes, com pequenas doses de fósforo queimando na ponta, cortavam o céu de nuvens baixas e avermelhadas. Apaguei todas as luzes do apartamento e percebi que, incrivelmente, meu marido ainda dormia o sono dos justos. Bati algumas vezes na porta do quarto, mas ele não atendeu. Decidi que, mesmo sem ele, iria descobrir o que estava acontecendo.

Voltei à janela com um binóculo nas mãos e comecei a observar. A cidade estava pegando fogo. Eram muitos focos de confusão. Ouvi o som de um helicóptero que parecia estar cada vez mais próximo. Quando o avistei, vi que um dos tripulantes estava pendurado na porta aberta e segurava um rifle. Voavam no escuro, não havia uma luz acesa na aeronave. Eu consegui observá-los pois chegaram muito perto do nosso prédio.  O homem que carregava a arma apontou em minha direção e me joguei no chão. Depois de um minuto, levantei vagarosamente atrás do sofá, tentando observá-los de novo e vi que ainda estavam lá, mas o atirador já havia abaixado o rifle. Voaram para a região do Tribunal e logo ouvi que o motor parou. Imaginei que haviam descido no heliponto no topo do prédio envidraçado da Mauá.

Decidi não sair de casa, tive medo, mas um segundo depois reconsiderei ao imaginar que aquela confusão poderia não terminar tão cedo, que logo poderia atingir a nossa casa. Eu tinha que descobrir o que estava acontecendo.

Desci as escadas do prédio. A rua de trás estava transfigurada, com carcaças de veículos espalhadas, alguns ainda em chamas. Como aquilo tinha se configurado tão rapidamente, enquanto eu assistia uma simples série de televisão? Não era capaz de imaginar os caminhos que haviam levado a cidade chegar a tal ponto. Nem mesmo um motivo para tamanha desordem. Caminhei até a esquina e todos os quarteirões de cima estavam sem energia. O Tribunal estava no escuro. Escondida nas sombras, do outro lado da rua, caminhei rumo ao Palácio na expectativa de encontrar lá o início da revolta. Segui por uma rua de pedra, com árvores muito altas e velhas e acabei me perdendo. Após alguns minutos perambulando para rumo ignorado, encontrei uma calçada antiga que me dirigiu até uma praça, perto de um rio.

Não conseguia me lembrar como poderia haver um rio naquela parte tão alta da cidade. Me perguntei como em tantos anos morando ali, eu nunca havia me dado conta daquela corrente de água verde e profunda. Enfim, mal tive tempo para pensar nisso, vi que um homem alto, vestindo uniforme, com os olhos pintados de preto, arma em punho, pronto para guerra, se aproximou.

Demorei para reconhecer que era Halsøy, meu amigo escandinavo. Nos conhecemos em Oslo. Ele havia sido meu guia quando fotografamos a Aurora Boreal. Perguntei o que ele fazia em minha cidade e ele me disse que a extrema direita havia iniciado uma invasão mundial. Quase um século depois, tinham resolvido retomar a guerra contra o movimento secularizado ao qual insistiam em atribuir características agnósticas neocomunistas. “Vamos resgatar os velhos costumes”, afirmava Halsøy, defensor inolvidável dos deuses antigos.

Fiquei assustada quando percebi que Halsøy iria me matar. Fechei os olhos esperando o tiro fatal. Ele estava determinado. No entanto, passou por mim em direção à Catedral, que mantinha os sinos badalando sem parar. Perguntei se ele não iria acabar comigo e ele disse que eu não era uma neocomunista como as demais, que era amiga dele e, portanto, pelo menos por enquanto, não deveria me preocupar. Eu disse que ele estava enganado, que todos os meus queridos iriam morrer pela mão dele e de seus amigos fanáticos. “Já que todos irão embora dessa vida, eu não quero ficar sozinha”, gritei com ele.

Halsøy chegou bem perto de mim, era um gigante. Olhou em meus olhos, sorriu e depois me deu uma cabeçada violenta. Virei o rosto, mas foi suficiente apenas para, em vez de me acertar a testa, atingir meu olho esquerdo em cheio. Vi estrelas, vi um buraco negro, vi a cruz e o martelo. Acordei instantes depois e percebi que o gigante Halsøy me carregava no colo. Usou minhas chaves para abrir o prédio, subiu pelas escadas e me jogou dentro do apartamento.

Acordei no sofá, na manhã seguinte, com muitas dores no corpo, principalmente na cabeça. Fiquei completamente aterrorizada. A angústia de que aquilo tudo fosse verdade me afundou em pânico que mal consegui respirar. Ofegante, caminhei até a janela, então fui invadida por grande alívio ao olhar para a Rua Campos Sales e ver que o canteiro central, de árvores medianas, nunca havia existido. Era a eterna via única, de pistas largas. Voltei meu olhar para dentro do apartamento e vi que a televisão ainda estava pausada no mesmo lugar.

 

Jadson André