Às vezes eu me sinto como uma criança sem mãe 0 42

“Às vezes eu me sinto como uma criança sem mãe. Muito longe de casa”, gritou meu marido e bateu a porta do quarto, trancando com chave. Eu até podia entender, estávamos mesmo longe de casa, vivendo em um tempo obscuro. Por esse lado fazia sentido. Mas a gente tinha finalmente o que queria, aquele era um lugar especial. Neste ponto as coisas mudavam e eu passava a não entender onde ele queria chegar com aquele papo.

Enfim, eu ali sentada no sofá da sala, encarando a televisão. A máquina acendeu a tela e me disse que eu não podia fazer nada. Dizia que era melhor eu ficar ali sentada enquanto ela encontraria um programa que talvez me distraísse e agradasse. Aceitei o convite da máquina e perguntei o que ela poderia me sugerir. Me apresentou um grande número de opções. Tantas que eu tive muita dificuldade em escolher. Até que desisti e disse que colocasse qualquer coisa. Ela respondeu que não poderia fazer isso, por mais que tivesse inúmeras atrações, para todos os gostos, não funcionaria sem um ponto inicial. Era necessário que eu desse o start. “Mostre-me algo épico”, exclamei. A tela me apresentou um cenário medieval, tão imundo que me parecia especialmente realista. Era uma série chamada Charlemagne e tinha aquela coisa de império, romance, traições, guerras e sangue. Porém, o que me deixou intrigada mesmo foi como o primeiro episódio tinha um foco bem importante na relação de Carlos com a mãe dele, Berta de Laon.

O nome da minha mãe é uma variação das versões femininas da alcunha Carlos. Tem todo aquele lance do significado, da força e virilidade, que nem todos conseguem acreditar, mas que às vezes faz bastante sentido. Fiquei meio filosofando sobre esses nomes. Pausei a televisão e comecei a consultar alguns dicionários etimológicos pelo celular. Foi então que ouvi barulhos ensurdecedores. Pareciam estar vindo de muito perto do nosso prédio. A primeira memória que minha mente acessou foi a imagem de explosões coloridas no céu. Mas o ritmo que aqueles sons assumiam, a continuidade interrompida por curtos intervalos, me fizeram desacreditar que podiam ser fogos de artifício.  “São disparos!”, deduzi.

Corri até a janela Oeste, de onde conseguiria ver o Centro Cívico. Mas a Campos Sales estava diferente, não era uma rua única, de largas pistas. Haviam colocado um canteiro com árvores medianas bem no meio, separando a rua em dois lados. Olhei para a esquina de cima e vi que o som dos tiros vinha da região do Tribunal. Mas logo clarões começaram aparecer em outras partes da região Norte da cidade. Munições traçantes, com pequenas doses de fósforo queimando na ponta, cortavam o céu de nuvens baixas e avermelhadas. Apaguei todas as luzes do apartamento e percebi que, incrivelmente, meu marido ainda dormia o sono dos justos. Bati algumas vezes na porta do quarto, mas ele não atendeu. Decidi que, mesmo sem ele, iria descobrir o que estava acontecendo.

Voltei à janela com um binóculo nas mãos e comecei a observar. A cidade estava pegando fogo. Eram muitos focos de confusão. Ouvi o som de um helicóptero que parecia estar cada vez mais próximo. Quando o avistei, vi que um dos tripulantes estava pendurado na porta aberta e segurava um rifle. Voavam no escuro, não havia uma luz acesa na aeronave. Eu consegui observá-los pois chegaram muito perto do nosso prédio.  O homem que carregava a arma apontou em minha direção e me joguei no chão. Depois de um minuto, levantei vagarosamente atrás do sofá, tentando observá-los de novo e vi que ainda estavam lá, mas o atirador já havia abaixado o rifle. Voaram para a região do Tribunal e logo ouvi que o motor parou. Imaginei que haviam descido no heliponto no topo do prédio envidraçado da Mauá.

Decidi não sair de casa, tive medo, mas um segundo depois reconsiderei ao imaginar que aquela confusão poderia não terminar tão cedo, que logo poderia atingir a nossa casa. Eu tinha que descobrir o que estava acontecendo.

Desci as escadas do prédio. A rua de trás estava transfigurada, com carcaças de veículos espalhadas, alguns ainda em chamas. Como aquilo tinha se configurado tão rapidamente, enquanto eu assistia uma simples série de televisão? Não era capaz de imaginar os caminhos que haviam levado a cidade chegar a tal ponto. Nem mesmo um motivo para tamanha desordem. Caminhei até a esquina e todos os quarteirões de cima estavam sem energia. O Tribunal estava no escuro. Escondida nas sombras, do outro lado da rua, caminhei rumo ao Palácio na expectativa de encontrar lá o início da revolta. Segui por uma rua de pedra, com árvores muito altas e velhas e acabei me perdendo. Após alguns minutos perambulando para rumo ignorado, encontrei uma calçada antiga que me dirigiu até uma praça, perto de um rio.

Não conseguia me lembrar como poderia haver um rio naquela parte tão alta da cidade. Me perguntei como em tantos anos morando ali, eu nunca havia me dado conta daquela corrente de água verde e profunda. Enfim, mal tive tempo para pensar nisso, vi que um homem alto, vestindo uniforme, com os olhos pintados de preto, arma em punho, pronto para guerra, se aproximou.

Demorei para reconhecer que era Halsøy, meu amigo escandinavo. Nos conhecemos em Oslo. Ele havia sido meu guia quando fotografamos a Aurora Boreal. Perguntei o que ele fazia em minha cidade e ele me disse que a extrema direita havia iniciado uma invasão mundial. Quase um século depois, tinham resolvido retomar a guerra contra o movimento secularizado ao qual insistiam em atribuir características agnósticas neocomunistas. “Vamos resgatar os velhos costumes”, afirmava Halsøy, defensor inolvidável dos deuses antigos.

Fiquei assustada quando percebi que Halsøy iria me matar. Fechei os olhos esperando o tiro fatal. Ele estava determinado. No entanto, passou por mim em direção à Catedral, que mantinha os sinos badalando sem parar. Perguntei se ele não iria acabar comigo e ele disse que eu não era uma neocomunista como as demais, que era amiga dele e, portanto, pelo menos por enquanto, não deveria me preocupar. Eu disse que ele estava enganado, que todos os meus queridos iriam morrer pela mão dele e de seus amigos fanáticos. “Já que todos irão embora dessa vida, eu não quero ficar sozinha”, gritei com ele.

Halsøy chegou bem perto de mim, era um gigante. Olhou em meus olhos, sorriu e depois me deu uma cabeçada violenta. Virei o rosto, mas foi suficiente apenas para, em vez de me acertar a testa, atingir meu olho esquerdo em cheio. Vi estrelas, vi um buraco negro, vi a cruz e o martelo. Acordei instantes depois e percebi que o gigante Halsøy me carregava no colo. Usou minhas chaves para abrir o prédio, subiu pelas escadas e me jogou dentro do apartamento.

Acordei no sofá, na manhã seguinte, com muitas dores no corpo, principalmente na cabeça. Fiquei completamente aterrorizada. A angústia de que aquilo tudo fosse verdade me afundou em pânico que mal consegui respirar. Ofegante, caminhei até a janela, então fui invadida por grande alívio ao olhar para a Rua Campos Sales e ver que o canteiro central, de árvores medianas, nunca havia existido. Era a eterna via única, de pistas largas. Voltei meu olhar para dentro do apartamento e vi que a televisão ainda estava pausada no mesmo lugar.

 

Jadson André

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Cruzeiro do Sul 0 106

Para Gal

 

Navegar pelo mar Mediterrâneo ou pelos outros mares interiores da pequena Europa era relativamente seguro. As distâncias sempre foram curtas e, mesmo durante as noites, Alfa de Ursa Menor oferecia aos marinheiros uma orientação segura. Todas as estrelas e constelações do hemisfério norte orbitam em torno da estrela polar e a partir dela se sabia para onde ir ou qual direção evitar.

– Você é o brasileiro mais calado que eu conheço, sabia?

– Isso não é muito, sou o único brasileiro que você conhece.

– Não é verdade. Não te contei que eu morei dois anos em Salvador?

– Ah, então é por isso. Eu sou de Curitiba, e os curitibanos não falam muito.

– Mas eu também vivi em Curitiba, por seis meses. Dava aulas de inglês em uma escola de línguas. Eles nunca me pagaram e depois disso passei uma temporada trabalhando na Ilha do Mel. E insisto que você fala muito pouco.

Os silêncios de Antonio a desesperaram desde o primeiro contato. É que apesar dele sempre ter demonstrado interesse, e de que ao longo de toda a convivência sempre tenha sido tão atencioso quanto um companheiro pode ser, ela sentia que as palavras eram a forma mais eficiente para se evitar qualquer mal entendido. Aprendeu cedo que suas atitudes eram condicionadas pelos seus discursos e, por isso, ao longo de seus relacionamentos descobriu o quanto os homens tentam por meio das palavras (ou da falta delas) manter sua liberdade de ação.

Por isso, cada demonstração de afeto desacompanhada da correspondente declaração lhe provocava calafrios. Ainda pior era ver que tinha se interessado, outra vez, por um desses homens que abraçam pouco e falam menos ainda.

– Me dá um beijo?

– Bobo, há coisas que não se pergunta.

– Mas como eu posso conseguir coisas quando elas dependem de outras pessoas?

– Aí você tem que ter a coragem de tomar uma atitude e esperar que seja correspondido.

Para ele, eram justamente as palavras que provocavam os males entendidos. Tinha muita dificuldade em traduzir ao português, e depois ao inglês, ao espanhol, ao francês, o alcance e a intensidade de seus desejos, medos e aspirações mais profundas. Acreditava sinceramente que o olhar, o sorriso e a expressão corporal eram representações muito mais inequívocas de todos os conflitos pelos quais passava.

– Me escreve uma carta?

– Esqueceu que há coisas que não se pergunta?

– Eu sei, mas eu quero uma carta. Além do mais, você é que tem que tomar a iniciativa.

– Mas eu tomei, até pedi um beijo.

Ao fim e ao cabo, ele conseguiu não só um, mas incontáveis beijos. Molhados de saliva, molhados de suor, molhados de lágrimas. Doces, salgados, amargos. Distantes, próximos, falados, abraçados. Bianca também conseguiu mais cartas do que qualquer pessoa que houvera conhecido. Cartas enviadas de outras cidades, outros países, outros continentes. Cartas pretéritas, presentes, futuras, perfeitas e mais-que-perfeitas. Algumas sequer lhe eram endereçadas, mas à mulher que um dia havia sido, ou à mulher que talvez viesse a ser.

Abaixo da linha do equador existe outro mundo. A estrela polar desaparece no horizonte e mesmo as constelações conhecidas abandonam seu comportamento habitual. Nas noites de outono o imponente caçador Órion descansa deitado, acompanhado das Três Marias que compõem seu cinturão.

Do lado de cá nada é seguro como do lado de lá. Mesmo o Cruzeiro do Sul, que serve de bússola com seu ponteiro indicando o meridiano, nasce no leste e se põe no oeste como todos os corpos celestes. Há pouco espaço para certezas quando se navega por águas desconhecidas.

Daqui é curioso olhar que Antonio e Bianca inverteram as posições. Não porque seja um fenômeno particularmente comum em relacionamentos tão duradouros, mas porque a intromissão de um terceiro elemento sempre provoca transformações profundas.

Agora é Antonio quem busca estar sempre por perto e, ao sentir que a pouca distância ainda é muito longe, se agarra desesperadamente às palavras. Fala sobre as estrelas e as constelações, e como elas não são as mesmas nos dois hemisférios. Fala sobre o regime das marés, e como eles são influenciados pelos movimentos lunares. Fala tão corretamente quanto possível, cuidando da colocação pronominal, muito mais complicada no português do que em qualquer outro idioma que conhece.

E diante da impotência em estabelecer o contato que tanto busca, se vê refletido nos olhos dela. Tenta entrar, e fala que vai cuidar de tudo. Não como quem sabe que pode cuidar de tudo. Nem como quem acha que pode cuidar de tudo. Sequer como quem acredita que pode cuidar de tudo. Fala que vai cuidar de tudo como quem implora permissão para cuidar de pelo menos uma parte de tudo o que pode acontecer dali em diante.

Para ela, as palavras já perderam muito do seu sentido. Não é insensível à cena. Tampouco é demasiado tarde para ele. Mas ela sentiu no próprio corpo o amor que ali cresceu nos últimos meses, e percebe que ele não precisa de linguagem para se expressar.

Como um marinheiro perdido, Antonio assiste cada nova estria com o mesmo estupor com que os antigos navegantes miravam o céu sem a estrela polar. Compara aquela esfera crescente com o universo em expansão e busca, nas novas formas e desenhos, algum sentido de orientação. É inútil, os dias passam e ele não sabe o que esperar.

Ela o surpreende com um olhar grato e condescendente. A gratidão por saber que tem ao seu lado a melhor pessoa possível, e a condescendência de quem sabe que pode caminhar sozinha, mas prefere ter alguém com quem compartilhar a experiência.

Esse olhar o deixa mais tranquilo. Entende que talvez não possa cuidar de tudo, mas terá o seu espaço. Afinal, lá fora estão o céu, as estrelas, as luas e as marés, tudo por ser explicado e entendido. E tudo recomeça.

Demônio de Fausto 0 91

De todas as histórias que me propus  a contar, nenhuma terá tanto a dizer quanto aquele relato trapaceiro embaixo da ponte do Canal. Foi a história mais absurda que poderia ter descrito. Quando olhei pela janela hoje cedo e vi o céu, tive ainda mais certeza: era tudo verdade.

Meu interlocutor? Pergunta fácil. Audiente muito ilustre, vindo de um canto escondido do cosmos somente para aquela sessão rápida e informal. Talvez, por esse motivo, estava alvoroçado e um tanto irritado. Podia ser só arrelia da viagem também. Minha assimilação foi afetada primeiro pela surpresa da visita (eu estava caminhando perto da ponte do Canal sem a intenção de encontrar quem quer que fosse e por vezes tinha fugido da vista de um ou outro conhecido); depois, pela soberba daqueles olhos lancinantes, cravados em um rosto comprido, bochechas vincadas e testa escondida pela franja. Cabelo oleoso, sufocado por um pork pie hat preto. Ao contrário do que fez em sua última visita, desta vez não veio acompanhado da gangue de pequenos demônios orientados tão somente pelo espetáculo e pela inveja. O coro era solo.

“Alguma coisa precisa mudar meu jovem. Alguma coisa nessa sua vida de merda precisa ser movimentada com urgência!”

“Você deveria me dar conselhos ruins, via de regra, não?!”

“Cala a boca pirralho. Você acha que brilha!”

“Desculpa.”

“Escute aqui, prepara essa cabeça. Nessa sua próxima história pode até ter um amorzinho, mas no fim, a única justificativa para tudo precisa ser a aniquilação. Nada desse papo otimista, dessa merdarada futurista. Você tá me entendendo? O barulho tem que ser tão forte que os cérebros derretam instantâneamente e escorram através dos olhos, ouvidos, nariz e até pela boca. Quero cenas de terror. Violência gratuita. Tá me entendendo, pirralho?!”

“Tá bom cara, porra, não precisa insistir tanto desse jeito. Já saquei qual vai ser dessa vez: vou pintar um quadrão vermelho, cheio de tripas. Se é o que você quer, vamo ai.”

“Isso, isso mesmo. Nada de suspense psicológico, nada de aventura com desfecho ‘mais ou menos’. E chega de misticismo. Nada de enigmas, signos justapostos, pistas para o tesouro, nada de referência sem vergonha, muito menos esse negócio de diarinho lírico do cotidiano. Vai pro pau! EU QUERO PORRADA! Tá entendendo?!”

“Mas na última história já deixamos ouvidos sangrando e cérebros quase explodindo. Essa parada de tripas tá ficando manjada também. Livro sobre jantar canibal, sobre suicídio, tudo isso tá muito modinha, saca? Até aquele plot de personagens abandonados à própria sorte em um vilarejo macabro tá virando filme de Hollywood classificação doze anos. Ainda bem que o politicamente correto começou a morrer depois do mandato do Obama, ninguém aguenta mais essa onda de bom-mocismo. Além de ser hipócrita, pasteuriza TUDO.”

“Beleza cara. Ok, ok e ok! Não precisa ser tão de graça então. Pode ser algo mais sutil, mas mesmo assim, tem que ser algo de virar o estômago.”

“Faz tempo que tô pensando em fazer uma história sobre guerra química. Tá meio oportuno, eu diria. E se a gente fizesse algo com cianeto no meio?”

“Cianeto cara, sério?! Você é muito previsível mesmo. Cianeto é para suicídio gourmet. Coisa pra gente famosa, do calibre de Horácio Quiroga, do Hitler e da horda dele. Cianeto é veneno pra historinha de anarquista sérvio, eu quero mesmo é mostarda nitrogenada, aí sim a coisa fica interessante.”

“Meu caralho! Tu quer bagunçar as personagens nesse nível? Corre o risco de virar um show de bizarrice sem fim.”

“Sim cara, eu falei para você abrir essa sua cabecinha de merda. Falei que a porrada tinha que ser intensa. A primeira cena que me vêm à cabeça é uma imagem com as personagens ardendo após uma explosão daquela gosma amarronzada com cheiro de peixe. Imagina a galera sufocando, com os olhos fumegantes e a pele cheia de bolhas. Quero todo mundo com feições cancerígenas, como se tivessem saído de um filme do Cronenberg. O resto do enredo você constrói aí. Já te dei quase tudo de graça.”

“Certo, entendi.”

“E quero que seja em um lugar menos estigmatizado também, para causar impacto. Pode ser em um contexto abastado e pacífico, foda-se que vai perder um pouco da verossimilhança. Caso você não se esqueça daquela astúcia essencial, tudo vai terminar bem mal, com direito a aplausos. E não se esqueça eim, sem entregar muito a história até que tudo esteja se aniquilando em bolhas de linfa. Destrua uma coisa bonita que eu quero ver.”

Mefistófeles de Fausto e seu chapéu preto desapareceram antes mesmo da minha resposta. Não sei se terei os vinte e quatro anos sem envelhecer concedidos ao mago alemão ou se meus manuscritos nunca irão arder nas chamas, como os do dramaturgo russo. O fato é que coordenei as pontas de meus dedos sobre o teclado e não sei quando irei parar. Certamente será a história mais absurda que já contei. E, no final, vou dizer com insolência atrevida: era tudo verdade.

Texto de Jadson André