Disciplina 0 129

Walter abriu os olhos e gastou atenção com a rua, um fio de silêncio violentado por grilos, tapas de vento nas janelas e o inferno tímido das pombas de uma árvore na rua de seu prédio. Cinco e dez de seu aniversário de 77 anos. Passou café fraco para tomar com leite especial e mandou para dentro com cálcio, ômega 3, comprimido para pressão e sanduíches de forno. Ligou baixinho o microsystem num CD perene do Cauby Peixoto e se banhou cantando. Os filhos, tão atarefados como ele enquanto os via crescer, o visitariam à noite, em um velho esquema de sair para jantar em um velho restaurante que ele gostava e de cujas receitas velhas não abria mão por nada, ainda menos quando podia escolher onde comer. “Ele é teimoso”, diziam seus pequenos, agora adultos e quase responsáveis, com ternura tão rala quanto a alegria que sentiam em se reunir.

Vestido para sair, pegou a vassoura menos surrada de casa e uma garrafa vazia. Entrou em modo missão: hora de varrer e regar flores no São Francisco.

Limpou Maria Tereza Bauer, nenhum sinal. Ajeitou a morada de Elisabethe, seu amor, mas ela também cagou para ele, a despeito da importância da data. Walter encostou a vassoura e deu dois passos para trás. Limpou as lentes dos óculos nas mangas da camisa, secou a testa e o pescoço c parou para regular a respiração. Perguntou ao guardinha se ele sabia quando limparam o mármore dos Schinn pela última vez, mas o quepe não fazia ideia.

– Olha, no meu turno não vi nada, senhor. Mas tô no posto há duas semanas.

– Que não veio ninguém eu vejo na poeira, amigo – sorriso semiaberto – Passa o dedo aqui, ó. Mas se aparecer alguém – tirando papel do bolso para anotar telefone – você tem como me ligar? Desculpe o nervosismo. É que tá feio, um desrespeito. Pára, ô. E você deve ter pai, avô, sabe que velho é chato. O guarda aproximou o pescoço para ouvir, solidário.

Walter chegou na quadra dos luteranos, antiga periferia, hoje bairro nobre. Tirando folhas do túmulo Hoffmann deu conta da falta do epitáfio. As palavras em latim davam à peça um charme, um ar solene, uma brisa de honestidade. Tanto faz o que dizia, a intenção era positiva.

O amigo já não conseguia descansar e aproveitou para gritar de uma vez. Walter todo ouvidos, feliz por ouvir André e, de quebra, ajudá-lo, nem que fosse com a mera disposição de ajudar. Um casal atravessou o caminho. Jurema puxou Antônio, indicando com a cabeça, consciente como Romário na grande área: um velho falando com nada, como se dele arrancasse respostas ou apreendesse intenções, numa viagem de olhos abertos. Amarraram os rostos, abaixaram as cabeças e tocaram em disparada.

Hoff disse que o ladrão passava ali direto, “umas nove e pouco”. Estava possesso com o roubo, traquinagem de um morador de rua, antes sujo e sem vergonha, mas de uma semana para cá na beca, todo todo, tênis nos pés, roupas limpas, cabelos cortados. “Até nos dentes o vagabundo deu um jeito, cara”.

Mas a bronca mais forte do Alemão era mesmo com a própria família. “Os cretinos venderam o casarão do Alto da XV, amigo, é mole? Querem dividir a grana”. Nada de brigar e nem de se apegar demais. Trinta ou menos moedas de prata, dividido por quantos? “Os vermes já mexeram até em papelada, transferir no cartório e tudo. O advogado é filho do meu, que também já veio pra cá, e cobrou bem”. Walter até assentiu com a raiva do amigo. Pelo respeito que ainda nutria, silenciou para entender a lamúria, o canto de um cisne atrasado.

“E seus filhos, Walter, não vão acabar fazendo isso contigo também?”

Hoff agoniado e Walter sugado, afundando na espiral de más notícias. Era previsível que a conversa chegasse naquele ponto, sempre chegava, nem aí se era ocasião de aniversário, batismo, primeira comunhão, crisma, casamento, unção de enfermos, independência, dia da república, festa de colheita, farra do vinho, do boi, do frango, do céu, do mar, natal, reveillon, padroeira.

Walter ouviu som de metal e mexeu no aparelho auricular. Apertou os olhos e girou o pescoço para identificar o sinal: um gordinho torrado de sol, cabisbaixo, com sacolas e roupas em um carrinho de supermercado. O azul e a geografia sugeriam Condor. Hoff disse “é esse aí. Agora me ajuda, Waltinho. Desce a mão na cara desse malandro”. Walter levantou os braços para frente, na altura dos ombros: tremedeira. Não tinha mais o coração de ouro de quem corria 30k por semana até alguns anos atrás. Tinha abandonado também, em sequência, boxe, ioga, fisioterapia e pilates. O barrigudo era jovem e forte e, se tivesse mesmo roubado a tumba, parecia ter feito bom uso da moeda. Disse para André que investigaria como pudesse, aí se despediu pensando em nunca mais voltar.

Seguiu o mendigo. Disfarçado em seu sobretudo cinza, um camaleão de outono, misturou-se a detalhes que antes ignorava. O alvo estacionou o carrinho em um canto e pegou um pacote de Trakinas de uma sacola, cabeça e costas na parede, olhos para cima.

Limpando a garganta em voz alta, Walter acenou com as duas mãos, gastando energia para demonstrar que não era uma ameaça. O pançudo olhou para ele:

– Rapaz, tá com fome?

– Oi?

– Cê aí comendo bolacha. É que hoje é meu aniversário. Almoça comigo?

– Almoçar? É o quê?

– Perto daqui. Eu pago. Juro que não é palhaçada.

 

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Marco Antonio Santos

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Dai-me Amor 0 228

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 375

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.