Disciplina 0 861

Walter abriu os olhos e gastou atenção com a rua, um fio de silêncio violentado por grilos, tapas de vento nas janelas e o inferno tímido das pombas de uma árvore na rua de seu prédio. Cinco e dez de seu aniversário de 77 anos. Passou café fraco para tomar com leite especial e mandou para dentro com cálcio, ômega 3, comprimido para pressão e sanduíches de forno. Ligou baixinho o microsystem num CD perene do Cauby Peixoto e se banhou cantando. Os filhos, tão atarefados como ele enquanto os via crescer, o visitariam à noite, em um velho esquema de sair para jantar em um velho restaurante que ele gostava e de cujas receitas velhas não abria mão por nada, ainda menos quando podia escolher onde comer. “Ele é teimoso”, diziam seus pequenos, agora adultos e quase responsáveis, com ternura tão rala quanto a alegria que sentiam em se reunir.

Vestido para sair, pegou a vassoura menos surrada de casa e uma garrafa vazia. Entrou em modo missão: hora de varrer e regar flores no São Francisco.

Limpou Maria Tereza Bauer, nenhum sinal. Ajeitou a morada de Elisabethe, seu amor, mas ela também cagou para ele, a despeito da importância da data. Walter encostou a vassoura e deu dois passos para trás. Limpou as lentes dos óculos nas mangas da camisa, secou a testa e o pescoço c parou para regular a respiração. Perguntou ao guardinha se ele sabia quando limparam o mármore dos Schinn pela última vez, mas o quepe não fazia ideia.

– Olha, no meu turno não vi nada, senhor. Mas tô no posto há duas semanas.

– Que não veio ninguém eu vejo na poeira, amigo – sorriso semiaberto – Passa o dedo aqui, ó. Mas se aparecer alguém – tirando papel do bolso para anotar telefone – você tem como me ligar? Desculpe o nervosismo. É que tá feio, um desrespeito. Pára, ô. E você deve ter pai, avô, sabe que velho é chato. O guarda aproximou o pescoço para ouvir, solidário.

Walter chegou na quadra dos luteranos, antiga periferia, hoje bairro nobre. Tirando folhas do túmulo Hoffmann deu conta da falta do epitáfio. As palavras em latim davam à peça um charme, um ar solene, uma brisa de honestidade. Tanto faz o que dizia, a intenção era positiva.

O amigo já não conseguia descansar e aproveitou para gritar de uma vez. Walter todo ouvidos, feliz por ouvir André e, de quebra, ajudá-lo, nem que fosse com a mera disposição de ajudar. Um casal atravessou o caminho. Jurema puxou Antônio, indicando com a cabeça, consciente como Romário na grande área: um velho falando com nada, como se dele arrancasse respostas ou apreendesse intenções, numa viagem de olhos abertos. Amarraram os rostos, abaixaram as cabeças e tocaram em disparada.

Hoff disse que o ladrão passava ali direto, “umas nove e pouco”. Estava possesso com o roubo, traquinagem de um morador de rua, antes sujo e sem vergonha, mas de uma semana para cá na beca, todo todo, tênis nos pés, roupas limpas, cabelos cortados. “Até nos dentes o vagabundo deu um jeito, cara”.

Mas a bronca mais forte do Alemão era mesmo com a própria família. “Os cretinos venderam o casarão do Alto da XV, amigo, é mole? Querem dividir a grana”. Nada de brigar e nem de se apegar demais. Trinta ou menos moedas de prata, dividido por quantos? “Os vermes já mexeram até em papelada, transferir no cartório e tudo. O advogado é filho do meu, que também já veio pra cá, e cobrou bem”. Walter até assentiu com a raiva do amigo. Pelo respeito que ainda nutria, silenciou para entender a lamúria, o canto de um cisne atrasado.

“E seus filhos, Walter, não vão acabar fazendo isso contigo também?”

Hoff agoniado e Walter sugado, afundando na espiral de más notícias. Era previsível que a conversa chegasse naquele ponto, sempre chegava, nem aí se era ocasião de aniversário, batismo, primeira comunhão, crisma, casamento, unção de enfermos, independência, dia da república, festa de colheita, farra do vinho, do boi, do frango, do céu, do mar, natal, reveillon, padroeira.

Walter ouviu som de metal e mexeu no aparelho auricular. Apertou os olhos e girou o pescoço para identificar o sinal: um gordinho torrado de sol, cabisbaixo, com sacolas e roupas em um carrinho de supermercado. O azul e a geografia sugeriam Condor. Hoff disse “é esse aí. Agora me ajuda, Waltinho. Desce a mão na cara desse malandro”. Walter levantou os braços para frente, na altura dos ombros: tremedeira. Não tinha mais o coração de ouro de quem corria 30k por semana até alguns anos atrás. Tinha abandonado também, em sequência, boxe, ioga, fisioterapia e pilates. O barrigudo era jovem e forte e, se tivesse mesmo roubado a tumba, parecia ter feito bom uso da moeda. Disse para André que investigaria como pudesse, aí se despediu pensando em nunca mais voltar.

Seguiu o mendigo. Disfarçado em seu sobretudo cinza, um camaleão de outono, misturou-se a detalhes que antes ignorava. O alvo estacionou o carrinho em um canto e pegou um pacote de Trakinas de uma sacola, cabeça e costas na parede, olhos para cima.

Limpando a garganta em voz alta, Walter acenou com as duas mãos, gastando energia para demonstrar que não era uma ameaça. O pançudo olhou para ele:

– Rapaz, tá com fome?

– Oi?

– Cê aí comendo bolacha. É que hoje é meu aniversário. Almoça comigo?

– Almoçar? É o quê?

– Perto daqui. Eu pago. Juro que não é palhaçada.

 

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Marco Antonio Santos

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Escala de Baumé 0 1917

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Vida comum parte 1 0 2590

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.