A herança de tesouros incalculáveis 0 38

Meu pai foi um professor de sonhos.

Minha mãe, sol a pino entre os temporais.

Enquanto ele nos ensinava que havia sempre novos caminhos e formas inexploradas entre as paisagens regulares, ela deixava aflorar suas profundezas. Havia muitas ali dentro. Acho que ela nunca soube dizer quantas eram.

Com ele, aprendemos a enxergar as amarras, a vislumbrar trechos em que seria possível caminhar com mais folga, para ser um pouco mais de quem a gente é e um pouco menos de um número aprisionado a somar nos indicadores da vida na Terra. Era sempre um trajeto de muitos livros sobre a mesa, de humildade no trato com os outros, de educação e ponderação enrijecido em rebeldia sempre que se impunha uma premissa questionável.

Com ela, aprendemos a noção de libertar-nos de tudo o que nos acorrenta, e que isso leva um tempo enorme: demora mais que a vida inteira. Mas vem de minha mãe a certeza de que a voz pode falar mais firme a cada novo passo, o que não torna nada mais fácil, mas nos fortalece pra encarar os cadeados e encontrar a chave para abri-los um por um. Enquanto eu respirar e a vida for assim, condicionada, lucratória, servirei à desestrutura. Quem sabe até o fim já terei superado fechaduras o bastante para abrir as portas de uma existência um pouquinho mais livre, a mim e a tantos irmãos quanto possível.

Foram felizes como são as pessoas que tentam viver de verdade, e tristes como tais.

Levo deles um amor que tem o maior dos tamanhos dentre as alturas que já conheci. Não sei de muitas, menos ainda de todas. Mas já vi o Pão de Açúcar de pertinho e a Floresta Amazônica da janela do avião. Foi quando meu pai apontou para o chão e disse: “Ali tem bichos e plantas que a humanidade ainda nem sabe que existem”. Eu me impressionei com a possibilidade de haver um livro inteiro de biologia só com imagens de espécies desconhecidas. Vi a natureza de uma forma outra, que se abriu como um aposento escondido no meu raciocínio. Ela é impecável em seus processos.

Eu sigo os passos que aprendi a trilhar, agora ao lado dos meus filhos. Tento ser-lhes professora de sonhos sem dominá-los, a manter-se em equilíbrio sem calar.

Meu pai e minha mãe não me deixaram grandes propriedades, não engrandeciam o que era dispensável. Nunca me levaram ao Mc Donalds para voltar pra casa com a barriga cheia de batatas fritas e um brinquedinho de montar. Em compensação, já fomos a quase todos os bons-e-baratos restaurantes da cidade, quando sempre aproveitávamos para mergulhar em digressões. Comer, fosse o que fosse, era uma celebração muito respeitosa, que comemorávamos entoando filosofias.

Eu ganhei deles uma existência que começou sólida e lúdica; que foi sensível desde o primeiro choro e fez pergunta da palavra inicial. Também de mãe e pai herdei a dedicação ao ofício dos versos, que levo comigo como uma marca de nascença. Eu manipulo palavras. É o que hoje se chama de “profissão”. Penso que é o que tenho de verdade e que não me pode ser tirado. Eu sou as ideias e histórias que eu já li, todas as pessoas com quem conversei, as viagens que eu fiz e o que ainda posso fazer com meu corpo e meu sorriso enquanto viver na Terra. Tudo o mais é frágil como a própria vida.

Pequena que sou, fui, junto a meus irmãos, a maior herança dos meus pais.

Tão grandiosos, tão presentes nessa vida, marcando cada canto da passagem com novas tentativas, restou na essência apenas nós. Mais um motivo para acusar a vida de muito-injusta.

Em gratidão por ser, pelo amor que jamais me faltou, tento ser ainda mais. Pra que eles se orgulhem da passagem sem bens e do carinho com que executaram uma de suas milhares de tarefas, todas sempre duras, mas cheias de grandes belezas: a de mostrar um caminho diferente, que se trilha pensando. Os poros estão continuamente abertos na festa das sensações. Sentir é obrigatório, é involuntário; mas o pensamento se constrói, e divide com o peito a tarefa de iluminar os nossos passos.

Assim eu vejo um adendo à herança, como uma joia rara bem protegida no cofre da família: a nossa harmonia. Conduzidos pelo tentar entender, a gente se entende. Eu acho que de tanto amar os meus irmãos eu aprendi a amar os outros. E tento olhar por dentro dos seus olhos, mesmo quando me olham de volta sem me enxergar.

Eu não sei, papai, mamãe, se eu estou fazendo render os seus investimentos.

Mas eu fiz uma poupança de muitas ideias, que engordo um pouquinho todos os dias. Deposito dentro dela meus novos livros, palavras abundantes, um pouco de choro quando a vaca está magra (acho que prefiro dizer: quando o caqui está marrento. Pode ser assim?), muito riso e danças festas travessuras quando o caqui está maduro e até algum dinheiro de vez em quando. Mas isso é só quando o mundo à minha volta decide que eu lhe tenho algum valor.

Acho que até o fim da minha vida vai dar pra comprar alguma coisa. Se não um terreno à beira do mar, pelo menos a coleção inteira dos irmãos Grimm para a Miranda e o Augusto. Mas se não der, tudo bem. Acho que me bastará a delicadeza de saber, como vocês souberam, mostrar a direção do outro caminho, para que os carros e as roupas caras não façam a menor diferença quando há tantos livros e pessoas especiais. Se eu puder fazer isso, minha herança será a mais rica dentre todos os inventários de reis e rainhas que já desgovernaram a nossa civilização.

por Carolina Goetten

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Geração Alpha 0 119

O comboio chega à estação. O homem a segurar a mão da sua filhinha, 3 ou 4 anos, para embarcarem.

Eis que a porta do vagão não abre sozinha. Não é automática como as portas do Metro, mas ele não sabe; é turista. Deve estar avariada, ele pensa, emperrou. Resolve forçar a porta. Usa toda a sua força mas não consegue. O comboio prestes a partir.

Na altura dos olhos da filha está o botão. Ela mete ali o dedinho e – tchanam! – a porta se abre.

O pai, misto de constrangimento e orgulho, solta um sorriso bobo. Leva a filha para dentro pela mão. Próxima paragem: Belém.

 

Murilo

 

Cruzeiro do Sul 0 119

Para Gal

 

Navegar pelo mar Mediterrâneo ou pelos outros mares interiores da pequena Europa era relativamente seguro. As distâncias sempre foram curtas e, mesmo durante as noites, Alfa de Ursa Menor oferecia aos marinheiros uma orientação segura. Todas as estrelas e constelações do hemisfério norte orbitam em torno da estrela polar e a partir dela se sabia para onde ir ou qual direção evitar.

– Você é o brasileiro mais calado que eu conheço, sabia?

– Isso não é muito, sou o único brasileiro que você conhece.

– Não é verdade. Não te contei que eu morei dois anos em Salvador?

– Ah, então é por isso. Eu sou de Curitiba, e os curitibanos não falam muito.

– Mas eu também vivi em Curitiba, por seis meses. Dava aulas de inglês em uma escola de línguas. Eles nunca me pagaram e depois disso passei uma temporada trabalhando na Ilha do Mel. E insisto que você fala muito pouco.

Os silêncios de Antonio a desesperaram desde o primeiro contato. É que apesar dele sempre ter demonstrado interesse, e de que ao longo de toda a convivência sempre tenha sido tão atencioso quanto um companheiro pode ser, ela sentia que as palavras eram a forma mais eficiente para se evitar qualquer mal entendido. Aprendeu cedo que suas atitudes eram condicionadas pelos seus discursos e, por isso, ao longo de seus relacionamentos descobriu o quanto os homens tentam por meio das palavras (ou da falta delas) manter sua liberdade de ação.

Por isso, cada demonstração de afeto desacompanhada da correspondente declaração lhe provocava calafrios. Ainda pior era ver que tinha se interessado, outra vez, por um desses homens que abraçam pouco e falam menos ainda.

– Me dá um beijo?

– Bobo, há coisas que não se pergunta.

– Mas como eu posso conseguir coisas quando elas dependem de outras pessoas?

– Aí você tem que ter a coragem de tomar uma atitude e esperar que seja correspondido.

Para ele, eram justamente as palavras que provocavam os males entendidos. Tinha muita dificuldade em traduzir ao português, e depois ao inglês, ao espanhol, ao francês, o alcance e a intensidade de seus desejos, medos e aspirações mais profundas. Acreditava sinceramente que o olhar, o sorriso e a expressão corporal eram representações muito mais inequívocas de todos os conflitos pelos quais passava.

– Me escreve uma carta?

– Esqueceu que há coisas que não se pergunta?

– Eu sei, mas eu quero uma carta. Além do mais, você é que tem que tomar a iniciativa.

– Mas eu tomei, até pedi um beijo.

Ao fim e ao cabo, ele conseguiu não só um, mas incontáveis beijos. Molhados de saliva, molhados de suor, molhados de lágrimas. Doces, salgados, amargos. Distantes, próximos, falados, abraçados. Bianca também conseguiu mais cartas do que qualquer pessoa que houvera conhecido. Cartas enviadas de outras cidades, outros países, outros continentes. Cartas pretéritas, presentes, futuras, perfeitas e mais-que-perfeitas. Algumas sequer lhe eram endereçadas, mas à mulher que um dia havia sido, ou à mulher que talvez viesse a ser.

Abaixo da linha do equador existe outro mundo. A estrela polar desaparece no horizonte e mesmo as constelações conhecidas abandonam seu comportamento habitual. Nas noites de outono o imponente caçador Órion descansa deitado, acompanhado das Três Marias que compõem seu cinturão.

Do lado de cá nada é seguro como do lado de lá. Mesmo o Cruzeiro do Sul, que serve de bússola com seu ponteiro indicando o meridiano, nasce no leste e se põe no oeste como todos os corpos celestes. Há pouco espaço para certezas quando se navega por águas desconhecidas.

Daqui é curioso olhar que Antonio e Bianca inverteram as posições. Não porque seja um fenômeno particularmente comum em relacionamentos tão duradouros, mas porque a intromissão de um terceiro elemento sempre provoca transformações profundas.

Agora é Antonio quem busca estar sempre por perto e, ao sentir que a pouca distância ainda é muito longe, se agarra desesperadamente às palavras. Fala sobre as estrelas e as constelações, e como elas não são as mesmas nos dois hemisférios. Fala sobre o regime das marés, e como eles são influenciados pelos movimentos lunares. Fala tão corretamente quanto possível, cuidando da colocação pronominal, muito mais complicada no português do que em qualquer outro idioma que conhece.

E diante da impotência em estabelecer o contato que tanto busca, se vê refletido nos olhos dela. Tenta entrar, e fala que vai cuidar de tudo. Não como quem sabe que pode cuidar de tudo. Nem como quem acha que pode cuidar de tudo. Sequer como quem acredita que pode cuidar de tudo. Fala que vai cuidar de tudo como quem implora permissão para cuidar de pelo menos uma parte de tudo o que pode acontecer dali em diante.

Para ela, as palavras já perderam muito do seu sentido. Não é insensível à cena. Tampouco é demasiado tarde para ele. Mas ela sentiu no próprio corpo o amor que ali cresceu nos últimos meses, e percebe que ele não precisa de linguagem para se expressar.

Como um marinheiro perdido, Antonio assiste cada nova estria com o mesmo estupor com que os antigos navegantes miravam o céu sem a estrela polar. Compara aquela esfera crescente com o universo em expansão e busca, nas novas formas e desenhos, algum sentido de orientação. É inútil, os dias passam e ele não sabe o que esperar.

Ela o surpreende com um olhar grato e condescendente. A gratidão por saber que tem ao seu lado a melhor pessoa possível, e a condescendência de quem sabe que pode caminhar sozinha, mas prefere ter alguém com quem compartilhar a experiência.

Esse olhar o deixa mais tranquilo. Entende que talvez não possa cuidar de tudo, mas terá o seu espaço. Afinal, lá fora estão o céu, as estrelas, as luas e as marés, tudo por ser explicado e entendido. E tudo recomeça.