A herança de tesouros incalculáveis 0 93

Meu pai foi um professor de sonhos.

Minha mãe, sol a pino entre os temporais.

Enquanto ele nos ensinava que havia sempre novos caminhos e formas inexploradas entre as paisagens regulares, ela deixava aflorar suas profundezas. Havia muitas ali dentro. Acho que ela nunca soube dizer quantas eram.

Com ele, aprendemos a enxergar as amarras, a vislumbrar trechos em que seria possível caminhar com mais folga, para ser um pouco mais de quem a gente é e um pouco menos de um número aprisionado a somar nos indicadores da vida na Terra. Era sempre um trajeto de muitos livros sobre a mesa, de humildade no trato com os outros, de educação e ponderação enrijecido em rebeldia sempre que se impunha uma premissa questionável.

Com ela, aprendemos a noção de libertar-nos de tudo o que nos acorrenta, e que isso leva um tempo enorme: demora mais que a vida inteira. Mas vem de minha mãe a certeza de que a voz pode falar mais firme a cada novo passo, o que não torna nada mais fácil, mas nos fortalece pra encarar os cadeados e encontrar a chave para abri-los um por um. Enquanto eu respirar e a vida for assim, condicionada, lucratória, servirei à desestrutura. Quem sabe até o fim já terei superado fechaduras o bastante para abrir as portas de uma existência um pouquinho mais livre, a mim e a tantos irmãos quanto possível.

Foram felizes como são as pessoas que tentam viver de verdade, e tristes como tais.

Levo deles um amor que tem o maior dos tamanhos dentre as alturas que já conheci. Não sei de muitas, menos ainda de todas. Mas já vi o Pão de Açúcar de pertinho e a Floresta Amazônica da janela do avião. Foi quando meu pai apontou para o chão e disse: “Ali tem bichos e plantas que a humanidade ainda nem sabe que existem”. Eu me impressionei com a possibilidade de haver um livro inteiro de biologia só com imagens de espécies desconhecidas. Vi a natureza de uma forma outra, que se abriu como um aposento escondido no meu raciocínio. Ela é impecável em seus processos.

Eu sigo os passos que aprendi a trilhar, agora ao lado dos meus filhos. Tento ser-lhes professora de sonhos sem dominá-los, a manter-se em equilíbrio sem calar.

Meu pai e minha mãe não me deixaram grandes propriedades, não engrandeciam o que era dispensável. Nunca me levaram ao Mc Donalds para voltar pra casa com a barriga cheia de batatas fritas e um brinquedinho de montar. Em compensação, já fomos a quase todos os bons-e-baratos restaurantes da cidade, quando sempre aproveitávamos para mergulhar em digressões. Comer, fosse o que fosse, era uma celebração muito respeitosa, que comemorávamos entoando filosofias.

Eu ganhei deles uma existência que começou sólida e lúdica; que foi sensível desde o primeiro choro e fez pergunta da palavra inicial. Também de mãe e pai herdei a dedicação ao ofício dos versos, que levo comigo como uma marca de nascença. Eu manipulo palavras. É o que hoje se chama de “profissão”. Penso que é o que tenho de verdade e que não me pode ser tirado. Eu sou as ideias e histórias que eu já li, todas as pessoas com quem conversei, as viagens que eu fiz e o que ainda posso fazer com meu corpo e meu sorriso enquanto viver na Terra. Tudo o mais é frágil como a própria vida.

Pequena que sou, fui, junto a meus irmãos, a maior herança dos meus pais.

Tão grandiosos, tão presentes nessa vida, marcando cada canto da passagem com novas tentativas, restou na essência apenas nós. Mais um motivo para acusar a vida de muito-injusta.

Em gratidão por ser, pelo amor que jamais me faltou, tento ser ainda mais. Pra que eles se orgulhem da passagem sem bens e do carinho com que executaram uma de suas milhares de tarefas, todas sempre duras, mas cheias de grandes belezas: a de mostrar um caminho diferente, que se trilha pensando. Os poros estão continuamente abertos na festa das sensações. Sentir é obrigatório, é involuntário; mas o pensamento se constrói, e divide com o peito a tarefa de iluminar os nossos passos.

Assim eu vejo um adendo à herança, como uma joia rara bem protegida no cofre da família: a nossa harmonia. Conduzidos pelo tentar entender, a gente se entende. Eu acho que de tanto amar os meus irmãos eu aprendi a amar os outros. E tento olhar por dentro dos seus olhos, mesmo quando me olham de volta sem me enxergar.

Eu não sei, papai, mamãe, se eu estou fazendo render os seus investimentos.

Mas eu fiz uma poupança de muitas ideias, que engordo um pouquinho todos os dias. Deposito dentro dela meus novos livros, palavras abundantes, um pouco de choro quando a vaca está magra (acho que prefiro dizer: quando o caqui está marrento. Pode ser assim?), muito riso e danças festas travessuras quando o caqui está maduro e até algum dinheiro de vez em quando. Mas isso é só quando o mundo à minha volta decide que eu lhe tenho algum valor.

Acho que até o fim da minha vida vai dar pra comprar alguma coisa. Se não um terreno à beira do mar, pelo menos a coleção inteira dos irmãos Grimm para a Miranda e o Augusto. Mas se não der, tudo bem. Acho que me bastará a delicadeza de saber, como vocês souberam, mostrar a direção do outro caminho, para que os carros e as roupas caras não façam a menor diferença quando há tantos livros e pessoas especiais. Se eu puder fazer isso, minha herança será a mais rica dentre todos os inventários de reis e rainhas que já desgovernaram a nossa civilização.

por Carolina Goetten

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Dai-me Amor 0 238

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 384

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.