Os nomes que o [ … ] tem 0 92

O primeiro batismo aconteceu aos quinze. Não que ele fosse desprovido de apelidos antes disso, é que aquele foi seu primeiro nome genuíno. Nada genérico como peru, benga, jeba, ciclope, carequinha ou quaisquer outras alcunhas que usam por aí. Não é dessa espécie de nome que estou falando. Estou me referindo aos nomes de verdade, e o primeiro deles foi “Jr.”. Com a primeira namorada, descobri que as coisas especiais em nossas vidas deveriam possuir um nome e, portanto, foi isso que passei a ter entre as pernas: o Jú.

Tenho amigos que dão nome a toda sorte de coisas. O carro chamado Astolfo, a viola chamada Hilda, a rede da casa de veraneio chamada Zulmira, e por aí vai. Eu nunca tive o costume de nomear objetos inanimados, mas o meu objeto, bem, de inanimado não tinha nada.

Posso dizer que o Jr. foi um explorador, tinha um mundo novo a conquistar. Com ele as coisas tinham o gosto bobo e despretensioso da adolescência, da descoberta, do amor escondido. Das intermináveis horas ao telefone fixo e da prata fina no anelar direito. No entanto, a gente cresceu e, um dia, o Jr. infelizmente morreu. Algum tempo depois foi rebatizado com um novo nome. Para a segunda namorada, chamava-se o Fera.

Foi aí, então, que algumas diretrizes ficaram mais claras para mim.

Primeira: o nome deveria ser único para cada relacionamento e momento da vida; proibido repetir.

Segunda: o nome deveria surgir espontaneamente, assim como se dá nome a animais de estimação ou bandas de garagem. Pá-pum: se o dog tem cara de Tobias, pronto, é Tobias; se a banda tem cara de Chips of Death, pronto, não tem erro, é batata.

Terceira regra: eram vedados os nomes depreciativos. Já bastava a insegurança martelada em nossas cabeças desde a infância com essa história de tamanho e documento. Ou seja, fosse grande ou pequeno, se fizesse bem o serviço ou sofresse lapsos ocasionais, não importava: nada de nomes com “inho”, Pequeno Príncipe, Peter Pan (o que nunca quer crescer) ou coisa parecida.

Admito que o Jr. havia beirado esse limite, mas era um nome apropriado para um iniciante. Já o Fera – olha essa fera, bitcho! – tinha a segurança que o primeiro não tinha. Aos dezoito, a vida tinha outro tom, a liberdade do recém-adulto dentro de uma garrafa de Fontana. Menos cinema, mais filme nas cobertas. Menos festinha em casa, mais pileque na rua. Quando o porre vinha, segurávamos-nos: os cabelos, os vexames e os chororôs. A gente se entendia, mas como a vida dá voltas, o Fera também se foi.

O terceiro batismo foi ao fim da faculdade: era o Tonhão, proveniente de meu nome, Antônio. Cumpriu em cheio a terceira regra: nada de Toninho, aqui era A-O-Til, porra. Tonhão tinha experiência, mas, como disse o poeta, ainda era jovem o suficiente pra achar que sabia de tudo. Nessa época, a gente viajou pelo mundo e também abriu a cabeça. Deixamos o hardcore empoeirar e redescobrimos a MPB nos vinis. Esgotamos Hollywood e fomos assistir aos europeus. Não, a Fontana a gente não trocou por vinho de verdade; como disse, ainda éramos jovens. Tonhão viveu por uns bons anos; achou até que seria para sempre. Contudo, um dia se acabou.

Depois disso, ele ficou por um bom tempo sem nome nenhum. Entre uma relação líquida e outra, voltou a ser o pau, o pinto… No começo foi uma maravilha, mas logo a crise de identidade começou a bater. Curiosamente, não aconteceu apenas com ele; o Tonho aqui de cima também estava perdidão. Balada atrás de balada, a ressaca a inutilizar os domingos, os corpos que vem e vão sem se dar nomes, o retrogosto dessa tal liberdade – o que é eu vou fazer… – Tal qual cão de rua, comendo de tudo mas sempre com fome.

E aí, um dia, surgiu aquela menina do olhar franzido que estudava arte e era uma coisinha linda-maravilhosa. A gente se sintonizou por umas poucas semanas e assim, sem cerimônia, ela resolveu chamá-lo Pablo.

“Pablo, por quê? Neruda? Escobar?”

“Não, seu burro. O pintor.”

Eu ri. E por um momento me pareceu que aquele trocadilho bobo me bastava, que o nome não poderia ser melhor.

Ela provavelmente sabia que o artista havia sido um homem de muitas mulheres e relações turbulentas, mas não temeu que isso fosse acontecer com ela; não com este Picasso.

O tempo mostraria que estava certa. Se eu me tornei homem de muitas mulheres, foi porque ela própria era, a cada dia, uma mulher diferente. Vez ou outra, chamava meu Pablo pelos demais nomes do pintor… Diego, Juan, Cipriano de la Santíssima Trinidad e os outros tantos. Tão inconstante ela era que também me modelava assim.

Esse foi o quarto batismo e, sabe, eu não duvido que seja para sempre. Não que eu seja desses que acreditam em amor eterno. Mas acredito no poder das risadas.

 

Imagem: Carol Rehbein.

Texto: Murilo.

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maculada 0 203

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”