Os nomes que o [ … ] tem 0 208

O primeiro batismo aconteceu aos quinze. Não que ele fosse desprovido de apelidos antes disso, é que aquele foi seu primeiro nome genuíno. Nada genérico como peru, benga, jeba, ciclope, carequinha ou quaisquer outras alcunhas que usam por aí. Não é dessa espécie de nome que estou falando. Estou me referindo aos nomes de verdade, e o primeiro deles foi “Jr.”. Com a primeira namorada, descobri que as coisas especiais em nossas vidas deveriam possuir um nome e, portanto, foi isso que passei a ter entre as pernas: o Jú.

Tenho amigos que dão nome a toda sorte de coisas. O carro chamado Astolfo, a viola chamada Hilda, a rede da casa de veraneio chamada Zulmira, e por aí vai. Eu nunca tive o costume de nomear objetos inanimados, mas o meu objeto, bem, de inanimado não tinha nada.

Posso dizer que o Jr. foi um explorador, tinha um mundo novo a conquistar. Com ele as coisas tinham o gosto bobo e despretensioso da adolescência, da descoberta, do amor escondido. Das intermináveis horas ao telefone fixo e da prata fina no anelar direito. No entanto, a gente cresceu e, um dia, o Jr. infelizmente morreu. Algum tempo depois foi rebatizado com um novo nome. Para a segunda namorada, chamava-se o Fera.

Foi aí, então, que algumas diretrizes ficaram mais claras para mim.

Primeira: o nome deveria ser único para cada relacionamento e momento da vida; proibido repetir.

Segunda: o nome deveria surgir espontaneamente, assim como se dá nome a animais de estimação ou bandas de garagem. Pá-pum: se o dog tem cara de Tobias, pronto, é Tobias; se a banda tem cara de Chips of Death, pronto, não tem erro, é batata.

Terceira regra: eram vedados os nomes depreciativos. Já bastava a insegurança martelada em nossas cabeças desde a infância com essa história de tamanho e documento. Ou seja, fosse grande ou pequeno, se fizesse bem o serviço ou sofresse lapsos ocasionais, não importava: nada de nomes com “inho”, Pequeno Príncipe, Peter Pan (o que nunca quer crescer) ou coisa parecida.

Admito que o Jr. havia beirado esse limite, mas era um nome apropriado para um iniciante. Já o Fera – olha essa fera, bitcho! – tinha a segurança que o primeiro não tinha. Aos dezoito, a vida tinha outro tom, a liberdade do recém-adulto dentro de uma garrafa de Fontana. Menos cinema, mais filme nas cobertas. Menos festinha em casa, mais pileque na rua. Quando o porre vinha, segurávamos-nos: os cabelos, os vexames e os chororôs. A gente se entendia, mas como a vida dá voltas, o Fera também se foi.

O terceiro batismo foi ao fim da faculdade: era o Tonhão, proveniente de meu nome, Antônio. Cumpriu em cheio a terceira regra: nada de Toninho, aqui era A-O-Til, porra. Tonhão tinha experiência, mas, como disse o poeta, ainda era jovem o suficiente pra achar que sabia de tudo. Nessa época, a gente viajou pelo mundo e também abriu a cabeça. Deixamos o hardcore empoeirar e redescobrimos a MPB nos vinis. Esgotamos Hollywood e fomos assistir aos europeus. Não, a Fontana a gente não trocou por vinho de verdade; como disse, ainda éramos jovens. Tonhão viveu por uns bons anos; achou até que seria para sempre. Contudo, um dia se acabou.

Depois disso, ele ficou por um bom tempo sem nome nenhum. Entre uma relação líquida e outra, voltou a ser o pau, o pinto… No começo foi uma maravilha, mas logo a crise de identidade começou a bater. Curiosamente, não aconteceu apenas com ele; o Tonho aqui de cima também estava perdidão. Balada atrás de balada, a ressaca a inutilizar os domingos, os corpos que vem e vão sem se dar nomes, o retrogosto dessa tal liberdade – o que é eu vou fazer… – Tal qual cão de rua, comendo de tudo mas sempre com fome.

E aí, um dia, surgiu aquela menina do olhar franzido que estudava arte e era uma coisinha linda-maravilhosa. A gente se sintonizou por umas poucas semanas e assim, sem cerimônia, ela resolveu chamá-lo Pablo.

“Pablo, por quê? Neruda? Escobar?”

“Não, seu burro. O pintor.”

Eu ri. E por um momento me pareceu que aquele trocadilho bobo me bastava, que o nome não poderia ser melhor.

Ela provavelmente sabia que o artista havia sido um homem de muitas mulheres e relações turbulentas, mas não temeu que isso fosse acontecer com ela; não com este Picasso.

O tempo mostraria que estava certa. Se eu me tornei homem de muitas mulheres, foi porque ela própria era, a cada dia, uma mulher diferente. Vez ou outra, chamava meu Pablo pelos demais nomes do pintor… Diego, Juan, Cipriano de la Santíssima Trinidad e os outros tantos. Tão inconstante ela era que também me modelava assim.

Esse foi o quarto batismo e, sabe, eu não duvido que seja para sempre. Não que eu seja desses que acreditam em amor eterno. Mas acredito no poder das risadas.

 

Imagem: Carol Rehbein.

Texto: Murilo.

Previous ArticleNext Article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Dai-me Amor 0 377

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 491

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.