Texto de em 11 de Abril de 2017 . Nenhum comentário.

texto: Rafael Antunes
ilustração: Nina Zambiassi

Com a manga da blusa Mariana enxugou o rosto, virou-se para lá e fingiu dormir. Do lado de cá, Pérsio, a escuridão e o mar de lágrimas a transbordar da cama. As roupas jogadas no chão agora boiavam espalhadas ao redor de um mundo em prantos. Metamorfoseada em choro, nadou até a janela e a água chegara à rua. As árvores respiravam apenas com a ponta dos galhos alaranjados sob a luz dos postes. Os pássaros desesperados mergulhavam como procurassem cegamente ovos afogados. O mundo era Mariana, que diluía.

No escuro, Pérsio tateava a vida com Mariana e tentava alcança-la, sem êxito. De longe tentava dizer eu te amo. Era a primeira vez que revelava tamanho afeto, mas dizia mais por saber precisar dela do que por realmente saber amar. O silêncio era a resposta.

O mar engolia a cama e Pérsio submergia junto. Tornara-se parte da cama. Jamais sairia dali com Mariana, que leve flutuava em suas próprias lágrimas.

Aos poucos ele se tornava um dos ovos dos pássaros que mergulhavam cegos em busca de algo que já não era na escuridão.

Pérsio era desespero. Prantos. Soluços. Era engolido por um mar que crescia a cada peso libertado do peito de Mariana. Pouco a pouco via-se integrado ao nada que o abraçava dia a dia. Cama a cama pelas quais amanhecia suas manhãs.

A cada instante transformava-se em quase nada. Tomou consciência de que a memória era o resto da realidade que lhe cabia. Precisou de uma vida inteira, segundo a segundo, para chegar até aqui e constatar que o amor era para si uma proibição de estar só. Então suplicou para que o tempo se demorasse, para que pudesse enfim sentir o que agora julgava ser o amor.

Mariana, sentada à janela, descobria que somente-só conseguiria escapar daquele mundo inundado e partir para um outro.

Pela janela saiu num nado que em nada lembrava a sobrevivência, mas sim uma libertação. Era leve e a levava para si. Para ensimesmar-se. De costas para todas as direções.