Mar de si 0 67

texto: Rafael Antunes
ilustração: Nina Zambiassi

Com a manga da blusa Mariana enxugou o rosto, virou-se para lá e fingiu dormir. Do lado de cá, Pérsio, a escuridão e o mar de lágrimas a transbordar da cama. As roupas jogadas no chão agora boiavam espalhadas ao redor de um mundo em prantos. Metamorfoseada em choro, nadou até a janela e a água chegara à rua. As árvores respiravam apenas com a ponta dos galhos alaranjados sob a luz dos postes. Os pássaros desesperados mergulhavam como procurassem cegamente ovos afogados. O mundo era Mariana, que diluía.

No escuro, Pérsio tateava a vida com Mariana e tentava alcança-la, sem êxito. De longe tentava dizer eu te amo. Era a primeira vez que revelava tamanho afeto, mas dizia mais por saber precisar dela do que por realmente saber amar. O silêncio era a resposta.

O mar engolia a cama e Pérsio submergia junto. Tornara-se parte da cama. Jamais sairia dali com Mariana, que leve flutuava em suas próprias lágrimas.

Aos poucos ele se tornava um dos ovos dos pássaros que mergulhavam cegos em busca de algo que já não era na escuridão.

Pérsio era desespero. Prantos. Soluços. Era engolido por um mar que crescia a cada peso libertado do peito de Mariana. Pouco a pouco via-se integrado ao nada que o abraçava dia a dia. Cama a cama pelas quais amanhecia suas manhãs.

A cada instante transformava-se em quase nada. Tomou consciência de que a memória era o resto da realidade que lhe cabia. Precisou de uma vida inteira, segundo a segundo, para chegar até aqui e constatar que o amor era para si uma proibição de estar só. Então suplicou para que o tempo se demorasse, para que pudesse enfim sentir o que agora julgava ser o amor.

Mariana, sentada à janela, descobria que somente-só conseguiria escapar daquele mundo inundado e partir para um outro.

Pela janela saiu num nado que em nada lembrava a sobrevivência, mas sim uma libertação. Era leve e a levava para si. Para ensimesmar-se. De costas para todas as direções.

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maculada 0 200

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”