Um dia eu chego lá 1 121

Desde menina – mais especificamente dos nove anos em diante –, decidi que, quando morrer, quero ser das que deixam algo pra trás. Não uma história de superação em vida, fortuna pra família nem atos heroicos. Só quero causar uma última impressão críptica, dessas que, depois do ocorrido, alguém acaba comentando e sentindo um arrepio. Por isso, o padrão para me despedir de conhecidos não-tão-próximos é o uso do “Adeus” ao invés do “Tchau”.

Desenvolvi também uma frase pr’aquelas situações em que ambos os lados fingem querer aumentar a frequência dos encontros, uma resposta para o famigerado “Vamos marcar uma cervejinha qualquer hora”. Consiste em “Vamos sim, com certeza. A gente nunca sabe quando pode ser a última cerveja, né?”. O interlocutor tende a devolver um receoso “Credo, hahaha, para com isso”, seguido por três batidinhas em alguma superfície de madeira ao alcance das mãos, porque acha que espanta. Mas imagina se não espantar?

Recentemente tenho tentado plantar essa pulga atrás da orelha do meu avô. Pergunto sobre as posições da Igreja Católica sobre a morte, iniciando as questões com “Mas, vô, digamos que eu morra hoje…”, ao que ele responde “Credo-em-cruz!”, crendo que a menção à cruz vai afastar os maus espíritos, para só depois responder à pergunta. Mas digamos que eu falecesse de fato, digamos que a cruz de Jesus não servisse pra esse tipo de mau espírito em específico?

Aos doze, tive um diálogo interessante com uma professora de biologia. Depois de uma nota ruim em uma prova sobre aves, abordei dona Marília com uma fúria que não me era comum. Ela foi bem mais polida do que eu, e me explicou que infelizmente não era assim que as coisas funcionavam e que me faltava um pouco mais de dedicação e interesse. Praguejei, soltei uma mistura de ameaça com provocação: “E se eu morrer amanhã?”, arrisquei. Ela, sorrindo irônica, respondeu “Se morrer amanhã, morre reprovada em biologia”. Gente, que retórica. Acho que esse foi o único caso em que a raiva falou mais alto e eu usei a ideia da minha morte com o objetivo único de causar mal estar, e acabou não dando certo. Mas e se eu tivesse batido as botas, imagina o peso na consciência de dona Marília?

Ao fim das contas, eu acho que gosto é de gerar essa tensão. Criar esse “Será?”, esse “Nossa, tomara que não” que eu imagino cada uma dessas pessoas digerindo ao se despedir de mim. Só espero que, depois de eu fazer a minha passagem definitiva, muita gente pense “Bem que ela avisou” ou “Ela estava estranha mesmo na última vez em que falamos”. Espero expressões de confusão. Não sei se isso é bom ou ruim, mas espero que o leitor não se importe. Um dia eu vou morrer.

Aliás, vai saber?, eu posso inclusive já estar morta no momento em que você lê esse texto.

 

texto e colagem por Rômulo Candal.

fotos de RealMattKane, stevenbates e Hombit.

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Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”