Um dia eu chego lá 1 413

Desde menina – mais especificamente dos nove anos em diante –, decidi que, quando morrer, quero ser das que deixam algo pra trás. Não uma história de superação em vida, fortuna pra família nem atos heroicos. Só quero causar uma última impressão críptica, dessas que, depois do ocorrido, alguém acaba comentando e sentindo um arrepio. Por isso, o padrão para me despedir de conhecidos não-tão-próximos é o uso do “Adeus” ao invés do “Tchau”.

Desenvolvi também uma frase pr’aquelas situações em que ambos os lados fingem querer aumentar a frequência dos encontros, uma resposta para o famigerado “Vamos marcar uma cervejinha qualquer hora”. Consiste em “Vamos sim, com certeza. A gente nunca sabe quando pode ser a última cerveja, né?”. O interlocutor tende a devolver um receoso “Credo, hahaha, para com isso”, seguido por três batidinhas em alguma superfície de madeira ao alcance das mãos, porque acha que espanta. Mas imagina se não espantar?

Recentemente tenho tentado plantar essa pulga atrás da orelha do meu avô. Pergunto sobre as posições da Igreja Católica sobre a morte, iniciando as questões com “Mas, vô, digamos que eu morra hoje…”, ao que ele responde “Credo-em-cruz!”, crendo que a menção à cruz vai afastar os maus espíritos, para só depois responder à pergunta. Mas digamos que eu falecesse de fato, digamos que a cruz de Jesus não servisse pra esse tipo de mau espírito em específico?

Aos doze, tive um diálogo interessante com uma professora de biologia. Depois de uma nota ruim em uma prova sobre aves, abordei dona Marília com uma fúria que não me era comum. Ela foi bem mais polida do que eu, e me explicou que infelizmente não era assim que as coisas funcionavam e que me faltava um pouco mais de dedicação e interesse. Praguejei, soltei uma mistura de ameaça com provocação: “E se eu morrer amanhã?”, arrisquei. Ela, sorrindo irônica, respondeu “Se morrer amanhã, morre reprovada em biologia”. Gente, que retórica. Acho que esse foi o único caso em que a raiva falou mais alto e eu usei a ideia da minha morte com o objetivo único de causar mal estar, e acabou não dando certo. Mas e se eu tivesse batido as botas, imagina o peso na consciência de dona Marília?

Ao fim das contas, eu acho que gosto é de gerar essa tensão. Criar esse “Será?”, esse “Nossa, tomara que não” que eu imagino cada uma dessas pessoas digerindo ao se despedir de mim. Só espero que, depois de eu fazer a minha passagem definitiva, muita gente pense “Bem que ela avisou” ou “Ela estava estranha mesmo na última vez em que falamos”. Espero expressões de confusão. Não sei se isso é bom ou ruim, mas espero que o leitor não se importe. Um dia eu vou morrer.

Aliás, vai saber?, eu posso inclusive já estar morta no momento em que você lê esse texto.

 

texto e colagem por Rômulo Candal.

fotos de RealMattKane, stevenbates e Hombit.

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Chegada 0 1275

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai

Vida comum parte 1 0 796

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.