Nos conformes 0 83

Ester queria porque queria uma azinheira nos fundos da chácara. Contava com a devoção por Fátima como arma, mas também fazia sua parte de insistir com Vilson. “Cê tá duro que é um tijolo. Vai ficar lindinha, mandamo trazer grande já”. E se ele queria plátanos para o caminho entre a casa e o bosque, que desse jeito de conseguir também uma cópia fiel da sombra dos pastorinhos. Quem faz um truque faz dois, ué. Ela terminou um chá de boldo, deitou a caneca na grama e livrou as mãos para apontar pontos virgens no terreno em defesa de sua árvore, tapando com o chapéu a vista para o reflexo de sol no lago. A ventilação, mais humanitária que a que enfrentaram na missa, estimulava a troca de ideias, mas Vilson estava em outra, com um olho na mulher e o outro numa condecoração de trabalho. Polia a placa escura de metal, as letras douradas e a pedra lilás como se fossem medalhas, revezando cotonetes entre os dedos, levantando os óculos que recorriam em cair pelo nariz. Queria se exibir para as filhas e netas que os visitariam em algumas horas, dividir novidades, falar de suas vitórias para alguém além dos cachorros de todo dia.

As convidadas começaram a chegar às dez e meia e foram recebidas por Galvão Bueno e sua trupe, GP da Rússia de Fórmula 1 na tv: vinte profissionais do perigo descendo pé nos aceleradores, correndo mais que notícia ruim, ao vivo da Pátria Mãe para o mundo. A reunião familiar prometia mais solenidade e menos barulho que aquilo, marchas mais lentas e menos animosidade.

Eliane, primogênita, levou a maionese que roubou horas de seu dia anterior e a filha Beatriz, dezoito anos, malabarista de tupperwares e de panelas, preparou uma farofa magra e um creme brulée de sobremesa. Sônia, a do meio, chegou com as filhas Valentina e Alice, desde casa desoladas com a falta de wi fi por algumas horas, cheias de assuntos virtuais que só tratariam depois das lições de casa, sofredoras de suas primeiras abstinências. Janete, a caçula, chegou sedenta de caipirinha e mostrou serviço assumindo o fogo. Temperou a alcatra, cortou pepino em rodelas, quebrou folhas de alface e acendeu a churrasqueira. Queimou um pedacinho da camiseta ao aproximar demais o corpo do buraco na parede, mas se recompôs para continuar o trabalho sem interrupções, tomando cerveja como quem só vê chance de satisfação com a próxima. O carvão estalava, pedia mais. Linguiça, pão de alho e carne dividindo harmoniosamente a grelha, uma moldura de aço inox ideal para o domingo. Richard II, o golden retriever, ao lado, deitado sobre as patas dianteiras e esperando pela benevolência de seus donos, faminto do que quer que fosse desde que não fosse ração mais uma vez. Laffayette, o outro cachorro da casa, um cocker spaniel preto, nadava no laguinho.

O pai cruzou garfo e faca no prato e saiu. Largou um “deixa a louça comigo” nada convicto, já sentado na varanda, com as mãos na barriga. Juntou alpiste e aveia e jogou a mistura em cima do muro que separava sua propriedade da rua.  A calopsita Rosário se aproximou devagar, com as asas em v, sendo acompanhada pelas rolinhas da região. Os pássaros saciaram o desejo do velho de ver um esbalde, ele cheio da graça de um bom anfitrião, alegre em promover o banquete. Eliane se aproximou com um aparelho de pressão em mãos e esperou o pai oferecer o braço esquerdo. “Ninguém é de ferro, pode vir medir sem chororô”. Ele ergueu a manga da camisa de olho nas abóboras e repolhos que nasciam num canto, querendo envolver-se para sempre no amparo daquela mulher que já tinha sido bebê em seus braços. “12 por 8, cara, se livrou da dieta que eu ia sugerir, pode comemorar”. “Então traz meu copinho e aquela garrafa de Seleta de cima da geladeira, por favor”.

“A Era do Gelo 4” freou todo gasto de energia. Nem as crianças aguentaram. Hora de dormir. A tropa só acordou no segundo gol de Ponte Preta x Corinthians, pela final do Paulistão.

Ester pôs água para ferver e caçou o controle remoto para abaixar o volume. Arrumou o coador na garrafa, juntou pó de café, açúcar e adoçante em cima do balcão. Ouviu um guincho – terror sobre patas – um rato na porta. Valentina e Alice viram a mesma coisa e não quiseram ignorar o monstro – subiram no sofá gritando abraçadas, num misto de pavor e excitação. A senhora se armou de uma vassoura e expulsou a ameaça, o roedor que voltasse para o mato de onde saiu, que sumisse em nome da paz, ali não tinha nada para ele. As netas, reverentes, ainda viram a vovó heroína ajeitar a barra do vestido antes de voltar para o café com seu sorriso largo e vaidoso.

Laffayette, sujo de cavar no gramado, pulava e rodopiava na sala. Ainda não sabia, mas estava em preparação avançada para ser o novo detentor exclusivo dos carinhos da casa. Sônia levantou exalando desgraça, e o bicho fez cara de que entendia tudo. “O Richard II já tá com 13 anos e tá pra ir pra fita. Nessa idade, golden retriever não dura muito. Se passar desse Natal, não vai até o próximo, é articulação, é o veneno que ele tomou esses dias, é uma porrada de coisas”. As crianças abaixaram os olhos em silêncio, virgens de período de luto. Vilson não fazia média e respondeu a filha. “Sempre fui mais de mato que de bicho. E eu ainda vou pegar o safado que jogou chumbinho pra esse coisa, tô pra colocar câmeras na propriedade, o rapaz vem nessa semana mesmo, vocês que me esperem pra ver”.

Faustão parecia se divertir com alguém que caiu de bunda no chão. Vilson ainda enterrado no sofá, sem coragem de levantar nem para ir ao banheiro. Ester firme, recomposta pelo café e com uma bula de remédio na mão, trombou com a placa de homenagem do marido e pendurou no lugar certo, num quadro de madeira que tinha mandado instalar havia dias na parede da sala. A honraria ornava com o lugar. O circo se preparando para ir embora, os velhos loucos para esquentar água e, nela, misturar hortelã e alecrim para um escalda pés ao som dos grilos. Mas Ester nunca desistiu, e não estava disposta a começar. “Se você não quer trazer minha azinheira por bem, que seja pelo menos pra eu me esconder dessas porcarias de câmeras que cê quer colocar na chácara, homem. Toma jeito, rapaz”.

 

 

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Marco Antonio Santos

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maculada 0 203

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”