Nos conformes 0 119

Ester queria porque queria uma azinheira nos fundos da chácara. Contava com a devoção por Fátima como arma, mas também fazia sua parte de insistir com Vilson. “Cê tá duro que é um tijolo. Vai ficar lindinha, mandamo trazer grande já”. E se ele queria plátanos para o caminho entre a casa e o bosque, que desse jeito de conseguir também uma cópia fiel da sombra dos pastorinhos. Quem faz um truque faz dois, ué. Ela terminou um chá de boldo, deitou a caneca na grama e livrou as mãos para apontar pontos virgens no terreno em defesa de sua árvore, tapando com o chapéu a vista para o reflexo de sol no lago. A ventilação, mais humanitária que a que enfrentaram na missa, estimulava a troca de ideias, mas Vilson estava em outra, com um olho na mulher e o outro numa condecoração de trabalho. Polia a placa escura de metal, as letras douradas e a pedra lilás como se fossem medalhas, revezando cotonetes entre os dedos, levantando os óculos que recorriam em cair pelo nariz. Queria se exibir para as filhas e netas que os visitariam em algumas horas, dividir novidades, falar de suas vitórias para alguém além dos cachorros de todo dia.

As convidadas começaram a chegar às dez e meia e foram recebidas por Galvão Bueno e sua trupe, GP da Rússia de Fórmula 1 na tv: vinte profissionais do perigo descendo pé nos aceleradores, correndo mais que notícia ruim, ao vivo da Pátria Mãe para o mundo. A reunião familiar prometia mais solenidade e menos barulho que aquilo, marchas mais lentas e menos animosidade.

Eliane, primogênita, levou a maionese que roubou horas de seu dia anterior e a filha Beatriz, dezoito anos, malabarista de tupperwares e de panelas, preparou uma farofa magra e um creme brulée de sobremesa. Sônia, a do meio, chegou com as filhas Valentina e Alice, desde casa desoladas com a falta de wi fi por algumas horas, cheias de assuntos virtuais que só tratariam depois das lições de casa, sofredoras de suas primeiras abstinências. Janete, a caçula, chegou sedenta de caipirinha e mostrou serviço assumindo o fogo. Temperou a alcatra, cortou pepino em rodelas, quebrou folhas de alface e acendeu a churrasqueira. Queimou um pedacinho da camiseta ao aproximar demais o corpo do buraco na parede, mas se recompôs para continuar o trabalho sem interrupções, tomando cerveja como quem só vê chance de satisfação com a próxima. O carvão estalava, pedia mais. Linguiça, pão de alho e carne dividindo harmoniosamente a grelha, uma moldura de aço inox ideal para o domingo. Richard II, o golden retriever, ao lado, deitado sobre as patas dianteiras e esperando pela benevolência de seus donos, faminto do que quer que fosse desde que não fosse ração mais uma vez. Laffayette, o outro cachorro da casa, um cocker spaniel preto, nadava no laguinho.

O pai cruzou garfo e faca no prato e saiu. Largou um “deixa a louça comigo” nada convicto, já sentado na varanda, com as mãos na barriga. Juntou alpiste e aveia e jogou a mistura em cima do muro que separava sua propriedade da rua.  A calopsita Rosário se aproximou devagar, com as asas em v, sendo acompanhada pelas rolinhas da região. Os pássaros saciaram o desejo do velho de ver um esbalde, ele cheio da graça de um bom anfitrião, alegre em promover o banquete. Eliane se aproximou com um aparelho de pressão em mãos e esperou o pai oferecer o braço esquerdo. “Ninguém é de ferro, pode vir medir sem chororô”. Ele ergueu a manga da camisa de olho nas abóboras e repolhos que nasciam num canto, querendo envolver-se para sempre no amparo daquela mulher que já tinha sido bebê em seus braços. “12 por 8, cara, se livrou da dieta que eu ia sugerir, pode comemorar”. “Então traz meu copinho e aquela garrafa de Seleta de cima da geladeira, por favor”.

“A Era do Gelo 4” freou todo gasto de energia. Nem as crianças aguentaram. Hora de dormir. A tropa só acordou no segundo gol de Ponte Preta x Corinthians, pela final do Paulistão.

Ester pôs água para ferver e caçou o controle remoto para abaixar o volume. Arrumou o coador na garrafa, juntou pó de café, açúcar e adoçante em cima do balcão. Ouviu um guincho – terror sobre patas – um rato na porta. Valentina e Alice viram a mesma coisa e não quiseram ignorar o monstro – subiram no sofá gritando abraçadas, num misto de pavor e excitação. A senhora se armou de uma vassoura e expulsou a ameaça, o roedor que voltasse para o mato de onde saiu, que sumisse em nome da paz, ali não tinha nada para ele. As netas, reverentes, ainda viram a vovó heroína ajeitar a barra do vestido antes de voltar para o café com seu sorriso largo e vaidoso.

Laffayette, sujo de cavar no gramado, pulava e rodopiava na sala. Ainda não sabia, mas estava em preparação avançada para ser o novo detentor exclusivo dos carinhos da casa. Sônia levantou exalando desgraça, e o bicho fez cara de que entendia tudo. “O Richard II já tá com 13 anos e tá pra ir pra fita. Nessa idade, golden retriever não dura muito. Se passar desse Natal, não vai até o próximo, é articulação, é o veneno que ele tomou esses dias, é uma porrada de coisas”. As crianças abaixaram os olhos em silêncio, virgens de período de luto. Vilson não fazia média e respondeu a filha. “Sempre fui mais de mato que de bicho. E eu ainda vou pegar o safado que jogou chumbinho pra esse coisa, tô pra colocar câmeras na propriedade, o rapaz vem nessa semana mesmo, vocês que me esperem pra ver”.

Faustão parecia se divertir com alguém que caiu de bunda no chão. Vilson ainda enterrado no sofá, sem coragem de levantar nem para ir ao banheiro. Ester firme, recomposta pelo café e com uma bula de remédio na mão, trombou com a placa de homenagem do marido e pendurou no lugar certo, num quadro de madeira que tinha mandado instalar havia dias na parede da sala. A honraria ornava com o lugar. O circo se preparando para ir embora, os velhos loucos para esquentar água e, nela, misturar hortelã e alecrim para um escalda pés ao som dos grilos. Mas Ester nunca desistiu, e não estava disposta a começar. “Se você não quer trazer minha azinheira por bem, que seja pelo menos pra eu me esconder dessas porcarias de câmeras que cê quer colocar na chácara, homem. Toma jeito, rapaz”.

 

 

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Marco Antonio Santos

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Dai-me Amor 0 113

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 221

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.