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Há uma plataforma que balança. Ela fica na entrada para o mar, perto do Porto do Carvão. Ali, antigamente, ancoravam navios de carga. Porém, com o passar do tempo, o pequeno porto e sua longa plataforma flutuante se tornaram um ponto turístico. Agora, só chegam e saem os barcos de luxo com grandes restaurantes e bares a bordo. Seguem um roteiro de classe pela baia.

Há uma porção de pessoas que paga caro para ocupar esses barcos. Nas festas no convés elas têm a falsa impressão de que é a cidade quem muda de lugar. Divertem-se em uma noite de fim de semana. Lugar seguro e grandioso.

É calmo quando começa a anoitecer. Nessa época do ano a noite sempre demora mais para chegar. Tudo fica iluminado até tarde. Prédios, colinas ocupadas, cortadas por ruas largas. O oceano faz parte do cenário, não é um simples figurante.

A plataforma do velho porto tem as duas extremidades ligadas à terra, mas o meio flutua com as ondas. Os hidroaviões pousam perto dela quando descem na água. A plataforma oferece a mesma vista que se tem a partir dos barcos. Quando se está dentro de um, o mundo parece seguir em trânsito e na plataforma tudo se move.

Os prédios na margem oposta possuem superfícies envidraçadas, do alto a baixo. Eles também balançam. Há uma redação de jornal no topo de um deles e lá de cima os funcionários observam tudo que se move lá embaixo.

Há um posto de combustíveis suspenso na água. Ele flutua e balança quando alguns barcos ou aviões passam bem perto. Há também as boias laranjadas que demarcam os locais perigosos. Quase somem na noite, camufladas pela escuridão do oceano radioativo. Existem peixes de três olhos que nadam ali. Nunca coma peixes do oceano, não do Pacífico Norte pelo menos.

De cima da plataforma, um homem velho pesca todas as noites. Ele veio da China e mora na cidade há alguns anos. Usa instrumentos estranhos para aprisionar os peixes mutantes. São gaiolas de ferro ligadas a correntes de elos finos. Ele as gira no ar antes de atirá-las na água. As gaiolas descem para as profundezas e da superfície se ouve o momento em que fecham lá embaixo. Estalam e o velho chinês as puxa de volta, mas não há nenhum peixe. O velho não desiste, às vezes consegue algum.

Muitos usam a plataforma. Alguns fazem sexo com ela, ali mesmo, enquanto outros a levam para casa e a penetram no conforto de suas camas. Dormem com ela sentindo o cheiro de peixe, de mar contaminado, de combustível de avião, de tinta em papel jornal.

O chinês vive em Chinatown. Anda vinte e duas quadras para chegar e na volta erra sempre a mesma esquina. Um avião pousa e balança a plataforma uma última vez antes da noite aprisionar tudo que se move, como gaiolas para peixes de três olhos.

 

Jadson André

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Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”