A culpa foi daquele beijo 0 105

Beijar meninas foi o segredo do ensino médio. Ficar com as amigas era uma opção discreta quando se queria uns amassos sem cair na falácia masculina. Mas os tempos de faculdade eram diferentes, ter relacionamentos com o sexo oposto não a deixava mais envergonhada, ruborizada, calada. Conseguia não só conversar, como também descobriu o poder que os olhos têm em deixar transparecer o desejo, a carência e as vontades.

“Ele beijava como uma menina”, pensou ela. Mexia seus lábios com falta de pressa, fazendo com que a sensação macia do seu beijo fosse maior. A situação exigia rapidez, mas o ato era vagaroso.

Viu o desejo estampado no negro dos olhos verdes de Tadeu e estremeceu. Ela continuou encarando, ingenuamente vidrada naqueles olhos que cada vez se aproximavam mais. Agora eram colegas de estágio e o encontro na escadaria de emergência do prédio coincidiu naquele beijo. Se fossem pegos, seria constrangedor. O estágio exigia uma postura profissional, mas aquele momento nas escadas os fizera esquecer disso. A partir daí, faziam tudo juntos.

Amava tudo nele, o cabelo cacheado, seu gosto artístico, seus assuntos, seu gosto musical, seus livros, suas ideias, sua rotina, seus planos, seus princípios, sua rebeldia, sua indecisão, sua melancolia. Jogou-se de cabeça. Quatro anos depois estavam morando juntos. E moraram juntos por mais três anos quando as brigas começaram. Com o tempo os assuntos pareciam ser sempre os mesmos, os planos sempre mudavam, seu gosto artístico resumia-se a vida boêmia, e seu cabelo cacheado? Ele havia vendido para investir em mais uma ideia sem sucesso. As brigas eram sempre sobre ela estar fazendo demais a ponto de querer desistir, contra o argumento que ele precisava de mais espaço.

Diferente das outras noites, naquela, os travesseiros eram novos. A casa parecia vazia demais. Já era julho, o que significava que ela já não o via há seis meses. O limite entre sentir saudade e a loucura já havia sido ultrapassado. Naqueles seis últimos meses ouviu todas as músicas que ele havia lhe mostrado, releu todos os livros que ele lhe havia indicado, revisitou os lugares que eles haviam passado, então se deu conta de cada canto da cidade a lembrava dele.

Trocou os travesseiros porque sonhou tantas vezes com ele nos últimos meses que talvez a troca de travesseiros embalasse novos sonhos. Colocava toda a culpa da separação, nos sete anos de convivência e no fato dele ser libriano. Tinha dúvidas se em algum momento ele realmente a tinha amado. Às vezes, tarde da noite, já muito alcoolizada, fumava e tinha a sensação que ele a amava e que toda vez que fizesse isso, teria a sensação de ter ele por perto. Isso foi seu escape nos três primeiros meses, nos outros três enjoou de tudo isso na intenção se enjoar dele também, inutilmente. Na manhã seguinte, encarou o envelope que havia chegado pelo correio. Ele queria o divórcio, ela recordava-se do encontro nas escadarias.

Texto e imagem: Caroline Rehbein

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O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”

Matemática básica 0 245

Me beije agora antes de ir embora. Aqui nessa terra, onde as mulheres brilham e os homens roubam, vai ser difícil ficar longe de você. Mas eu aguento. Tenho um cabelo da hora e sou cheio de boas intenções. Não tenho medo. Posso dirigir minha Kombi vermelha e branca e também viajar por muitos quilômetros se quiser.

O início do inverno é sempre meio dolorido. Mas eu paro e lembro das tardes tristes de verão. Um sentimento negativo anula outro positivo e vice-versa. Matemática básica. Por isso, quando você fizer suas malas e pegar aquele avião pra bem longe, vou refazer os cálculos, não será fácil, trabalho duro, mas no fim a fórmula é simples: um sentimento anula o outro.

Não sou eu quem está dizendo. Antes que você venha com aquele papo de: dá onde tu tirou essa ideia de merda?! Quem desenvolveu essa fórmula foi o próprio Einstein quando desvendou o movimento Browniano. Parece mirabolante, mas a força do princípio reside na simplicidade.

Agora, esquece essa conversa mole. Antes de você ir embora, eu merecia aquele beijo.

Jadson André