Fila 0 171

Jonathan viu os velhos rearranjando cadeiras para não desagrupar no almoço e escolheu o caminho da confusão. O menino passou a expirar forte enquanto o grupo se arrastava, o coração pesando no peito, mas aguentou em seu canto, costas na parede, refri no copo. Tinha recebido outros golpes mais cedo: a gargalhada do professor de matemática ao deixá-lo de recuperação, o subsequente desmascaramento na frente da turma e, ai meu Deus, de Lúcia, com quem sonhava namorar, casar e ter filhos – se tudo saísse como queria. O mestre disse que a nota chegou a quatro e meio porque tolerou um trabalhinho mais ou menos para dar uma moral. A exposição incomodou tanto quanto incomodavam as feras que, mais selvagens que qualquer ideia de qualquer um dos Bháskara, lembravam a todos de suas presenças a cada pedido gritado de porção ou bebida.

O garoto queria evitar que outros vermes insolentes lhe enchessem a paciência, que quaisquer moscas passassem ilesas do descuido de pousar em sua roupa, na torcida sincera para nenhum rato cruzar seu horizonte. Começou a retorcer o rosto.

Mãe, cê tem antiácido?

Não, meu filho. Por quê?, tá mal?

A comida não desceu bem, essa lasanha sem vergonha, esse bifinho xoxo, esse arroz raspado de fundo de panela. Peguei coisa demais. Tem nada, nada aí?

Tem água, quer?

Os técnicos do ar-condicionado desligaram o sistema para fazer testes e sentaram para comer, já que a refeição era parte do pagamento. O ventilador fraco, insuficiente para a demanda e mambembe em seu eixo no teto, e o quilo a mais de quarenta e cinco reais completavam o cenário macabro.

Os velhos começaram a levantar para ir embora sem ter feito prisioneiros, satisfeitos como abutres, uns amparando os outros, todos bêbados de batida de maracujá. A mãe e o filho aceitaram a derrota e entraram na fila de pagar em sétimo, cientes de que a paciência os ajudaria a vencer o inconveniente do desperdício de tempo – se tudo saísse como queriam. O garoto começou a fechar e abrir as mãos dentro dos bolsos, doido para socar alguém até se machucar, com o aquecimento acobertado pelo tecido grosso. Observava os rivais de butuca, prevendo alguma sacanagem desde que o garçom tentou acertar a conta deles direto na mesa – um benefício exclusivo para amigos da casa. Para os dois o tratamento foi outro: o funcionário sacou a calculadora do bolso sem emoção, riscou mais alguma coisinha no papel, soltou a bomba e saiu, limpando os óculos na camisa. Já para a corte o súdito pediu desculpas, considerava uma infelicidade não poder cuidar deles nas melhores condições.

É que a maquininha ficou fora da tomada a manhã inteira, é que aqui das onze e meia às três é essa loucura mesmo, a fila é porque o novato do caixa ainda não tá no jeito para o serviço.

Mãe, e esse papo de 10%? Não dou nenhum centavo, é opcional. Eles que deviam pagar a gente.

O desconforto amassava os órgãos do menino, o que piorou quando o líder dos velhos, um de jaqueta Nederland, avançou pela esquerda fazendo vento, nervoso que nem ladrão em carro furtado. A linha amarela no chão não tinha valor para o Nederland, que não gostava de seguir, preferia ser seguido; fazia chover e secar depois; mandava morrer e viver de novo; orientava o sol e a lua de sua bolha de superioridade, amparado por uma autoimagem generosa; enfim, não era um homem acostumado a ser impedido de fazer o que quisesse.

A mãe sacudiu os ombros do filho, ansiosa com sua ansiedade, e lhe estapeou a gola da jaqueta repetidamente, indicando os velhos com a cabeça. O Nederland largou a chave do carro em cima do balcão e já sacou celular e carteira. O novato do caixa considerou as possíveis mediações para o conflito que se desdobrou à sua frente. A pouca experiência soprou uma resposta ao seu instinto incipiente: de polegar amassado contra indicador, piscou para a cliente da vez, pedindo uma anuência tão opcional quanto a colaboração para o caixinha dos empregados, e voltou-se inteiro ao, vai que era, amigo dos patrões.

Jonathan gostou de ver que o Usain Bolt possível era do seu tamanho e, assim, passou a odiar tudo que via nele: o rosto de traços harmoniosos, a cútis bem hidratada, o olhar de sono, a jaqueta mais cara que a sua, o bigode delineado em alguma barbearia chique, o topete, a chave do carro, o carro que ele tivesse estacionado lá fora, os amigos, o celular de tela grande, os óculos escuros pendurados num passante das calças skinny pretas.

Ô, campeão.

Pode ser no débito, querido.

O cara esticou o cartão ao novato, naturalizando o desrespeito, preparado para continuar invicto na vida. O pessoal se comoveu, começou a se olhar de lado. Então uma janela de afeto se abriu, um mar de possibilidades amorosas: Lúcia surgiu lá na frente da fila, escondida entre os ombros dos pais e irmãos, linda como desde o começo do ano passado, tímida como sempre. Jonathan aproveitou a brisa boa para se inflar ainda mais: se não tinha fé de que algum dia conseguiria impressionar a menina com boas notas, com extraordinárias habilidades atléticas, com os segredos da boa convivência na escola e nem com, ué, algum charme pessoal, que fosse na base da porrada. Era hora de começar a criar a história que contariam aos netos e a todo jovem que se dispusesse a ouvi-los quando os velhos do mundo fossem eles, quando tivessem bodas de ouro para comemorar, quando escolhessem juntos algum plano funerário para a família, quando partilhassem a mesa em algum churrasco de domingo, a cada faxina que fizessem quando morassem sob o mesmo teto. Ela arregalou os olhos, surpresa com a irritação do colega e com seu timbre porque, se bem lembrava, nem conhecia sua voz.

Eu tô falando com você, jaquetinha.

A mãe segurou o filho pelos dois braços, mas ele recuou num passo e ajustou as pernas em base de luta, levantando as mangas e ajeitando o penteado.

Respeita sua mãe, Jonathan, volta aqui.

O Nederland virou o rosto e emprestou metade da atenção ao agito.

Baixa bem a bolinha, moleque, ouve tua mãe.

Os velhos embarreiraram o menino, contendo a animosidade, e pediram a Nederland para que voltasse ao lugar que lhe pertencia, não tinha problema pegar fila, ninguém precisava atrapalhar ninguém, ninguém precisava brigar com nenhuma criança em nenhum restaurante.

É, faixa-preta: volta pra eu não limpar esse chão com sua cara.

Cê quer confusão?

E se eu quiser? – empurrando o velho que estava mais perto, fazendo-o tropeçar nas barras das próprias calças.

Dois outros velhos cobraram o que sentiam ter a receber e empurraram Jonathan de volta, em vingança. Outros clientes separaram a briga secundária e reagruparam ao redor do menino, meio por interesse na baderna principal, meio para fazer coro ao pedido de que a ordem de pagamento fosse respeitada, todo mundo tinha a mesma pressa. Mas agora o Nederland não queria saber de pagar ou não, queria resolver um problema pessoal.

Então vamo lá fora, piazinho.

Até melhor pra massagear teu cérebro com teu narizinho, bonitão. Cê só foge desse atraso se tiver uma UZI no porta-malas. Cê já tomou facada, infeliz?

Os velhos imploraram para Nederland sair, ele que entrasse no carro e voltasse ao escritório, mais tarde conversavam, que deixasse a conta para os remanescentes, eles dividiriam numa boa. Ele acatou e andou para fora apontando os olhos do menino com indicador e dedo médio, de braço reto, queixo recolhido ao peito. Jonathan, enclausurado por desconhecidos, inspirava e expirava, cada vez menos interessado em briga, cada vez mais atento aos sinais de sua musa, tão perto e ainda tão longe de seus carinhos.

 

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Marco Antonio Santos

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maculada 0 203

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”