Texto de em 18 de julho de 2017 . Nenhum comentário.

Jonathan viu os velhos rearranjando cadeiras para não desagrupar no almoço e escolheu o caminho da confusão. O menino passou a expirar forte enquanto o grupo se arrastava, o coração pesando no peito, mas aguentou em seu canto, costas na parede, refri no copo. Tinha recebido outros golpes mais cedo: a gargalhada do professor de matemática ao deixá-lo de recuperação, o subsequente desmascaramento na frente da turma e, ai meu Deus, de Lúcia, com quem sonhava namorar, casar e ter filhos – se tudo saísse como queria. O mestre disse que a nota chegou a quatro e meio porque tolerou um trabalhinho mais ou menos para dar uma moral. A exposição incomodou tanto quanto incomodavam as feras que, mais selvagens que qualquer ideia de qualquer um dos Bháskara, lembravam a todos de suas presenças a cada pedido gritado de porção ou bebida.

O garoto queria evitar que outros vermes insolentes lhe enchessem a paciência, que quaisquer moscas passassem ilesas do descuido de pousar em sua roupa, na torcida sincera para nenhum rato cruzar seu horizonte. Começou a retorcer o rosto.

Mãe, cê tem antiácido?

Não, meu filho. Por quê?, tá mal?

A comida não desceu bem, essa lasanha sem vergonha, esse bifinho xoxo, esse arroz raspado de fundo de panela. Peguei coisa demais. Tem nada, nada aí?

Tem água, quer?

Os técnicos do ar-condicionado desligaram o sistema para fazer testes e sentaram para comer, já que a refeição era parte do pagamento. O ventilador fraco, insuficiente para a demanda e mambembe em seu eixo no teto, e o quilo a mais de quarenta e cinco reais completavam o cenário macabro.

Os velhos começaram a levantar para ir embora sem ter feito prisioneiros, satisfeitos como abutres, uns amparando os outros, todos bêbados de batida de maracujá. A mãe e o filho aceitaram a derrota e entraram na fila de pagar em sétimo, cientes de que a paciência os ajudaria a vencer o inconveniente do desperdício de tempo – se tudo saísse como queriam. O garoto começou a fechar e abrir as mãos dentro dos bolsos, doido para socar alguém até se machucar, com o aquecimento acobertado pelo tecido grosso. Observava os rivais de butuca, prevendo alguma sacanagem desde que o garçom tentou acertar a conta deles direto na mesa – um benefício exclusivo para amigos da casa. Para os dois o tratamento foi outro: o funcionário sacou a calculadora do bolso sem emoção, riscou mais alguma coisinha no papel, soltou a bomba e saiu, limpando os óculos na camisa. Já para a corte o súdito pediu desculpas, considerava uma infelicidade não poder cuidar deles nas melhores condições.

É que a maquininha ficou fora da tomada a manhã inteira, é que aqui das onze e meia às três é essa loucura mesmo, a fila é porque o novato do caixa ainda não tá no jeito para o serviço.

Mãe, e esse papo de 10%? Não dou nenhum centavo, é opcional. Eles que deviam pagar a gente.

O desconforto amassava os órgãos do menino, o que piorou quando o líder dos velhos, um de jaqueta Nederland, avançou pela esquerda fazendo vento, nervoso que nem ladrão em carro furtado. A linha amarela no chão não tinha valor para o Nederland, que não gostava de seguir, preferia ser seguido; fazia chover e secar depois; mandava morrer e viver de novo; orientava o sol e a lua de sua bolha de superioridade, amparado por uma autoimagem generosa; enfim, não era um homem acostumado a ser impedido de fazer o que quisesse.

A mãe sacudiu os ombros do filho, ansiosa com sua ansiedade, e lhe estapeou a gola da jaqueta repetidamente, indicando os velhos com a cabeça. O Nederland largou a chave do carro em cima do balcão e já sacou celular e carteira. O novato do caixa considerou as possíveis mediações para o conflito que se desdobrou à sua frente. A pouca experiência soprou uma resposta ao seu instinto incipiente: de polegar amassado contra indicador, piscou para a cliente da vez, pedindo uma anuência tão opcional quanto a colaboração para o caixinha dos empregados, e voltou-se inteiro ao, vai que era, amigo dos patrões.

Jonathan gostou de ver que o Usain Bolt possível era do seu tamanho e, assim, passou a odiar tudo que via nele: o rosto de traços harmoniosos, a cútis bem hidratada, o olhar de sono, a jaqueta mais cara que a sua, o bigode delineado em alguma barbearia chique, o topete, a chave do carro, o carro que ele tivesse estacionado lá fora, os amigos, o celular de tela grande, os óculos escuros pendurados num passante das calças skinny pretas.

Ô, campeão.

Pode ser no débito, querido.

O cara esticou o cartão ao novato, naturalizando o desrespeito, preparado para continuar invicto na vida. O pessoal se comoveu, começou a se olhar de lado. Então uma janela de afeto se abriu, um mar de possibilidades amorosas: Lúcia surgiu lá na frente da fila, escondida entre os ombros dos pais e irmãos, linda como desde o começo do ano passado, tímida como sempre. Jonathan aproveitou a brisa boa para se inflar ainda mais: se não tinha fé de que algum dia conseguiria impressionar a menina com boas notas, com extraordinárias habilidades atléticas, com os segredos da boa convivência na escola e nem com, ué, algum charme pessoal, que fosse na base da porrada. Era hora de começar a criar a história que contariam aos netos e a todo jovem que se dispusesse a ouvi-los quando os velhos do mundo fossem eles, quando tivessem bodas de ouro para comemorar, quando escolhessem juntos algum plano funerário para a família, quando partilhassem a mesa em algum churrasco de domingo, a cada faxina que fizessem quando morassem sob o mesmo teto. Ela arregalou os olhos, surpresa com a irritação do colega e com seu timbre porque, se bem lembrava, nem conhecia sua voz.

Eu tô falando com você, jaquetinha.

A mãe segurou o filho pelos dois braços, mas ele recuou num passo e ajustou as pernas em base de luta, levantando as mangas e ajeitando o penteado.

Respeita sua mãe, Jonathan, volta aqui.

O Nederland virou o rosto e emprestou metade da atenção ao agito.

Baixa bem a bolinha, moleque, ouve tua mãe.

Os velhos embarreiraram o menino, contendo a animosidade, e pediram a Nederland para que voltasse ao lugar que lhe pertencia, não tinha problema pegar fila, ninguém precisava atrapalhar ninguém, ninguém precisava brigar com nenhuma criança em nenhum restaurante.

É, faixa-preta: volta pra eu não limpar esse chão com sua cara.

Cê quer confusão?

E se eu quiser? – empurrando o velho que estava mais perto, fazendo-o tropeçar nas barras das próprias calças.

Dois outros velhos cobraram o que sentiam ter a receber e empurraram Jonathan de volta, em vingança. Outros clientes separaram a briga secundária e reagruparam ao redor do menino, meio por interesse na baderna principal, meio para fazer coro ao pedido de que a ordem de pagamento fosse respeitada, todo mundo tinha a mesma pressa. Mas agora o Nederland não queria saber de pagar ou não, queria resolver um problema pessoal.

Então vamo lá fora, piazinho.

Até melhor pra massagear teu cérebro com teu narizinho, bonitão. Cê só foge desse atraso se tiver uma UZI no porta-malas. Cê já tomou facada, infeliz?

Os velhos imploraram para Nederland sair, ele que entrasse no carro e voltasse ao escritório, mais tarde conversavam, que deixasse a conta para os remanescentes, eles dividiriam numa boa. Ele acatou e andou para fora apontando os olhos do menino com indicador e dedo médio, de braço reto, queixo recolhido ao peito. Jonathan, enclausurado por desconhecidos, inspirava e expirava, cada vez menos interessado em briga, cada vez mais atento aos sinais de sua musa, tão perto e ainda tão longe de seus carinhos.

 

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Marco Antonio Santos