Fila 0 221

Jonathan viu os velhos rearranjando cadeiras para não desagrupar no almoço e escolheu o caminho da confusão. O menino passou a expirar forte enquanto o grupo se arrastava, o coração pesando no peito, mas aguentou em seu canto, costas na parede, refri no copo. Tinha recebido outros golpes mais cedo: a gargalhada do professor de matemática ao deixá-lo de recuperação, o subsequente desmascaramento na frente da turma e, ai meu Deus, de Lúcia, com quem sonhava namorar, casar e ter filhos – se tudo saísse como queria. O mestre disse que a nota chegou a quatro e meio porque tolerou um trabalhinho mais ou menos para dar uma moral. A exposição incomodou tanto quanto incomodavam as feras que, mais selvagens que qualquer ideia de qualquer um dos Bháskara, lembravam a todos de suas presenças a cada pedido gritado de porção ou bebida.

O garoto queria evitar que outros vermes insolentes lhe enchessem a paciência, que quaisquer moscas passassem ilesas do descuido de pousar em sua roupa, na torcida sincera para nenhum rato cruzar seu horizonte. Começou a retorcer o rosto.

Mãe, cê tem antiácido?

Não, meu filho. Por quê?, tá mal?

A comida não desceu bem, essa lasanha sem vergonha, esse bifinho xoxo, esse arroz raspado de fundo de panela. Peguei coisa demais. Tem nada, nada aí?

Tem água, quer?

Os técnicos do ar-condicionado desligaram o sistema para fazer testes e sentaram para comer, já que a refeição era parte do pagamento. O ventilador fraco, insuficiente para a demanda e mambembe em seu eixo no teto, e o quilo a mais de quarenta e cinco reais completavam o cenário macabro.

Os velhos começaram a levantar para ir embora sem ter feito prisioneiros, satisfeitos como abutres, uns amparando os outros, todos bêbados de batida de maracujá. A mãe e o filho aceitaram a derrota e entraram na fila de pagar em sétimo, cientes de que a paciência os ajudaria a vencer o inconveniente do desperdício de tempo – se tudo saísse como queriam. O garoto começou a fechar e abrir as mãos dentro dos bolsos, doido para socar alguém até se machucar, com o aquecimento acobertado pelo tecido grosso. Observava os rivais de butuca, prevendo alguma sacanagem desde que o garçom tentou acertar a conta deles direto na mesa – um benefício exclusivo para amigos da casa. Para os dois o tratamento foi outro: o funcionário sacou a calculadora do bolso sem emoção, riscou mais alguma coisinha no papel, soltou a bomba e saiu, limpando os óculos na camisa. Já para a corte o súdito pediu desculpas, considerava uma infelicidade não poder cuidar deles nas melhores condições.

É que a maquininha ficou fora da tomada a manhã inteira, é que aqui das onze e meia às três é essa loucura mesmo, a fila é porque o novato do caixa ainda não tá no jeito para o serviço.

Mãe, e esse papo de 10%? Não dou nenhum centavo, é opcional. Eles que deviam pagar a gente.

O desconforto amassava os órgãos do menino, o que piorou quando o líder dos velhos, um de jaqueta Nederland, avançou pela esquerda fazendo vento, nervoso que nem ladrão em carro furtado. A linha amarela no chão não tinha valor para o Nederland, que não gostava de seguir, preferia ser seguido; fazia chover e secar depois; mandava morrer e viver de novo; orientava o sol e a lua de sua bolha de superioridade, amparado por uma autoimagem generosa; enfim, não era um homem acostumado a ser impedido de fazer o que quisesse.

A mãe sacudiu os ombros do filho, ansiosa com sua ansiedade, e lhe estapeou a gola da jaqueta repetidamente, indicando os velhos com a cabeça. O Nederland largou a chave do carro em cima do balcão e já sacou celular e carteira. O novato do caixa considerou as possíveis mediações para o conflito que se desdobrou à sua frente. A pouca experiência soprou uma resposta ao seu instinto incipiente: de polegar amassado contra indicador, piscou para a cliente da vez, pedindo uma anuência tão opcional quanto a colaboração para o caixinha dos empregados, e voltou-se inteiro ao, vai que era, amigo dos patrões.

Jonathan gostou de ver que o Usain Bolt possível era do seu tamanho e, assim, passou a odiar tudo que via nele: o rosto de traços harmoniosos, a cútis bem hidratada, o olhar de sono, a jaqueta mais cara que a sua, o bigode delineado em alguma barbearia chique, o topete, a chave do carro, o carro que ele tivesse estacionado lá fora, os amigos, o celular de tela grande, os óculos escuros pendurados num passante das calças skinny pretas.

Ô, campeão.

Pode ser no débito, querido.

O cara esticou o cartão ao novato, naturalizando o desrespeito, preparado para continuar invicto na vida. O pessoal se comoveu, começou a se olhar de lado. Então uma janela de afeto se abriu, um mar de possibilidades amorosas: Lúcia surgiu lá na frente da fila, escondida entre os ombros dos pais e irmãos, linda como desde o começo do ano passado, tímida como sempre. Jonathan aproveitou a brisa boa para se inflar ainda mais: se não tinha fé de que algum dia conseguiria impressionar a menina com boas notas, com extraordinárias habilidades atléticas, com os segredos da boa convivência na escola e nem com, ué, algum charme pessoal, que fosse na base da porrada. Era hora de começar a criar a história que contariam aos netos e a todo jovem que se dispusesse a ouvi-los quando os velhos do mundo fossem eles, quando tivessem bodas de ouro para comemorar, quando escolhessem juntos algum plano funerário para a família, quando partilhassem a mesa em algum churrasco de domingo, a cada faxina que fizessem quando morassem sob o mesmo teto. Ela arregalou os olhos, surpresa com a irritação do colega e com seu timbre porque, se bem lembrava, nem conhecia sua voz.

Eu tô falando com você, jaquetinha.

A mãe segurou o filho pelos dois braços, mas ele recuou num passo e ajustou as pernas em base de luta, levantando as mangas e ajeitando o penteado.

Respeita sua mãe, Jonathan, volta aqui.

O Nederland virou o rosto e emprestou metade da atenção ao agito.

Baixa bem a bolinha, moleque, ouve tua mãe.

Os velhos embarreiraram o menino, contendo a animosidade, e pediram a Nederland para que voltasse ao lugar que lhe pertencia, não tinha problema pegar fila, ninguém precisava atrapalhar ninguém, ninguém precisava brigar com nenhuma criança em nenhum restaurante.

É, faixa-preta: volta pra eu não limpar esse chão com sua cara.

Cê quer confusão?

E se eu quiser? – empurrando o velho que estava mais perto, fazendo-o tropeçar nas barras das próprias calças.

Dois outros velhos cobraram o que sentiam ter a receber e empurraram Jonathan de volta, em vingança. Outros clientes separaram a briga secundária e reagruparam ao redor do menino, meio por interesse na baderna principal, meio para fazer coro ao pedido de que a ordem de pagamento fosse respeitada, todo mundo tinha a mesma pressa. Mas agora o Nederland não queria saber de pagar ou não, queria resolver um problema pessoal.

Então vamo lá fora, piazinho.

Até melhor pra massagear teu cérebro com teu narizinho, bonitão. Cê só foge desse atraso se tiver uma UZI no porta-malas. Cê já tomou facada, infeliz?

Os velhos imploraram para Nederland sair, ele que entrasse no carro e voltasse ao escritório, mais tarde conversavam, que deixasse a conta para os remanescentes, eles dividiriam numa boa. Ele acatou e andou para fora apontando os olhos do menino com indicador e dedo médio, de braço reto, queixo recolhido ao peito. Jonathan, enclausurado por desconhecidos, inspirava e expirava, cada vez menos interessado em briga, cada vez mais atento aos sinais de sua musa, tão perto e ainda tão longe de seus carinhos.

 

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Marco Antonio Santos

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Dai-me Amor 0 113

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 221

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.