Todos meus amigos estão mortos 3 493

BigMoney parecia sempre estar com os olhos derretendo. Ele era um autêntico anjo negro. Um poser, como todos nós. Tinha uma beleza que eu não compreendia, apenas apreciava. Alto, costas largas e rosto determinado. Contudo, havia algo de estranho nos olhos dele: às vezes concentrados, às vezes sonolentos, às vezes tão brilhantes quanto a lava de um vulcão ardendo em corredeiras rumo ao mar. Ele adorava nadar em águas salgadas. Seus olhos, como eu disse, tocavam as superfícies e as incendiavam, era seu modo particular de compreender o mundo.

Sentamos em uma das mesas dos bares que ficam perto dos arcos da Lapa. Na mesa, enquanto a mulher de BigMoney conversava com a minha, nós dois permanecemos em silêncio por alguns instantes, observando a multidão na calçada, a noite ficando cada vez mais plena, os ônibus passando e nesse instante a cena que acompanhávamos lado a lado começou a se desintegrar. A visão ficou confusa. Quando olhei para minha mão esquerda, ela parecia um grande pedaço de manteiga dentro da uma frigideira quente.

A sensação de derretimento durou alguns segundos e logo fui atingido por um calafrio que correu espinha acima como um jato. Levantei e sentei novamente na cadeira e o movimento foi como um clique que trouxe os sentidos de volta. BigMoney também parecia estar bem. Ele ria e perguntava se eu tinha visto aquilo. “Aquilo o quê?”, eu disse. “O mundo cara, o mundo se dissolvendo”, e soltou uma gargalhada.

Ele estava no Brasil para conhecer os principais núcleos de “imigração” africana da era colonial. A viagem fazia parte de seu programa de estudos sociais na Universidade da Califórnia e depois de alguns dias no Rio, partiria para Salvador, onde viveria em uma comunidade estudando a cultura afro-brasileira por três meses. Faria o trajeto até lá de navio e estava bastante animado.  

Na mesa de bar da Lapa, expliquei pra ele uma das versões da etimologia do nome Brasil e ele ficou extremamente interessado com o lance da madeira vermelha que parecia um braseiro. Mesmo alguns dias depois voltou a comentar comigo como essa conclusão havia feito ele repensar alguns significados. “Estamos sentados nessa brasa sem fim, nessa brasa que nunca se apaga, acho que eu amo esse lugar”.

Foi a primeira vez que eu vi Xanax na vida. Eu nem sabia o que era. BigMoney me deu um comprimido dentro do ônibus, instantes antes de a gente chegar na Lapa naquela noite em que o cenário se dissolveu. Sentamos um ao lado do outro para ver a rota no GPS na tela do celular  dele, então me deu. Minutos depois, caminhamos feito lava pelas ruas de pedra da velha capital.

Seguimos para outro bareco onde havia mesas de sinuca. Jogamos algumas partidas enquanto as meninas comandavam a Jukebox e conversavam animadas sobre música. Mais tarde pegamos um ônibus e voltamos pro hostel. Poucos dias depois nos despedimos.

Seis meses se passaram e na época do Natal vi uma postagem da mulher de BigMoney dizendo que ele havia morrido. Uma mina dirigindo seu New Beetle tinha atropelado ele, que estava em cima de uma daquelas motos Spider, atravessando um cruzamento perto de Venice Beach. Não acreditei, fiquei em choque e chorei sim, chorei por alguns minutos e enquanto enxugava as lágrimas lembrei de como BigMoney era jovem. Ele era uns quatro anos mais novo que eu, inacreditável, inacreditável…

“Deixo você assistir minha dor se você prometer que vai me dopar depois”, já dizia o Lil Peep. Outro que morreu jovem, locão com seis Xanax, mais Fentanyl. Não sei muito bem. Sei que a dor uma hora acaba, talvez ele esteja feliz agora, com a boca aberta, olhando pro céu com os olhos fechados.

Morte em trânsito. BigMoney caiu da motocicleta, eu também caí uma ou duas vezes. Não posso dizer que foi por querer. O que você quer que eu diga? Quer que eu assuma? Fica tranquilo porque nem eu me conheço direito.

Lamentei pelos meus amigos dopeboycrybaby que se foram. Derretidos como lava ardente antes que isso tudo aqui se desintegre de vez. Um tombo mortal antes que o mundo acabe. Atropelado. Sem dor, sem grito de misericórdia.

BigMoney, morto aos 23. Lil Peep, morto aos 21. Eles me fazem concluir que eu já passei da hora, me fazem pensar que possivelmente eu já tenha vivido muito. Tô tentando não desperdiçar meu tempo. Todo mundo deseja só mais um minuto.

 

Conto de Jadson André

Imagem da Carol Rehbein

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3 Comments

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Dai-me Amor 0 228

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 375

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.