Todos meus amigos estão mortos 3 1314

BigMoney parecia sempre estar com os olhos derretendo. Ele era um autêntico anjo negro. Um poser, como todos nós. Tinha uma beleza que eu não compreendia, apenas apreciava. Alto, costas largas e rosto determinado. Contudo, havia algo de estranho nos olhos dele: às vezes concentrados, às vezes sonolentos, às vezes tão brilhantes quanto a lava de um vulcão ardendo em corredeiras rumo ao mar. Ele adorava nadar em águas salgadas. Seus olhos, como eu disse, tocavam as superfícies e as incendiavam, era seu modo particular de compreender o mundo.

Sentamos em uma das mesas dos bares que ficam perto dos arcos da Lapa. Na mesa, enquanto a mulher de BigMoney conversava com a minha, nós dois permanecemos em silêncio por alguns instantes, observando a multidão na calçada, a noite ficando cada vez mais plena, os ônibus passando e nesse instante a cena que acompanhávamos lado a lado começou a se desintegrar. A visão ficou confusa. Quando olhei para minha mão esquerda, ela parecia um grande pedaço de manteiga dentro da uma frigideira quente.

A sensação de derretimento durou alguns segundos e logo fui atingido por um calafrio que correu espinha acima como um jato. Levantei e sentei novamente na cadeira e o movimento foi como um clique que trouxe os sentidos de volta. BigMoney também parecia estar bem. Ele ria e perguntava se eu tinha visto aquilo. “Aquilo o quê?”, eu disse. “O mundo cara, o mundo se dissolvendo”, e soltou uma gargalhada.

Ele estava no Brasil para conhecer os principais núcleos de “imigração” africana da era colonial. A viagem fazia parte de seu programa de estudos sociais na Universidade da Califórnia e depois de alguns dias no Rio, partiria para Salvador, onde viveria em uma comunidade estudando a cultura afro-brasileira por três meses. Faria o trajeto até lá de navio e estava bastante animado.  

Na mesa de bar da Lapa, expliquei pra ele uma das versões da etimologia do nome Brasil e ele ficou extremamente interessado com o lance da madeira vermelha que parecia um braseiro. Mesmo alguns dias depois voltou a comentar comigo como essa conclusão havia feito ele repensar alguns significados. “Estamos sentados nessa brasa sem fim, nessa brasa que nunca se apaga, acho que eu amo esse lugar”.

Foi a primeira vez que eu vi Xanax na vida. Eu nem sabia o que era. BigMoney me deu um comprimido dentro do ônibus, instantes antes de a gente chegar na Lapa naquela noite em que o cenário se dissolveu. Sentamos um ao lado do outro para ver a rota no GPS na tela do celular  dele, então me deu. Minutos depois, caminhamos feito lava pelas ruas de pedra da velha capital.

Seguimos para outro bareco onde havia mesas de sinuca. Jogamos algumas partidas enquanto as meninas comandavam a Jukebox e conversavam animadas sobre música. Mais tarde pegamos um ônibus e voltamos pro hostel. Poucos dias depois nos despedimos.

Seis meses se passaram e na época do Natal vi uma postagem da mulher de BigMoney dizendo que ele havia morrido. Uma mina dirigindo seu New Beetle tinha atropelado ele, que estava em cima de uma daquelas motos Spider, atravessando um cruzamento perto de Venice Beach. Não acreditei, fiquei em choque e chorei sim, chorei por alguns minutos e enquanto enxugava as lágrimas lembrei de como BigMoney era jovem. Ele era uns quatro anos mais novo que eu, inacreditável, inacreditável…

“Deixo você assistir minha dor se você prometer que vai me dopar depois”, já dizia o Lil Peep. Outro que morreu jovem, locão com seis Xanax, mais Fentanyl. Não sei muito bem. Sei que a dor uma hora acaba, talvez ele esteja feliz agora, com a boca aberta, olhando pro céu com os olhos fechados.

Morte em trânsito. BigMoney caiu da motocicleta, eu também caí uma ou duas vezes. Não posso dizer que foi por querer. O que você quer que eu diga? Quer que eu assuma? Fica tranquilo porque nem eu me conheço direito.

Lamentei pelos meus amigos dopeboycrybaby que se foram. Derretidos como lava ardente antes que isso tudo aqui se desintegre de vez. Um tombo mortal antes que o mundo acabe. Atropelado. Sem dor, sem grito de misericórdia.

BigMoney, morto aos 23. Lil Peep, morto aos 21. Eles me fazem concluir que eu já passei da hora, me fazem pensar que possivelmente eu já tenha vivido muito. Tô tentando não desperdiçar meu tempo. Todo mundo deseja só mais um minuto.

 

Conto de Jadson André

Imagem da Carol Rehbein

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3 Comments

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Escala de Baumé 0 247

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Vida comum parte 1 0 1150

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.