Todos meus amigos estão mortos 3 284

BigMoney parecia sempre estar com os olhos derretendo. Ele era um autêntico anjo negro. Um poser, como todos nós. Tinha uma beleza que eu não compreendia, apenas apreciava. Alto, costas largas e rosto determinado. Contudo, havia algo de estranho nos olhos dele: às vezes concentrados, às vezes sonolentos, às vezes tão brilhantes quanto a lava de um vulcão ardendo em corredeiras rumo ao mar. Ele adorava nadar em águas salgadas. Seus olhos, como eu disse, tocavam as superfícies e as incendiavam, era seu modo particular de compreender o mundo.

Sentamos em uma das mesas dos bares que ficam perto dos arcos da Lapa. Na mesa, enquanto a mulher de BigMoney conversava com a minha, nós dois permanecemos em silêncio por alguns instantes, observando a multidão na calçada, a noite ficando cada vez mais plena, os ônibus passando e nesse instante a cena que acompanhávamos lado a lado começou a se desintegrar. A visão ficou confusa. Quando olhei para minha mão esquerda, ela parecia um grande pedaço de manteiga dentro da uma frigideira quente.

A sensação de derretimento durou alguns segundos e logo fui atingido por um calafrio que correu espinha acima como um jato. Levantei e sentei novamente na cadeira e o movimento foi como um clique que trouxe os sentidos de volta. BigMoney também parecia estar bem. Ele ria e perguntava se eu tinha visto aquilo. “Aquilo o quê?”, eu disse. “O mundo cara, o mundo se dissolvendo”, e soltou uma gargalhada.

Ele estava no Brasil para conhecer os principais núcleos de “imigração” africana da era colonial. A viagem fazia parte de seu programa de estudos sociais na Universidade da Califórnia e depois de alguns dias no Rio, partiria para Salvador, onde viveria em uma comunidade estudando a cultura afro-brasileira por três meses. Faria o trajeto até lá de navio e estava bastante animado.  

Na mesa de bar da Lapa, expliquei pra ele uma das versões da etimologia do nome Brasil e ele ficou extremamente interessado com o lance da madeira vermelha que parecia um braseiro. Mesmo alguns dias depois voltou a comentar comigo como essa conclusão havia feito ele repensar alguns significados. “Estamos sentados nessa brasa sem fim, nessa brasa que nunca se apaga, acho que eu amo esse lugar”.

Foi a primeira vez que eu vi Xanax na vida. Eu nem sabia o que era. BigMoney me deu um comprimido dentro do ônibus, instantes antes de a gente chegar na Lapa naquela noite em que o cenário se dissolveu. Sentamos um ao lado do outro para ver a rota no GPS na tela do celular  dele, então me deu. Minutos depois, caminhamos feito lava pelas ruas de pedra da velha capital.

Seguimos para outro bareco onde havia mesas de sinuca. Jogamos algumas partidas enquanto as meninas comandavam a Jukebox e conversavam animadas sobre música. Mais tarde pegamos um ônibus e voltamos pro hostel. Poucos dias depois nos despedimos.

Seis meses se passaram e na época do Natal vi uma postagem da mulher de BigMoney dizendo que ele havia morrido. Uma mina dirigindo seu New Beetle tinha atropelado ele, que estava em cima de uma daquelas motos Spider, atravessando um cruzamento perto de Venice Beach. Não acreditei, fiquei em choque e chorei sim, chorei por alguns minutos e enquanto enxugava as lágrimas lembrei de como BigMoney era jovem. Ele era uns quatro anos mais novo que eu, inacreditável, inacreditável…

“Deixo você assistir minha dor se você prometer que vai me dopar depois”, já dizia o Lil Peep. Outro que morreu jovem, locão com seis Xanax, mais Fentanyl. Não sei muito bem. Sei que a dor uma hora acaba, talvez ele esteja feliz agora, com a boca aberta, olhando pro céu com os olhos fechados.

Morte em trânsito. BigMoney caiu da motocicleta, eu também caí uma ou duas vezes. Não posso dizer que foi por querer. O que você quer que eu diga? Quer que eu assuma? Fica tranquilo porque nem eu me conheço direito.

Lamentei pelos meus amigos dopeboycrybaby que se foram. Derretidos como lava ardente antes que isso tudo aqui se desintegre de vez. Um tombo mortal antes que o mundo acabe. Atropelado. Sem dor, sem grito de misericórdia.

BigMoney, morto aos 23. Lil Peep, morto aos 21. Eles me fazem concluir que eu já passei da hora, me fazem pensar que possivelmente eu já tenha vivido muito. Tô tentando não desperdiçar meu tempo. Todo mundo deseja só mais um minuto.

 

Conto de Jadson André

Imagem da Carol Rehbein

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3 Comments

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Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”