Texto de em 29 de novembro de 2017 . Nenhum comentário.

Tinha como poucos o apreço pelo ato de varrer. As cerdas da vassoura a deitarem sobre o assoalho, a carregarem o pó de cá para lá, a emaranharem os cabelos em bolas de felpa. Não o fazia em uma ordem pré-estabelecida, como a maioria das pessoas o fazem, dos cantos para o centro e dos quartos para o corredor. Impor um processo faria de seu passatempo uma tarefa. Preferia varrer sem rumo.

Ao finalizar, era mesmo capaz de espalhar novamente todo o pó recolhido pela mansão, só para ter de varrê-la novamente. Como se precisasse se ocupar de algo para não ter que se ocupar de todo o resto. Sua sina de juntar os cacos e quebrá-los em novas miudezas.

Certo dia mandou embora os antigos zeladores; disse-lhes que faziam ali um desserviço. Pediu também que levassem as lixeiras e… sim, jogassem-nas em si mesmas.

E ao varrer e varrer e varrer, aos poucos começou a misturar-se ao pó, como se a ofertar sua própria imundície. Essa que só os humanos têm. Nas mãos calejadas uns tantos milhões de bactérias, na boca seca uns outros tantos. No interior, todo tipo de coliformes só não mais sujos que os seus pensamentos. Que outro animal pensa tão sujo?

Pulvis es. Quando se deu conta, era ele a ser carregado pelas cerdas e embolado nos cabelos das parcas visitas. Era todo pele morta, caspas e craca ambulante. O resíduo fétido que mora debaixo das unhas dos pés, o cravo espremido e depositado na borda do espelho, o gozo nos lençóis, a catota jogada ao infinito, o bafo de tabaco a esgueirar-se entre os dentes amarelos, as unhas roídas nas reentrâncias do sofá. Era o caracol a limpar a gosma de seu próprio caminho e passado de erros.

Ao mirar o turvo reflexo no porcelanato, por fim sabia: não estava o chão a ser varrido. Era ele – homem-cisco-no-mundo – a ser varrido pelo chão.

 

Texto: Murilo

Ilustra: Carol Rehbein