um cisco 0 228

Tinha como poucos o apreço pelo ato de varrer. As cerdas da vassoura a deitarem sobre o assoalho, a carregarem o pó de cá para lá, a emaranharem os cabelos em bolas de felpa. Não o fazia em uma ordem pré-estabelecida, como a maioria das pessoas o fazem, dos cantos para o centro e dos quartos para o corredor. Impor um processo faria de seu passatempo uma tarefa. Preferia varrer sem rumo.

Ao finalizar, era mesmo capaz de espalhar novamente todo o pó recolhido pela mansão, só para ter de varrê-la novamente. Como se precisasse se ocupar de algo para não ter que se ocupar de todo o resto. Sua sina de juntar os cacos e quebrá-los em novas miudezas.

Certo dia mandou embora os antigos zeladores; disse-lhes que faziam ali um desserviço. Pediu também que levassem as lixeiras e… sim, jogassem-nas em si mesmas.

E ao varrer e varrer e varrer, aos poucos começou a misturar-se ao pó, como se a ofertar sua própria imundície. Essa que só os humanos têm. Nas mãos calejadas uns tantos milhões de bactérias, na boca seca uns outros tantos. No interior, todo tipo de coliformes só não mais sujos que os seus pensamentos. Que outro animal pensa tão sujo?

Pulvis es. Quando se deu conta, era ele a ser carregado pelas cerdas e embolado nos cabelos das parcas visitas. Era todo pele morta, caspas e craca ambulante. O resíduo fétido que mora debaixo das unhas dos pés, o cravo espremido e depositado na borda do espelho, o gozo nos lençóis, a catota jogada ao infinito, o bafo de tabaco a esgueirar-se entre os dentes amarelos, as unhas roídas nas reentrâncias do sofá. Era o caracol a limpar a gosma de seu próprio caminho e passado de erros.

Ao mirar o turvo reflexo no porcelanato, por fim sabia: não estava o chão a ser varrido. Era ele – homem-cisco-no-mundo – a ser varrido pelo chão.

 

Texto: Murilo

Ilustra: Carol Rehbein

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maculada 0 199

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”