Alvoradas 0 14

desentristecer
é iluminar a alma
como renascer

algo que insiste
que conduz
do triste
ao tecer

é persistir
na felici

No instante em que o sol se depositava feito moeda no dourado do mar, Pérsio estancou seus versos. Sabia que letras teriam força alguma para lhe conduzir para além do esquecimento.

Talhara em si um emaranhado de signos para forjar a própria memória. Diluiu-se em palavras-dispersas e estava só. Era agora um infinito de páginas inacabadas, abrigadas num todo que era nada. Uma luz vista por ninguém.

Mergulhado na escuridão, baixou o olhar até doer. Via ausência em si. Mesmo diante do mais límpido espelho encontraria cumplicidade alguma. Tudo era noite.

Sem seus versos, Pérsio era lágrima que escorre só, que seca com vestígio algum. Feito nunca existido.

Feito esperança, buscou lembranças de luz. Como as registradas por relógios de sol, que ignoram momentos menores. Tinha para si que, para a felicidade, palavra alguma seria necessária. Que é na plenitude do silêncio que as verdades se eternizam em nossas almas e nos conduzem às alvoradas de si.

 

texto: Rafael Antunes
ilustração: Nina Zambiassi

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a mente enquanto objeto quebradiço 0 14

I

 

a noite aqui fora tá um pouco opressiva, graças ao bafo úmido que levanta do asfalto depois dessas chuvas de verão. passa pouco das oito da noite e eu mando um zap pra Cíntia, ver se ela precisa de algo em casa. “Traz um pão de azeite de oliva pra mim”, ela pede num áudio. quase envio uma mensagem perguntando onde encontrar um negócio tão específico, mas assim que olho pra frente me deparo com um local metido a besta, o típico estabelecimento que venderia pão de azeite de oliva. nunca vi esse prédio. entro, o lugar é descolado, projetado pra ricos moderninhos. uma espécie de galpão abandonado, de pé direito alto e arquitetura estranha, com várias lojas e restaurantes que ficam nas paredes, pelas quais o cliente passeia usando rampas. roupas, massas, eletrônicos, brinquedos artesanais. tipo um shopping pra quem quer se sentir integrado à região mas sem correr riscos.

um conjunto formado por vozes masculinas e femininas, flautas e percussões está distribuida ao longo do térreo e toca uma música em tom menor, bem bonita, lindíssima. é emocionante. choro um pouquinho e sinto uma vontade inexplicável de comprar romãs. peço por romãs, não as encontro, mas de rolê pelo galpão sou abordado por uma senhora, sentada num café afetado. “Psiu. Você quer romãs? Eu sei onde tem”, ela fala, feito gato, e me estica um cartão pessoal com nome que nem leio. “Lá perto de casa as romãzeiras estão carregadíssimas”, mia. sorri.

 

II

 

quando noto, estou descendo de um carro. percurso curto, que rua é essa? a velha me convence a entrar na casa porque precisa avisar qualquer coisa pra filha antes de me mostrar onde acho romãs. ela tem um desenho excêntrico, me deixa confuso, como se um sorrisinho malicioso estivesse grudado pra sempre em um rosto antigo e marcado por muitas mudanças. o cabelo platinado, quase branco. ela começa a falar estranho comigo, “Nossa, você é muito lindinho”, pergunta meu nome, respondo “Paulo. Paulo Braga”. meu nome não é Paulo e meu sobrenome não é Braga e eu não entendo mais o que estou fazendo. a senhora me pede licença e sai do cômodo e nisso a filha entra. igual, mas o cabelo é preto e o rosto é jovem. começa a fazer perguntas inúteis, ela também fala miando. “De onde você é?”, questiona, respondo “Minas”, mas eu não sou de Minas. “Ai, que fofo! Que bom que você vai vir pra cá, passar sotaque pra minha mãe”.

vir pra cá? passar sotaque? do que essa moça tá falando? explico que na verdade sou gaúcho, de Pelotas, e nada muda na dinâmica da conversa. tento me distrair pensando em quando vou finalmente comer as romãs, mas o cômodo tem um ar estranho, um perfume me sufoca e confunde. enquanto a jovem mia bobagens e amenidades, tiro o celular do bolso e jogo no Google o nome da coroa, que copiei do cartão. nome diferente, nunca li nada assim. “Que línguas você fala?”, ela, “Inglês e espanhol”, eu, “Ótimo, mamãe fala muitas outras, já podem viajar bastante”. o clima não tá legal, eu não quero viajar com ninguém, eu fico tenso, o 4G não funciona direito. “Mamãe teve vários homens mas nenhum nunca deu certo. Acho que nenhum estava realmente pronto, sabe? E sempre acabam sumindo, hehe”.

 

III

 

fito a tela. a busca está completa. leio os resultados.

 

travo.

congelo.

 

IV

 

reúno forças e levanto e percebo a velha de volta ao quarto. sorrisinho, vestido e véu vermelho-sangue, quase flutua. penso em correr, mas um miado calmo soa como se viesse por toda parte, formando palavras que mais soam como portas que se fecham.

 

“Aonde é que você pensa que vai? Você fica. Você não vai a lugar nenhum”.

 

 

 

 

 

texto do Rômulo Candal

visual do Marco Antonio

um cisco 0 4

Tinha como poucos o apreço pelo ato de varrer. As cerdas da vassoura a deitarem sobre o assoalho, a carregarem o pó de cá para lá, a emaranharem os cabelos em bolas de felpa. Não o fazia em uma ordem pré-estabelecida, como a maioria das pessoas o fazem, dos cantos para o centro e dos quartos para o corredor. Impor um processo faria de seu passatempo uma tarefa. Preferia varrer sem rumo.

Ao finalizar, era mesmo capaz de espalhar novamente todo o pó recolhido pela mansão, só para ter de varrê-la novamente. Como se precisasse se ocupar de algo para não ter que se ocupar de todo o resto. Sua sina de juntar os cacos e quebrá-los em novas miudezas.

Certo dia mandou embora os antigos zeladores; disse-lhes que faziam ali um desserviço. Pediu também que levassem as lixeiras e… sim, jogassem-nas em si mesmas.

E ao varrer e varrer e varrer, aos poucos começou a misturar-se ao pó, como se a ofertar sua própria imundície. Essa que só os humanos têm. Nas mãos calejadas uns tantos milhões de bactérias, na boca seca uns outros tantos. No interior, todo tipo de coliformes só não mais sujos que os seus pensamentos. Que outro animal pensa tão sujo?

Pulvis es. Quando se deu conta, era ele a ser carregado pelas cerdas e embolado nos cabelos das parcas visitas. Era todo pele morta, caspas e craca ambulante. O resíduo fétido que mora debaixo das unhas dos pés, o cravo espremido e depositado na borda do espelho, o gozo nos lençóis, a catota jogada ao infinito, o bafo de tabaco a esgueirar-se entre os dentes amarelos, as unhas roídas nas reentrâncias do sofá. Era o caracol a limpar a gosma de seu próprio caminho e passado de erros.

Ao mirar o turvo reflexo no porcelanato, por fim sabia: não estava o chão a ser varrido. Era ele – homem-cisco-no-mundo – a ser varrido pelo chão.

 

Texto: Murilo

Ilustra: Carol Rehbein