Navegador de sonhos 0 1289

O começo do sempre foi com muita chuva, em um porão escuro onde sua pele brilhava e seus olhos ardiam, pedindo que fossem fechados para dar passagem aos sonhos que abriríamos juntos. Não era exatamente o que se imagina para esse tipo de história, que merece uma noite de verão com o céu limpo, estrelas brilhantes e lua cheia, mas os sonhos são feitos mais de sentimentos sinceros do que de cenários bonitos.

Conheci a Laura ao mesmo tempo em que descobri o amor. Sem fazer planos, acabei sendo apresentado a mim mesmo, em uma espiral de autoconhecimento levado pela sua mão com doçura. Com ela pude ser eu, e esse é provavelmente um dos melhores presentes que se pode receber de alguém. Juntos, começamos uma vida de aventuras para dentro de nós mesmos, desbravando essa loucura que é sonhar.

À noite nosso quarto tem som de mar. Uma poesia colorida em meio a tanto cinza. Faz com que o navegar pela cama enorme seja leve, e cada encontrar do outro traga a alegria de atracar em um porto seguro. A Laura sempre foi o meu refúgio, e isso deve ter alguma coisa a ver com aquecimento global porque eu sempre fui quente, e ela, sempre o meu mundo. Juntos, pulávamos entre calotas polares, aquecendo nossos pés e criando novas formas de vida. De viver. De sonhar. De ser. Juntos, éramos.

A Laura me apanhou pelo estômago. Não com a comida, mas com o comichão. Minha voz fraquejava um pouquinho a cada vez que, tenso, ligava para chamá-la ao cinema, ao bar, e depois quando lhe propus criarmos nosso próprio lar. O fraquejar sempre me foi uma bússola que apontava a direção do sonho. E sempre me levou até ela, em qualquer lugar ou fuso do mundo. Fraquejando, sonhei com o sempre. Em uma noite com muita chuva, remei para o sonho.

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Vida comum parte 1 0 107

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Chegada 0 671

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai