as formas da burca 0 374

Ah, gostou? Lindo, né, guria? Já tá até meio velhinho, de tanto que eu uso. Espera aí, só deixa eu responder aqui rapidinho a mensagem do Alan. …

Pronto. Ah, então, do que a gente tava falando mesmo? Que bom que a gente conseguiu sair, né? Ultimamente tá tão difícil. Trabalho, namoro… a gente fica sem tempo. Faz quanto, um ano? Dois? Meu Deus, passa rápido. Que bom que hoje o Alan tá lá vendo o jogo dele e eu pude vir.

Se tá tudo bem com a gente? Claro… tem momentos que… enfim, você sabe né, o Alan é o Alan… mas eu gosto dele, fazer o quê? Ele sempre me dá uns presentes, sabe, tipo esse cachecol que você gostou, ele que deu. Tão fofinho, né? O único problema é que ele não combina muito com outras roupas, daí volta e meia tenho que usar preto e tal. Mas é o jeito.

Ah, não, amiga. Não vou pedir outra caipirinha, não. Se eu chegar bêbada em casa já viu! hahaha. Nossa, sete mensagens. Pera aí que vou responder ele aqui rapidinho…Olha, ele tá pedindo pra mandar uma foto de nós duas, vamos tirar? Tá ficando abafado aqui dentro, não?

O quê, uma marca no pescoço? Nem tinha visto. Não deve ser nada, devo ter arranhado sem querer. E olha quem fala, né, você cheia desses roxos do Pole Dance por tudo. Acho tão legal que você faz… Eu, fazer também? Imagina, guria, não dá, não. Não é pra mim.

Ai, então, eu desisti da minha área, sabe. Não ia dar certo, eu não tenho talento nenhum e sou meio burra hahaha. A gente achou melhor eu continuar no meu emprego atual, naquela empresa que eu trabalho. Tem estabilidade, sabe. Eu não ganho muito, mas o salário do Alan é mais que suficiente pra nós dois.

Se o cachecol tá incomodando? Imagina, haha, não, não. Sei lá, deve ser por causa do calor. Ou é minha pressão baixa… ultimamente tô me sentindo meio fraca.

Uma delicia essa tábua de queijos, né? Quer esse último pedacinho ou posso pegar? Engraçado, eu tenho essa mania de deixar sempre o melhor pedaço para comer por último. Deixo ali e dou um tempo, como se esperasse por um final feliz. Daí demoro e o pedaço fica frio, ou murcho, ou duro. Às vezes parece que com a vida também é assim.

Putz, desculpa, amiga, mas o Alan me falou aqui que o jogo acabou e ele já tá vindo me buscar. Olha, já tá me ligando. Não vou poder ficar muito. Você me perdoa? Mas foi tão bom te veeeeer! Que saudades que eu tava.

Será que dá tempo de pedir aquela última caipirinha? Acho que você tinha razão… esse cachecol, não sei o que tá acontecendo…

parece que tá me sufocando.

 

Ilustra: Nina Zambiassi
Texto: Murilo

 

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Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”