Vai que 0 151

Introdução à Filosofia Contábil estava o porre de sempre, então a princípio até gostei de sentir o celular vibrar no bolso. Olhei pra baixo e conferi o recado. A professora Luzia que me perdoe, mas qualquer coisa era melhor que correlações científicas. Qualquer coisa mesmo, inclusive mais uma mensagem alucinada do meu marido. O Alfredinho nunca soube trocar uma fralda sem me consultar se estava fazendo tudo certo, pra ilustrar a dependência. Ele não sabe sequer onde deixa os sapatos que tira, então não cobro demais dele, porque não dá pra cobrar muito dos ignorantes, e se Deus os aceita e perdoa, quem sou eu pra contestar? Hoje me arrependo de não ter percebido na hora que a historinha cheirava mal, e olha que já tínhamos conversado sobre a grosseria que é gritar em caps lock:

– Tô aqui na frente, PODE SAIR?????? GANHEI NA QUINA!!!!!

– Que papo é esse?

– R$ 500 mil, Quina, esse papo. Vem, TAMO RICO!!!!!!!!!!!!

Veja, eu conheço o Alfredo, e queria muito conhecer o poder dessa grana preta pra resolver a vida, pra sair do aluguel pela porta da frente, pra quitar as reformas do nosso Opala, pra ajudar um ou dois parentes mais estropiados, pra suprir algumas faltas que nos massacram. E os quinhentos mil dessa época rendiam bem mais que os de hoje, e ilustro meu ponto lembrando que o Kléber Bam Bam é rico com o que ganhou no BBB um até hoje. Seria a famosa mão na roda, ou várias mãos em várias rodas, como se a gente conseguisse lubrificar todas as engrenagens de uma só vez. Mas claro que fiquei meio assim. É que isso já foi depois de dois anos de namoro, dois de noivado que os pais dele resumiram como “enrolação” e, naquela época, já nos debatíamos com um quarto-ano-adentro de casados. Eu grávida, Rosa a caminho, e me aparece uma alopração dessas? Ele sempre foi meio doidinho. Depois o tempo me vacinou pra não cair em qualquer bobice do homem que amo.

E tem também que em coração de mãe cabe sempre outra criança pra cuidar, e a criança pode ter qualquer idade. Resolvi pagar pra ver. Levantei pra sair da sala com o caderno e uma caneta numa mão, pendurei a bolsa no outro braço e planei reto no corredor. Sussurrei “questão familiar”; a professora mirou minha barrida e sorriu, achando que sabia com qual criança da minha família eu estava lidando, aí me olhou nos olhos e não disse nada, autorizando a saída com a mão esquerda, bem sei lá. A ementa, de forma geral, não passava de um emaranhado ilógico e a disciplina, de forma específica, era como uma tortura intelectualizada, alguma coisa meio KGB, Tetris, Sibéria, mas enfim: Luzia comprar minha balela já estava mais que bom, dadas as circunstâncias.

Lavei o rosto, molhei o bico e enchi a garrafinha de água. Imaginei que o Alfredo ia precisar, porque ele parecia eufórico, radiante, meio cheirado mesmo. Conheço a pecinha rara com quem me encaixei. A despeito de uma miopia contra a qual nunca me defendi, consegui identificar o carro no estacionamento escuro, com um par tristeza-&-premonição de nuvens cinzas nos encimando. Quem me ajudou na busca foi o Léo Santana, que deu o tom da derrota a partir dos falantes grandes e caros que o meu eterno garotão mandou instalar quando caiu uma grana que não entendi daonde. Fiquei feliz de sentir as lufadas indicativas de banho, porque andava um pouco raro, e ainda estava rolando um cheiro amadeirado no ar, certamente inédito. Já de cinto passado, funguei de queixo erguido. Ou o bendito abriu um Avon que comprei na promoção pra vender no meu preço quando ficar mais caro na revistinha, ou então ele já tinha gastado mal pra tentar me impressionar.

E foi meio deprê, porque ele nem se deu o trabalho de puxar o papo. Só esticou o dito bilhete de alforria e ligou o carro, vestindo um sorriso longo. Pelo treme-treme, não consegui ler foi nada. Perguntei:

– Que quinhentos mil, Alfredo? E você lá joga em Quina?

– Faz dez aninhos, meu amor; cento e vinte cinco meses; quinhentas semanas. Sabe o que é isso? Dez anos perdendo dinheiro nessa porcaria? E não espalho ou te encho com isso porque é um trabalho de fé. Preferi esperar uma surpresa boa dessas que te encher com buxixo de bastidores, até porque você não é a Sônia Abrão. No fim deu certo, olha aí.

– Já vi um bilhetinho aqui e ali, tirando dos seus bolsos na hora de lavar a calça, mas não sabia que era assim, uma coisa tão firme.

– Sempre, sempre. Agora acabou a paz. Já tô avisando, vai vendo. Vou mandar meu coordenador pastar, mas olha, amanhã mesmo. Ou hoje; dá pra chegar em casa, abrir uma latinha e já soltar logo um e-mail-papo-reto pra ele ficar ligeiro. Tô fora. Mas ó, vê só, a gente tem que gastar direito, senão evapora, abracadabra, babau dinheiro.

Ele segurou a emoção num sinal amarelo. O semáforo iluminou meu colo, então aproveitei pra mirar bem o bilhete. Ai, as ilusões. Fim de papo. Bom seria se eu tivesse saído da aula por alguma coisa que valia a pena. Bom seria que eu não tivesse me apaixonado por um cara que sempre foi incorrigivelmente lesado nas ideias. Bom seria se aquele circo tivesse fundamento na realidade. Mais um duro golpe do destino:

– Meu amor, não queria derrubar seu castelinho, mas esse jogo é de semana passada. Não tem como ganhar hoje com esses números, coração.

– É o quê?

– O que que eu faço contigo, hein?

– …

– Te esgano ou dou um beijo?

O Povo da Loteria daria risada se soubesse do nosso caso. E eles devem saber, porque o Governo vigia quem joga, segundo um vídeo que vi no zapi. Falou governo, falou de sonho de pobre esmagado. Naquela noite, eu e Alfredo conversamos menos. Silenciei sobre essa coisa por um belo semestre, tentando perdoá-lo pelo susto. Não se faz isso com uma grávida se sete meses. Foi toda uma situação.

 

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Cruzeiro do Sul 0 119

Para Gal

 

Navegar pelo mar Mediterrâneo ou pelos outros mares interiores da pequena Europa era relativamente seguro. As distâncias sempre foram curtas e, mesmo durante as noites, Alfa de Ursa Menor oferecia aos marinheiros uma orientação segura. Todas as estrelas e constelações do hemisfério norte orbitam em torno da estrela polar e a partir dela se sabia para onde ir ou qual direção evitar.

– Você é o brasileiro mais calado que eu conheço, sabia?

– Isso não é muito, sou o único brasileiro que você conhece.

– Não é verdade. Não te contei que eu morei dois anos em Salvador?

– Ah, então é por isso. Eu sou de Curitiba, e os curitibanos não falam muito.

– Mas eu também vivi em Curitiba, por seis meses. Dava aulas de inglês em uma escola de línguas. Eles nunca me pagaram e depois disso passei uma temporada trabalhando na Ilha do Mel. E insisto que você fala muito pouco.

Os silêncios de Antonio a desesperaram desde o primeiro contato. É que apesar dele sempre ter demonstrado interesse, e de que ao longo de toda a convivência sempre tenha sido tão atencioso quanto um companheiro pode ser, ela sentia que as palavras eram a forma mais eficiente para se evitar qualquer mal entendido. Aprendeu cedo que suas atitudes eram condicionadas pelos seus discursos e, por isso, ao longo de seus relacionamentos descobriu o quanto os homens tentam por meio das palavras (ou da falta delas) manter sua liberdade de ação.

Por isso, cada demonstração de afeto desacompanhada da correspondente declaração lhe provocava calafrios. Ainda pior era ver que tinha se interessado, outra vez, por um desses homens que abraçam pouco e falam menos ainda.

– Me dá um beijo?

– Bobo, há coisas que não se pergunta.

– Mas como eu posso conseguir coisas quando elas dependem de outras pessoas?

– Aí você tem que ter a coragem de tomar uma atitude e esperar que seja correspondido.

Para ele, eram justamente as palavras que provocavam os males entendidos. Tinha muita dificuldade em traduzir ao português, e depois ao inglês, ao espanhol, ao francês, o alcance e a intensidade de seus desejos, medos e aspirações mais profundas. Acreditava sinceramente que o olhar, o sorriso e a expressão corporal eram representações muito mais inequívocas de todos os conflitos pelos quais passava.

– Me escreve uma carta?

– Esqueceu que há coisas que não se pergunta?

– Eu sei, mas eu quero uma carta. Além do mais, você é que tem que tomar a iniciativa.

– Mas eu tomei, até pedi um beijo.

Ao fim e ao cabo, ele conseguiu não só um, mas incontáveis beijos. Molhados de saliva, molhados de suor, molhados de lágrimas. Doces, salgados, amargos. Distantes, próximos, falados, abraçados. Bianca também conseguiu mais cartas do que qualquer pessoa que houvera conhecido. Cartas enviadas de outras cidades, outros países, outros continentes. Cartas pretéritas, presentes, futuras, perfeitas e mais-que-perfeitas. Algumas sequer lhe eram endereçadas, mas à mulher que um dia havia sido, ou à mulher que talvez viesse a ser.

Abaixo da linha do equador existe outro mundo. A estrela polar desaparece no horizonte e mesmo as constelações conhecidas abandonam seu comportamento habitual. Nas noites de outono o imponente caçador Órion descansa deitado, acompanhado das Três Marias que compõem seu cinturão.

Do lado de cá nada é seguro como do lado de lá. Mesmo o Cruzeiro do Sul, que serve de bússola com seu ponteiro indicando o meridiano, nasce no leste e se põe no oeste como todos os corpos celestes. Há pouco espaço para certezas quando se navega por águas desconhecidas.

Daqui é curioso olhar que Antonio e Bianca inverteram as posições. Não porque seja um fenômeno particularmente comum em relacionamentos tão duradouros, mas porque a intromissão de um terceiro elemento sempre provoca transformações profundas.

Agora é Antonio quem busca estar sempre por perto e, ao sentir que a pouca distância ainda é muito longe, se agarra desesperadamente às palavras. Fala sobre as estrelas e as constelações, e como elas não são as mesmas nos dois hemisférios. Fala sobre o regime das marés, e como eles são influenciados pelos movimentos lunares. Fala tão corretamente quanto possível, cuidando da colocação pronominal, muito mais complicada no português do que em qualquer outro idioma que conhece.

E diante da impotência em estabelecer o contato que tanto busca, se vê refletido nos olhos dela. Tenta entrar, e fala que vai cuidar de tudo. Não como quem sabe que pode cuidar de tudo. Nem como quem acha que pode cuidar de tudo. Sequer como quem acredita que pode cuidar de tudo. Fala que vai cuidar de tudo como quem implora permissão para cuidar de pelo menos uma parte de tudo o que pode acontecer dali em diante.

Para ela, as palavras já perderam muito do seu sentido. Não é insensível à cena. Tampouco é demasiado tarde para ele. Mas ela sentiu no próprio corpo o amor que ali cresceu nos últimos meses, e percebe que ele não precisa de linguagem para se expressar.

Como um marinheiro perdido, Antonio assiste cada nova estria com o mesmo estupor com que os antigos navegantes miravam o céu sem a estrela polar. Compara aquela esfera crescente com o universo em expansão e busca, nas novas formas e desenhos, algum sentido de orientação. É inútil, os dias passam e ele não sabe o que esperar.

Ela o surpreende com um olhar grato e condescendente. A gratidão por saber que tem ao seu lado a melhor pessoa possível, e a condescendência de quem sabe que pode caminhar sozinha, mas prefere ter alguém com quem compartilhar a experiência.

Esse olhar o deixa mais tranquilo. Entende que talvez não possa cuidar de tudo, mas terá o seu espaço. Afinal, lá fora estão o céu, as estrelas, as luas e as marés, tudo por ser explicado e entendido. E tudo recomeça.

Demônio de Fausto 0 101

De todas as histórias que me propus  a contar, nenhuma terá tanto a dizer quanto aquele relato trapaceiro embaixo da ponte do Canal. Foi a história mais absurda que poderia ter descrito. Quando olhei pela janela hoje cedo e vi o céu, tive ainda mais certeza: era tudo verdade.

Meu interlocutor? Pergunta fácil. Audiente muito ilustre, vindo de um canto escondido do cosmos somente para aquela sessão rápida e informal. Talvez, por esse motivo, estava alvoroçado e um tanto irritado. Podia ser só arrelia da viagem também. Minha assimilação foi afetada primeiro pela surpresa da visita (eu estava caminhando perto da ponte do Canal sem a intenção de encontrar quem quer que fosse e por vezes tinha fugido da vista de um ou outro conhecido); depois, pela soberba daqueles olhos lancinantes, cravados em um rosto comprido, bochechas vincadas e testa escondida pela franja. Cabelo oleoso, sufocado por um pork pie hat preto. Ao contrário do que fez em sua última visita, desta vez não veio acompanhado da gangue de pequenos demônios orientados tão somente pelo espetáculo e pela inveja. O coro era solo.

“Alguma coisa precisa mudar meu jovem. Alguma coisa nessa sua vida de merda precisa ser movimentada com urgência!”

“Você deveria me dar conselhos ruins, via de regra, não?!”

“Cala a boca pirralho. Você acha que brilha!”

“Desculpa.”

“Escute aqui, prepara essa cabeça. Nessa sua próxima história pode até ter um amorzinho, mas no fim, a única justificativa para tudo precisa ser a aniquilação. Nada desse papo otimista, dessa merdarada futurista. Você tá me entendendo? O barulho tem que ser tão forte que os cérebros derretam instantâneamente e escorram através dos olhos, ouvidos, nariz e até pela boca. Quero cenas de terror. Violência gratuita. Tá me entendendo, pirralho?!”

“Tá bom cara, porra, não precisa insistir tanto desse jeito. Já saquei qual vai ser dessa vez: vou pintar um quadrão vermelho, cheio de tripas. Se é o que você quer, vamo ai.”

“Isso, isso mesmo. Nada de suspense psicológico, nada de aventura com desfecho ‘mais ou menos’. E chega de misticismo. Nada de enigmas, signos justapostos, pistas para o tesouro, nada de referência sem vergonha, muito menos esse negócio de diarinho lírico do cotidiano. Vai pro pau! EU QUERO PORRADA! Tá entendendo?!”

“Mas na última história já deixamos ouvidos sangrando e cérebros quase explodindo. Essa parada de tripas tá ficando manjada também. Livro sobre jantar canibal, sobre suicídio, tudo isso tá muito modinha, saca? Até aquele plot de personagens abandonados à própria sorte em um vilarejo macabro tá virando filme de Hollywood classificação doze anos. Ainda bem que o politicamente correto começou a morrer depois do mandato do Obama, ninguém aguenta mais essa onda de bom-mocismo. Além de ser hipócrita, pasteuriza TUDO.”

“Beleza cara. Ok, ok e ok! Não precisa ser tão de graça então. Pode ser algo mais sutil, mas mesmo assim, tem que ser algo de virar o estômago.”

“Faz tempo que tô pensando em fazer uma história sobre guerra química. Tá meio oportuno, eu diria. E se a gente fizesse algo com cianeto no meio?”

“Cianeto cara, sério?! Você é muito previsível mesmo. Cianeto é para suicídio gourmet. Coisa pra gente famosa, do calibre de Horácio Quiroga, do Hitler e da horda dele. Cianeto é veneno pra historinha de anarquista sérvio, eu quero mesmo é mostarda nitrogenada, aí sim a coisa fica interessante.”

“Meu caralho! Tu quer bagunçar as personagens nesse nível? Corre o risco de virar um show de bizarrice sem fim.”

“Sim cara, eu falei para você abrir essa sua cabecinha de merda. Falei que a porrada tinha que ser intensa. A primeira cena que me vêm à cabeça é uma imagem com as personagens ardendo após uma explosão daquela gosma amarronzada com cheiro de peixe. Imagina a galera sufocando, com os olhos fumegantes e a pele cheia de bolhas. Quero todo mundo com feições cancerígenas, como se tivessem saído de um filme do Cronenberg. O resto do enredo você constrói aí. Já te dei quase tudo de graça.”

“Certo, entendi.”

“E quero que seja em um lugar menos estigmatizado também, para causar impacto. Pode ser em um contexto abastado e pacífico, foda-se que vai perder um pouco da verossimilhança. Caso você não se esqueça daquela astúcia essencial, tudo vai terminar bem mal, com direito a aplausos. E não se esqueça eim, sem entregar muito a história até que tudo esteja se aniquilando em bolhas de linfa. Destrua uma coisa bonita que eu quero ver.”

Mefistófeles de Fausto e seu chapéu preto desapareceram antes mesmo da minha resposta. Não sei se terei os vinte e quatro anos sem envelhecer concedidos ao mago alemão ou se meus manuscritos nunca irão arder nas chamas, como os do dramaturgo russo. O fato é que coordenei as pontas de meus dedos sobre o teclado e não sei quando irei parar. Certamente será a história mais absurda que já contei. E, no final, vou dizer com insolência atrevida: era tudo verdade.

Texto de Jadson André