Vai que 0 1033

Introdução à Filosofia Contábil estava o porre de sempre, então a princípio até gostei de sentir o celular vibrar no bolso. Olhei pra baixo e conferi o recado. A professora Luzia que me perdoe, mas qualquer coisa era melhor que correlações científicas. Qualquer coisa mesmo, inclusive mais uma mensagem alucinada do meu marido. O Alfredinho nunca soube trocar uma fralda sem me consultar se estava fazendo tudo certo, pra ilustrar a dependência. Ele não sabe sequer onde deixa os sapatos que tira, então não cobro demais dele, porque não dá pra cobrar muito dos ignorantes, e se Deus os aceita e perdoa, quem sou eu pra contestar? Hoje me arrependo de não ter percebido na hora que a historinha cheirava mal, e olha que já tínhamos conversado sobre a grosseria que é gritar em caps lock:

– Tô aqui na frente, PODE SAIR?????? GANHEI NA QUINA!!!!!

– Que papo é esse?

– R$ 500 mil, Quina, esse papo. Vem, TAMO RICO!!!!!!!!!!!!

Veja, eu conheço o Alfredo, e queria muito conhecer o poder dessa grana preta pra resolver a vida, pra sair do aluguel pela porta da frente, pra quitar as reformas do nosso Opala, pra ajudar um ou dois parentes mais estropiados, pra suprir algumas faltas que nos massacram. E os quinhentos mil dessa época rendiam bem mais que os de hoje, e ilustro meu ponto lembrando que o Kléber Bam Bam tem parte do que ganhou no BBB um até hoje. Seria a famosa mão na roda, ou várias mãos em várias rodas, como se a gente conseguisse lubrificar todas as engrenagens de uma só vez. Mas claro que fiquei meio assim. É que isso já foi depois de dois anos de namoro, dois de noivado que os pais dele resumiram como “enrolação” e, naquela época, já nos debatíamos com um quarto-ano-adentro de casados. Eu grávida, Rosa a caminho, e me aparece uma alopração dessas? Ele sempre foi meio doidinho. Depois o tempo me vacinou pra não cair em qualquer bobice do homem que amo.

E tem também que em coração de mãe cabe sempre outra criança pra cuidar, e a criança pode ter qualquer idade. Resolvi pagar pra ver. Levantei pra sair da sala com o caderno e uma caneta numa mão, pendurei a bolsa no outro braço e planei reto no corredor entre as fileiras de carteiras. Sussurrei “questão familiar”; a professora mirou minha barriga e sorriu, achando que sabia com que criança eu estava lidando, aí me olhou nos olhos e não disse nada, autorizando a saída com a mão esquerda, bem sei lá. A ementa, de forma geral, não passava de um emaranhado ilógico e a disciplina, de forma específica, era como uma tortura intelectualizada, uma coisa meio KGB, Tetris, Sibéria, mas enfim: Luzia comprar minha balela já estava mais que bom, dadas as circunstâncias.

Lavei o rosto, molhei o bico e enchi a garrafinha de água. Imaginei que o Alfredo ia precisar, porque ele parecia eufórico, radiante, meio cheirado mesmo. Conheço a pecinha rara com quem me encaixei. A despeito de uma miopia contra a qual nunca me defendi, consegui identificar o carro no estacionamento escuro, com um par tristeza-&-premonição de nuvens cinzas nos encimando. Quem me ajudou na busca foi o Léo Santana, que deu o tom da derrota a partir dos falantes grandes e caros que o meu eterno garotão mandou instalar quando caiu uma grana que nunca entendi daonde. Fiquei feliz de sentir cheiro de banho, porque andava um pouco raro, e ainda tinha um certo cheiro amadeirado no ar, certamente inédito. Já de cinto passado, funguei de queixo erguido. Ou o bendito abriu um Avon que comprei na promoção pra vender no meu preço quando ficar mais caro na revistinha, ou então ele já tinha gastado mal a grana que ainda nem tinha pra tentar me impressionar.

E foi meio deprê, porque ele nem se deu o trabalho de puxar o papo. Só esticou o suposto bilhete da alforria e ligou o carro, vestindo um sorriso longo. Pelo treme-treme, não consegui ler foi nada. Perguntei:

– Que quinhentos mil, Alfredo? E você lá joga em Quina?

– Faz dez aninhos, meu amor; cento e vinte cinco meses; quinhentas semanas. Sabe o que é isso? Sabe o que são dez anos tostando dinheiro? E não espalho ou te encho com isso porque é um trabalho de fé. Preferi esperar uma surpresa boa dessas que te encher com buxixo de bastidores, até porque você não é a Sônia Abrão. No fim deu certo, olha aí.

– Já vi um bilhetinho aqui e ali, tirando dos seus bolsos na hora de lavar a calça, mas não sabia que era assim…uma coisa sistemática.

– Sempre, sempre. Agora acabou a paz. Já tô avisando, vai vendo. Vou mandar meu coordenador pastar, mas olha, amanhã mesmo. Ou hoje; dá pra chegar em casa, abrir uma latinha e já soltar logo um e-mail-papo-reto pra ele ficar ligeiro. Tô fora. Mas ó, vê só, a gente tem que gastar direito, senão evapora, abracadabra, babau dinheiro.

Ele segurou a emoção num sinal amarelo. O semáforo iluminou meu colo, então aproveitei pra mirar bem o papel. Ai, as ilusões. Fim de papo. Bom seria se eu tivesse saído da aula por alguma coisa que valia a pena. Bom seria que eu não tivesse me apaixonado por um cara que sempre foi incorrigivelmente lesado das ideias. Bom seria se todo aquele circo tivesse fundamento na realidade. Mais um duro golpe do destino:

– Meu amor, não queria derrubar seu castelinho, mas esse jogo é de semana passada. Não tem como ganhar hoje com esses números, coração.

– É o quê?

– O que que eu faço contigo, hein?

– …

– Te esgano ou dou um beijo?

O Povo da Loteria daria risada se soubesse do nosso caso. E eles devem saber, porque o Governo vigia quem joga, como um vídeo que vi no zap prova. Falou governo, falou de sonho de pobre esmagado. Naquela noite, eu e Alfredo conversamos menos. Silenciei sobre essa coisa por um belo semestre, tentando perdoá-lo pelo susto. Não se faz isso com uma grávida se sete meses. Foi toda uma situação.

 

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Escala de Baumé 0 508

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Vida comum parte 1 0 1387

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.