Vai que 0 213

Introdução à Filosofia Contábil estava o porre de sempre, então a princípio até gostei de sentir o celular vibrar no bolso. Olhei pra baixo e conferi o recado. A professora Luzia que me perdoe, mas qualquer coisa era melhor que correlações científicas. Qualquer coisa mesmo, inclusive mais uma mensagem alucinada do meu marido. O Alfredinho nunca soube trocar uma fralda sem me consultar se estava fazendo tudo certo, pra ilustrar a dependência. Ele não sabe sequer onde deixa os sapatos que tira, então não cobro demais dele, porque não dá pra cobrar muito dos ignorantes, e se Deus os aceita e perdoa, quem sou eu pra contestar? Hoje me arrependo de não ter percebido na hora que a historinha cheirava mal, e olha que já tínhamos conversado sobre a grosseria que é gritar em caps lock:

– Tô aqui na frente, PODE SAIR?????? GANHEI NA QUINA!!!!!

– Que papo é esse?

– R$ 500 mil, Quina, esse papo. Vem, TAMO RICO!!!!!!!!!!!!

Veja, eu conheço o Alfredo, e queria muito conhecer o poder dessa grana preta pra resolver a vida, pra sair do aluguel pela porta da frente, pra quitar as reformas do nosso Opala, pra ajudar um ou dois parentes mais estropiados, pra suprir algumas faltas que nos massacram. E os quinhentos mil dessa época rendiam bem mais que os de hoje, e ilustro meu ponto lembrando que o Kléber Bam Bam tem parte do que ganhou no BBB um até hoje. Seria a famosa mão na roda, ou várias mãos em várias rodas, como se a gente conseguisse lubrificar todas as engrenagens de uma só vez. Mas claro que fiquei meio assim. É que isso já foi depois de dois anos de namoro, dois de noivado que os pais dele resumiram como “enrolação” e, naquela época, já nos debatíamos com um quarto-ano-adentro de casados. Eu grávida, Rosa a caminho, e me aparece uma alopração dessas? Ele sempre foi meio doidinho. Depois o tempo me vacinou pra não cair em qualquer bobice do homem que amo.

E tem também que em coração de mãe cabe sempre outra criança pra cuidar, e a criança pode ter qualquer idade. Resolvi pagar pra ver. Levantei pra sair da sala com o caderno e uma caneta numa mão, pendurei a bolsa no outro braço e planei reto no corredor entre as fileiras de carteiras. Sussurrei “questão familiar”; a professora mirou minha barriga e sorriu, achando que sabia com que criança eu estava lidando, aí me olhou nos olhos e não disse nada, autorizando a saída com a mão esquerda, bem sei lá. A ementa, de forma geral, não passava de um emaranhado ilógico e a disciplina, de forma específica, era como uma tortura intelectualizada, uma coisa meio KGB, Tetris, Sibéria, mas enfim: Luzia comprar minha balela já estava mais que bom, dadas as circunstâncias.

Lavei o rosto, molhei o bico e enchi a garrafinha de água. Imaginei que o Alfredo ia precisar, porque ele parecia eufórico, radiante, meio cheirado mesmo. Conheço a pecinha rara com quem me encaixei. A despeito de uma miopia contra a qual nunca me defendi, consegui identificar o carro no estacionamento escuro, com um par tristeza-&-premonição de nuvens cinzas nos encimando. Quem me ajudou na busca foi o Léo Santana, que deu o tom da derrota a partir dos falantes grandes e caros que o meu eterno garotão mandou instalar quando caiu uma grana que nunca entendi daonde. Fiquei feliz de sentir cheiro de banho, porque andava um pouco raro, e ainda tinha um certo cheiro amadeirado no ar, certamente inédito. Já de cinto passado, funguei de queixo erguido. Ou o bendito abriu um Avon que comprei na promoção pra vender no meu preço quando ficar mais caro na revistinha, ou então ele já tinha gastado mal a grana que ainda nem tinha pra tentar me impressionar.

E foi meio deprê, porque ele nem se deu o trabalho de puxar o papo. Só esticou o suposto bilhete da alforria e ligou o carro, vestindo um sorriso longo. Pelo treme-treme, não consegui ler foi nada. Perguntei:

– Que quinhentos mil, Alfredo? E você lá joga em Quina?

– Faz dez aninhos, meu amor; cento e vinte cinco meses; quinhentas semanas. Sabe o que é isso? Sabe o que são dez anos tostando dinheiro? E não espalho ou te encho com isso porque é um trabalho de fé. Preferi esperar uma surpresa boa dessas que te encher com buxixo de bastidores, até porque você não é a Sônia Abrão. No fim deu certo, olha aí.

– Já vi um bilhetinho aqui e ali, tirando dos seus bolsos na hora de lavar a calça, mas não sabia que era assim…uma coisa sistemática.

– Sempre, sempre. Agora acabou a paz. Já tô avisando, vai vendo. Vou mandar meu coordenador pastar, mas olha, amanhã mesmo. Ou hoje; dá pra chegar em casa, abrir uma latinha e já soltar logo um e-mail-papo-reto pra ele ficar ligeiro. Tô fora. Mas ó, vê só, a gente tem que gastar direito, senão evapora, abracadabra, babau dinheiro.

Ele segurou a emoção num sinal amarelo. O semáforo iluminou meu colo, então aproveitei pra mirar bem o papel. Ai, as ilusões. Fim de papo. Bom seria se eu tivesse saído da aula por alguma coisa que valia a pena. Bom seria que eu não tivesse me apaixonado por um cara que sempre foi incorrigivelmente lesado das ideias. Bom seria se todo aquele circo tivesse fundamento na realidade. Mais um duro golpe do destino:

– Meu amor, não queria derrubar seu castelinho, mas esse jogo é de semana passada. Não tem como ganhar hoje com esses números, coração.

– É o quê?

– O que que eu faço contigo, hein?

– …

– Te esgano ou dou um beijo?

O Povo da Loteria daria risada se soubesse do nosso caso. E eles devem saber, porque o Governo vigia quem joga, como um vídeo que vi no zap prova. Falou governo, falou de sonho de pobre esmagado. Naquela noite, eu e Alfredo conversamos menos. Silenciei sobre essa coisa por um belo semestre, tentando perdoá-lo pelo susto. Não se faz isso com uma grávida se sete meses. Foi toda uma situação.

 

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maculada 0 203

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”