No futuro somos todos passado 0 913

texto: Rafael Antunes
colagem: Katia Villagra

“Hahaha… massa!
mas você tem planos de voltar pra cá?”

“Sim, volto no final do ano. Pode gelar uma cerveja pra mim!
Cara, to indo. Tenho mais duas aulas da pós agora”

“Manda ver! Já coloquei umas garrafas na geladeira 😉 ”

“Que bom falar com você… conversamos depois.
abraço!”

E nunca mais voltou.
Na verdade até voltou, mas nunca mais nos vimos.

Naquelas nossas últimas mensagens no Whatsapp, conversamos com a distração que sempre acompanha os grandes acontecimentos. E assim percebemos em nada que aquela era a nossa despedida.

No final do ano, Eduardo voltou a Curitiba após três anos morando em Buenos Aires. Formado em Belas Artes, viveria enfim o que acreditava, longe dos escritórios que lhe confinavam os sonhos.

Por descuido ou abandono, nunca chegamos a combinar o reencontro que tanto prometemos. Foram três meses adiando, até a noite de ontem.

Era a primeira vez que meu telefone descrevia uma ligação como “Eduardo Curitiba”. Atendi e o mundo ruiu.

Passamos uma vida nos preparando para as provas que os dias nos impõem, mas para grande parte destes desafios não há preparo, apenas esperanças de superação.

Do outro lado da ligação, não-sei-quem gritava entre prantos que, caralho, o Du morreu!

Fato é que Eduardo chegou em casa no final da tarde de ontem sufocado por algo que jamais saberemos o quê. Provavelmente manteve o hábito de se sentar ao sofá para tirar seus tênis cansados, e uma vez mais se espalhar entre seus livros à estante. Talvez duas ou três cervejas. Não sei.

Há algum tempo já não sabia das leituras de Edu. Um distanciamento de três anos e um não-sei-quanto de vida sequer compartilhada.

Nenhum,
Nada,
Ninguém.

Bilhete algum explicou a morte e todos temos ideia sequer de como andava a vida de Edu após o retorno, que sempre só. Era a ausência de nós.

Edu agora é ontem. Perdeu-se do presente, a via que nos conduz do passado ao futuro.

E cá seguimos ensimesmados, desapercebendo que um tanto de nós se esvai a cada descontinuidade do que compartilhamos por aí. Pouco a pouco deixamos de ser presentes.

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maculada 0 203

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”