quando a esmola é demais 0 371

depois de quase quinze anos Lúcia e Leonardo se reencontraram casualmente. trocaram telefones, combinaram de sair, se (re)conheceram e se apaixonaram.

tudo anda perfeito. como ficaram tanto tempo sem se ver? têm tanta coisa em comum. amam Jostein Gaarder na mesma intensidade e os dois preferem O Dia do Curinga ao batido O Mundo de Sofia. até curtem Woody Allen mas hoje têm lá suas ressalvas, depois de tanta denúncia e escândalo. a culinária favorita de ambos é a libanesa, Que específico!, Nossa, qual a probabilidade?, e já têm até um novo restaurante favorito de casal. os astros também estão ao lado deles, posto que ela Sagitário e ele Áries. gostam mais do outono. torciam pelo São Paulo mas já não se importam mais tanto com futebol. acham Chico melhor que Gil mas Com certeza o Caetano é melhor do que todos eles!. na janta em casa é só salada, salada só com azeite e limão, limão só siciliano e Sicília só no verão, que dá pra entrar na água. carro só preto ou prata, hatch, com no mínimo ar condicionado e direção hidráulica. não leem jornal mas se precisarem ler Que seja o Estadão porque a Folha tá cada dia mais descaradamente de direita. querem adotar uma criança, O mundo já tá cheio demais, né? E tem tanta criança sozinha por aí. planejam conhecer o Japão. se matricularam em uma escola de música para aprenderem a cantar e poderem gravar vídeos de casal pra colocar no YouTube, que os dois adoram.

sinceramente, a vida não poderia estar melhor para eles. a única coisa que talvez possa vir a se tornar um problema são os mais de cinquenta gigabytes e os dois gaveteiros repletos de informações sobre Lúcia que Leonardo andou acumulando sistematicamente nos últimos quase quinze anos. mas só se ela descobrir, também.

texto de Rômulo Candal
ilustra digital de Dario Rivarossa ilTassista Marino

Previous ArticleNext Article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Vida comum parte 1 0 129

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Chegada 0 676

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai