Culpa delas 0 390

Letícia, 13 anos.

A gente era colega de turma. Não éramos próximos. Não tínhamos nenhuma relação, ainda mais porque ele era novo na turma, tinha vindo de uma escola qualquer. Estávamos na aula de matemática, resolvendo exercícios como de costume. Eu estava com um grupo de amigas sentadas no chão, conversando e resolvendo os exercícios até que senti um encostar. A princípio achei que era um toque “normal”, “sem querer”, é de se esperar em um sala cheia de alunos. Minhas amigas que conversavam ao meu redor percebendo a cena e pararam de falar. Olhei pra trás e o Eduardo, aquele otário, que até o momento só tinha parado a mão na minha bunda foi em frente e apertou. Eu me virei e encarei ele, estava mais que nervosa, comecei a sentir meu corpo ferver, certeza que meu rosto deve ter ficado rubro na hora. Quando me virei, o babaca ainda fez piada de mim pro Thiago que observava a cena de lado. “Além de peluda, sua bunda também é molenga”. Os dois riram e eu, vermelha e surpresa, nem lembrei de piscar, o que me levaria ao choro. Nessa hora, nem era mais por vergonha, era por me sentir um lixo. Sai correndo em direção ao banheiro sem olhar pra ninguém.

Paula, 23 anos.

Eu nasci assim. Desde pequena sei o que é bom. Já me masturbava com cinco anos. Eu não sei, mas sabia que lá era gostoso. Dependia do jeito. Lembro de uma vez, eu devia ter entre 4 e 5, o primo veio dormir aqui em casa e desejei fazer dele meu namorado. Ficamos nos esfregando atrás da porta. Não me pergunte com quem eu aprendi, se a televisão quem me ensinou. Só sei que cresci descobrindo mil jeitos de fazer a coisa melhorar. Primeiro foi na cama, na beirada do colchão. Era só manter o movimento continuo que, eu juro por Deus, já gozava. Fui ali colecionando orgasmos até que minha mãe percebeu e teve uma conversa comigo. Na visão cristã dela, isso pertencia ao casamento e deveria ser feito pelo marido e não por mim. Era pecado. Mas aí eu descobri o sofá e o travesseiro, e dava certo com a mão também. Descobri o massageador que vibrava, quando ninguém estava olhando, fui lá testar. Foi incrível, senti orgasmo até na garganta. Porém, minha mãe descobriu, eu sei lá como. Dessa vez apanhei e prometi nunca mais fazer. Até que veio a puberdade, e quando eu assistia um beijo em alguma novela, filme, isso me excitava a níveis extremos. Descobri o chuveirinho do banheiro. Era a única solução, aquele jatos em gotículas massageando até o orgasmo. Mas, foi essa semana que eu fui entender o motivo desse fogo do caralho. Minha mãe contou sobre como meu avô me tocava e como ela tentou evitar que isso acontecesse. Eu era muito pequena pra lembrar, mas ela lamenta aquilo ter despertado tamanha necessidade sexual em mim. Eu achava que era ninfomaníaca, mas não, foi só abuso.

Anna, 32 anos.

Foi numa época da minha vida que já tá muito no passado. É, eu já consigo dizer que faz um tempão e com orgulho! Mas na época, bebia demais, mas eu não sei beber, nunca soube. Já faz quatro anos e meio que eu não tomo uma gota de álcool. Mas enfim, eu fui com uma amiga da facul pro litoral, era carnaval e eu tinha grana pra dividir gasolina e o que mais precisasse. Lugar legal, galera linda. Piazada caiu matando. E eu, tonga, achei maravilhoso. Churrasquinho e caipira até começar os fiascos. Bebi até perder a noção. Lembro de ir ao banheiro vomitar e depois procurei em um dos quartos uma cama pra dormir. Só precisava descansar um pouquinho. Acordei com alguém metendo em mim e eu bêbada o suficiente pra não conseguir ver quem era naquela escuridão e não bêbada o suficiente pra sentir uma vergonha terrível e uma incapacidade de gritar. Foi uma sensação horrível, deu um nó na garganta, fingi estar gostando pra não ter que acordar no dia seguinte pensando em estupro. Eu conhecia todos ali apenas superficialmente, fiquei com medo do que mais poderiam fazer. Fui embora no dia seguinte e não contei nada pra ninguém. Até dividir isso lá no AA, lá a terapeuta me explicou que aquilo era estupro.

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Vida comum parte 1 0 129

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Uma tentativa de eternidade 0 670

Estas linhas são sobre o momento em que o sol se lançou corajoso no abismo do horizonte de ontem. Carregava consigo a invejável certeza de que teria forças para regressar pelo lado de lá. É sobretudo uma daquelas tentativas de promover o efêmero à eternidade –  com algo de poesia.

Um olhar descolorido poderia até dizer que o sol sequer saiu do lugar, que nós é que feito mariposas ofuscadas giramos em torno da lâmpada, sem nos importarmos com um pra-onde-ir.

Verdade é que nunca nos preocupamos com as coisas como de fato são. Queremos apenas classificá-las de acordo com nossas percepções. Se sentei aqui, foi para escrever sobre o que senti ao ser tragado pelo vazio da noite de ontem, que sequer-um-abraço.

Em momento algum nos deixamos avisar pela vida sobre o que ela pretende de nós. Se nos detemos diante do orvalho na flor, é pela nossa necessidade de um suspiro n’alma. Queremos o sorriso da criança para o nosso deleite. Não nos importamos com a felicidade que ali brotou.

Sentimos o mundo à nossa disposição, sem nos darmos conta de que somos apenas mais uma alegoria na beleza de uma grandiosidade que nos foge à compreensão. Algo que já foi Deus. Que hoje é mistério. E que amanhã estará passível de uma nova interpretação.

Algo que tentaremos eternizar, com a mesma eficácia com que buscamos absorver a vida que nos envolve por esses dias em que a noite absorve o sol. E que passam. Um a um.

texto: Rafael Antunes
colagem: Katia Villagra