Culpa delas 0 612

Letícia, 13 anos.

A gente era colega de turma. Não éramos próximos. Não tínhamos nenhuma relação, ainda mais porque ele era novo na turma, tinha vindo de uma escola qualquer. Estávamos na aula de matemática, resolvendo exercícios como de costume. Eu estava com um grupo de amigas sentadas no chão, conversando e resolvendo os exercícios até que senti um encostar. A princípio achei que era um toque “normal”, “sem querer”, é de se esperar em um sala cheia de alunos. Minhas amigas que conversavam ao meu redor percebendo a cena e pararam de falar. Olhei pra trás e o Eduardo, aquele otário, que até o momento só tinha parado a mão na minha bunda foi em frente e apertou. Eu me virei e encarei ele, estava mais que nervosa, comecei a sentir meu corpo ferver, certeza que meu rosto deve ter ficado rubro na hora. Quando me virei, o babaca ainda fez piada de mim pro Thiago que observava a cena de lado. “Além de peluda, sua bunda também é molenga”. Os dois riram e eu, vermelha e surpresa, nem lembrei de piscar, o que me levaria ao choro. Nessa hora, nem era mais por vergonha, era por me sentir um lixo. Sai correndo em direção ao banheiro sem olhar pra ninguém.

Paula, 23 anos.

Eu nasci assim. Desde pequena sei o que é bom. Já me masturbava com cinco anos. Eu não sei, mas sabia que lá era gostoso. Dependia do jeito. Lembro de uma vez, eu devia ter entre 4 e 5, o primo veio dormir aqui em casa e desejei fazer dele meu namorado. Ficamos nos esfregando atrás da porta. Não me pergunte com quem eu aprendi, se a televisão quem me ensinou. Só sei que cresci descobrindo mil jeitos de fazer a coisa melhorar. Primeiro foi na cama, na beirada do colchão. Era só manter o movimento continuo que, eu juro por Deus, já gozava. Fui ali colecionando orgasmos até que minha mãe percebeu e teve uma conversa comigo. Na visão cristã dela, isso pertencia ao casamento e deveria ser feito pelo marido e não por mim. Era pecado. Mas aí eu descobri o sofá e o travesseiro, e dava certo com a mão também. Descobri o massageador que vibrava, quando ninguém estava olhando, fui lá testar. Foi incrível, senti orgasmo até na garganta. Porém, minha mãe descobriu, eu sei lá como. Dessa vez apanhei e prometi nunca mais fazer. Até que veio a puberdade, e quando eu assistia um beijo em alguma novela, filme, isso me excitava a níveis extremos. Descobri o chuveirinho do banheiro. Era a única solução, aquele jatos em gotículas massageando até o orgasmo. Mas, foi essa semana que eu fui entender o motivo desse fogo do caralho. Minha mãe contou sobre como meu avô me tocava e como ela tentou evitar que isso acontecesse. Eu era muito pequena pra lembrar, mas ela lamenta aquilo ter despertado tamanha necessidade sexual em mim. Eu achava que era ninfomaníaca, mas não, foi só abuso.

Anna, 32 anos.

Foi numa época da minha vida que já tá muito no passado. É, eu já consigo dizer que faz um tempão e com orgulho! Mas na época, bebia demais, mas eu não sei beber, nunca soube. Já faz quatro anos e meio que eu não tomo uma gota de álcool. Mas enfim, eu fui com uma amiga da facul pro litoral, era carnaval e eu tinha grana pra dividir gasolina e o que mais precisasse. Lugar legal, galera linda. Piazada caiu matando. E eu, tonga, achei maravilhoso. Churrasquinho e caipira até começar os fiascos. Bebi até perder a noção. Lembro de ir ao banheiro vomitar e depois procurei em um dos quartos uma cama pra dormir. Só precisava descansar um pouquinho. Acordei com alguém metendo em mim e eu bêbada o suficiente pra não conseguir ver quem era naquela escuridão e não bêbada o suficiente pra sentir uma vergonha terrível e uma incapacidade de gritar. Foi uma sensação horrível, deu um nó na garganta, fingi estar gostando pra não ter que acordar no dia seguinte pensando em estupro. Eu conhecia todos ali apenas superficialmente, fiquei com medo do que mais poderiam fazer. Fui embora no dia seguinte e não contei nada pra ninguém. Até dividir isso lá no AA, lá a terapeuta me explicou que aquilo era estupro.

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Dai-me Amor 0 364

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 481

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.