Culpa delas 0 348

Letícia, 13 anos.

A gente era colega de turma. Não éramos próximos. Não tínhamos nenhuma relação, ainda mais porque ele era novo na turma, tinha vindo de uma escola qualquer. Estávamos na aula de matemática, resolvendo exercícios como de costume. Eu estava com um grupo de amigas sentadas no chão, conversando e resolvendo os exercícios até que senti um encostar. A princípio achei que era um toque “normal”, “sem querer”, é de se esperar em um sala cheia de alunos. Minhas amigas que conversavam ao meu redor percebendo a cena e pararam de falar. Olhei pra trás e o Eduardo, aquele otário, que até o momento só tinha parado a mão na minha bunda foi em frente e apertou. Eu me virei e encarei ele, estava mais que nervosa, comecei a sentir meu corpo ferver, certeza que meu rosto deve ter ficado rubro na hora. Quando me virei, o babaca ainda fez piada de mim pro Thiago que observava a cena de lado. “Além de peluda, sua bunda também é molenga”. Os dois riram e eu, vermelha e surpresa, nem lembrei de piscar, o que me levaria ao choro. Nessa hora, nem era mais por vergonha, era por me sentir um lixo. Sai correndo em direção ao banheiro sem olhar pra ninguém.

Paula, 23 anos.

Eu nasci assim. Desde pequena sei o que é bom. Já me masturbava com cinco anos. Eu não sei, mas sabia que lá era gostoso. Dependia do jeito. Lembro de uma vez, eu devia ter entre 4 e 5, o primo veio dormir aqui em casa e desejei fazer dele meu namorado. Ficamos nos esfregando atrás da porta. Não me pergunte com quem eu aprendi, se a televisão quem me ensinou. Só sei que cresci descobrindo mil jeitos de fazer a coisa melhorar. Primeiro foi na cama, na beirada do colchão. Era só manter o movimento continuo que, eu juro por Deus, já gozava. Fui ali colecionando orgasmos até que minha mãe percebeu e teve uma conversa comigo. Na visão cristã dela, isso pertencia ao casamento e deveria ser feito pelo marido e não por mim. Era pecado. Mas aí eu descobri o sofá e o travesseiro, e dava certo com a mão também. Descobri o massageador que vibrava, quando ninguém estava olhando, fui lá testar. Foi incrível, senti orgasmo até na garganta. Porém, minha mãe descobriu, eu sei lá como. Dessa vez apanhei e prometi nunca mais fazer. Até que veio a puberdade, e quando eu assistia um beijo em alguma novela, filme, isso me excitava a níveis extremos. Descobri o chuveirinho do banheiro. Era a única solução, aquele jatos em gotículas massageando até o orgasmo. Mas, foi essa semana que eu fui entender o motivo desse fogo do caralho. Minha mãe contou sobre como meu avô me tocava e como ela tentou evitar que isso acontecesse. Eu era muito pequena pra lembrar, mas ela lamenta aquilo ter despertado tamanha necessidade sexual em mim. Eu achava que era ninfomaníaca, mas não, foi só abuso.

Anna, 32 anos.

Foi numa época da minha vida que já tá muito no passado. É, eu já consigo dizer que faz um tempão e com orgulho! Mas na época, bebia demais, mas eu não sei beber, nunca soube. Já faz quatro anos e meio que eu não tomo uma gota de álcool. Mas enfim, eu fui com uma amiga da facul pro litoral, era carnaval e eu tinha grana pra dividir gasolina e o que mais precisasse. Lugar legal, galera linda. Piazada caiu matando. E eu, tonga, achei maravilhoso. Churrasquinho e caipira até começar os fiascos. Bebi até perder a noção. Lembro de ir ao banheiro vomitar e depois procurei em um dos quartos uma cama pra dormir. Só precisava descansar um pouquinho. Acordei com alguém metendo em mim e eu bêbada o suficiente pra não conseguir ver quem era naquela escuridão e não bêbada o suficiente pra sentir uma vergonha terrível e uma incapacidade de gritar. Foi uma sensação horrível, deu um nó na garganta, fingi estar gostando pra não ter que acordar no dia seguinte pensando em estupro. Eu conhecia todos ali apenas superficialmente, fiquei com medo do que mais poderiam fazer. Fui embora no dia seguinte e não contei nada pra ninguém. Até dividir isso lá no AA, lá a terapeuta me explicou que aquilo era estupro.

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Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”