Festa 1 513

Postado por Marco Antonio, o da auto sabotagem

Casamento coletivo em cartório de Curitiba. Duas das noivas conspiram entre si sobre o futuro. Planos provavelmente impublicáveis. Talvez não. Elas mantêm as aparências durante o evento de comemoração, que ocorre em uma churrascaria de preço honesto localizada em uma rodovia, “mas amanhã há de ser outro dia”, como de fato será.

Trocam olhares durante o jantar. Olhares maliciosos, funestos. Algumas lágrimas falsas, que lembram antes um rio de veneno que um sinal de contentamento extremo, escorrem dos olhos das moças. Os agora maridos estão obviamente envenenados.

Música, dança, banda de qualidade questionável, perspectiva de ressaca, brincadeiras com e sem graça, taças erguidas, buquês jogados, crianças adormecendo pelos cantos. As conspiradoras conversam no banheiro, acertando detalhes, repetindo algumas palavras que não entendo a esta distância. Talvez seja algum tipo de mantra. Nuvens sujam o céu da noite em pouco menos de vinte minutos. A chuva começa a cair, de forma crescentemente brutal. Estamos todos presos dentro do salão. Sinto vontade de ir embora e cheiro de perigo no ar.

 

Previous ArticleNext Article

1 Comment

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Distante das Linhas de Nazca 0 1014

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 836

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski