Estrangeiro 0 584

escrito por Petrini, o que vem de fora.

Uma hora se passa desde os brindes e os “feliz ano novo” que recebo de gente que mal conheço, e que não sentiria a minha falta. Com reciprocidade. A não ser minha branquinha, que se longe, logo estaria pendurada ao telefone, aguardando a telefonista completar a ligação para o meu telemóvel. É óbvio que a funcionária confraterniza com as colegas, também de plantão, enquanto deixa as pequenas apaixonadas aguardando na linha. Devem até mesmo ficar zombando dos corações separados que insistem em dar o alô nas primeiras horas do novo dia do novo ano. Como se não restassem todas as outras 23 horas e muitos minutos do mesmo dia pela frente.

Lá fora a chuva faz sua festa com o vento, assobiando, se pendurando nas árvores, levantando os vestidos brancos, agora transparentes, das moças despreparadas. A fanfarra parece divertir a natureza. Não que ela saiba que hoje é feriado, porque senão seria capaz de também exigir seu dia de folga remunerada e ir para o norte do mundo encontrar a neve, sua prima distante. Não é o caso.

Aos poucos o alvoroço lá fora vai diminuindo até que esvanece, dando lugar aos alto-falantes dos pelegos com gosto duvidoso que passam em frente à casa. Olho desinteressado pela janela, com uma mão no bolso e a outra segurando uma taça de espumante azedo demais para o meu paladar. Os automóveis continuam a passar com o som muito mais elevado do que o necessário, e isso só reforça a minha óbvia constatação de que bom gosto não é um artigo vendido nas lojas de R$1,99. Uma pena. É uma sensação bem estranha quando você se dá conta de que pequenas coisas tornariam o convívio da humanidade muito mais fácil, se fossem simplesmente vendidas em lojas populares. O sujeito entraria no galpão, pediria ajuda à moça de uniforme, e iria até a prateleira que ela indicasse para escolher sua dose de bom gosto. O rótulo viria com uma advertência escrita em letras milimétricas que nunca seriam lidas: “Pode provocar leves sensações de infelicidade e insatisfação com o mundo”, e o vidro seria colocado na sacola, junto com o material escolar das crianças até chegar ao caixa. “Aceita o troco em bala?”, perguntaria o funcionário atrás do balcão, e antes que o sujeito pudesse responder, um de seus filhos já teria pego a bala, dando a palavra final. Chega a ser meio patético uma sociedade que se diz capitalista não conseguir vender uma simples dose de bom gosto.

Meu raciocínio é interrompido por uma miniatura de cachorro que passa correndo por cima dos meus pés, assustado com os fogos que explodem lá fora. Dou um salto para trás, sem saber se aquela mancha escura era um rato ou um desses brinquedos eletrônicos enfeitiçados. Olho para o lado e vejo a dona da casa pegando a bolinha de pelos no colo e fazendo de ninar, como a um bebê. Depressão. Mais fogos estouram, e me salvam de escutar o mamanhês que ela usa pra tranquilizar o animal, agora mais gente que muita gente. Alguém, por favor, pode arrumar uma dose dupla de sanidade a esta senhora?

Volto a olhar pra fora, porque sei que a madame está prestes a beijar o focinho do cão, o mesmo focinho que ele usou para cheirar o traseiro de seus companheiros, e conhecer o mundo. Avisto um casal caminhando sem pressa, lado a lado, se encostando de vez em quando, descobrindo a mão, cintura e cabelo um do outro, meio na brincadeira, meio no desejo. Eles param e posso observar o ritual, que segue meio constrangido, testando os limites que o outro vai impor. Ele aponta para praia, mostrando o horizonte e as estrelas que vão surgindo, tentando criar um clima romântico aos moldes do cinema. Agora está claro que não são um casal, mas estão no flerte para se tornarem um. Eles param e se olham. Parece ser aqueles segundos eternos que precedem o primeiro beijo dos casais. Eu sei que não passaram mais de três segundos em que um ficou olhando no olho do outro, mas para eles o tempo parou por horas, até o instante em que o rapaz faz o que se esperaria de um homem: beija a moça com toda a vontade que jazia adormecida dentro de si, esperando não menos que o mesmo da parte dela. Mas “E se eu a beijar e ela não gostar? E se ela só me quer como amigo? Eu vou estragar tudo?”, deve ter pensado antes de agir, torcendo para estar errado e ela retribuir com os braços ao redor de seu pescoço, naquela troca de salivas inútil biologicamente, mas carregada de valores sociais. E ela não reage. Fica parada, de olhos abertos sendo beijada pelo antes amigo, e agora sabe-se lá o quê. Age como a uma garrafa de cerveja longneck, se deixando sorver sem mostrar uma gota de paixão. Ele para, atormentado pelo constrangimento do beijo não correspondido, e o medo daquilo que virá. Diz algumas coisas desconsertado, sem saber onde colocar as mãos, desviando o olhar, querendo voltar atrás naquilo que parece um misto de arrependimento e raiva, enquanto ela permanece petrificada, olhando-o anestesiada pela própria falta de emoções. Sabe-se lá o que se passa em sua cabeça. E que belo jeito de começar o ano, heim companheiro? Deve estar torcendo para que a tempestade volte e lave a vergonha de sua face, ou que um raio atravesse sua ainda amada, mas não mais amante. O amor é mesmo… “Perdido aí na janela, amor?”, ouço da voz carinhosa que vem se aproximando do meu ombro.

Fecho os olhos e vejo, ainda como um espectador alheio à situação, a cena da princesa me abraçando. Meu olfato se alegra com o perfume levemente adocicado, criado sob medida para seu vestido tomara-que-caia branco. O brinco azul pendurado orna com a correntinha e o pingente de coração que lhe dei. “Para me carregar sempre junto”, lhe disse àquela época. Mas no fundo hoje sei que sou eu quem a carrega sempre junto, em cada lembrança que chega sem avisar, a cada fio de cabelo que acho perdido em meu carro, e a cada vez que sinto seu perfume em meu travesseiro. Acabo por perceber que uma gota de perfume vale mais do que um pingo de ouro.

Viro e abro os olhos, como a permitir que aquela imagem se realize, e fico feliz em perceber que minha imaginação não é suficiente para criar tanta beleza. Lá está ela, com os braços ao redor do meu pescoço, o sorriso apaixonado e o já habitual brilho nos olhos. E lá estou eu, naqueles segundos, também eternos, que precedem os beijos dos casais enamorados. Aqueles segundos que me fizeram esquecer o zoológico correndo aqui dentro, e o quase-casal sob a tempestade lá fora. Eu poderia ficar horas petrificado admirando a manchinha em seu olho direito, com os braços ao redor de sua cintura fazendo a contagem mental de suas 526 sardas, ouvindo músicas que só tocavam na minha cabeça, mas faço o que se espera de qualquer pessoa embebida de paixão. Beijo minha princesa como da primeira vez, e naquele momento ela sabe que um dia será minha rainha.

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Distante das Linhas de Nazca 0 963

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 776

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski