Barbieng, o ex-estagiário 0 533

Por Henrique Schaefer

 

-Bom dia gurizada!

É Barbieng, ao sentar em sua mesa, exasperado de felicidade por começar suas tarefas. Eu não sei porque esse cara dá bom dia pra gente. Fingido, exalando sorrisos gratuitos. ’Tá na cara que é fake, pô!’. Passa um dos chefes e ele:

-Bom dia chefinho.

Porra, ainda vou quebrar a cara desse babaca. Em seguida passa o gerente, e Barbieng:

-Oi Frieger, bela gravata!

Não acredito, eu mereço…quem aguenta esse lambe trolha? E agora ele conseguiu o que queria, não divide mais mesa com os estagiários. Está se sentindo o arquiteto. ‘Quer ver que nem vai mais dar bom dia pra gente?’

-Bom dia gurizada!

É, o cara é mais meticuloso do que eu imaginava. E não tem limites nas suas lambidas:

-Nossa, Roxanna, você emagreceu? Está mais bonita!

Bem, ela é uma velha escrota que ninguém sabe o que faz na empresa. E agora está com a face ruborizada, constrangida de prazer. ‘Senhor, me poupe de ver essas obscenidades, por favor.’

Essa semana termina o contrato de estágio de Barbieng: ou é contratado ou olho da rua. Espero que o bom senso vença. Segunda-feira, 7:30 e ele, pra não perder o costume:

-Bom dia gurizada!

O chefe direto do Barbieng resolve contar uma piada. Vocês conhecem a piada do português que perdeu a bota na selva brasileira, etc.

-HAHAHAHAHA. HAHAHAHAH. Chefinho, essa foi de matar… Bela camisa, hein?!

Tão de matar que só você está rindo, sua aberração! E ainda emenda essa da camisa? Acho que dessa vez ele se queimou.

Passada a semana, sexta feira, ‘Parabéns, Barbieng, agora você é arquiteto.’ Ele ignora o meu falso elogio. Não dá mais bom dia. Logo em seguida, o meu contrato de estágio termina. Estou livre e dispensado.

 

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Distante das Linhas de Nazca 0 968

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 782

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski