Reino do medo 1 749

Filhas, freelas, pilhas, baterias, tomadas, adaptadores. Filas, milhas, cedilhas, centelhas, centeio, seus campos. Um mambo, uma bossa, as apostas, a amostra de produtos grátis. O táxi que não chega. A grande tradição grega. A Grécia, a Suécia, a Polinésia, a anestesia local, geral, do corpo, na alma.

O mal, a corda bamba, um samba torto, o extintor, o computador, a humanidade em geral. Os anos que passam, a raiva que dá origem às revoltas, a revolução que acontece e a grande, que não, a falta de pão, o caixão, o caixote e o prego que prega o corrimão. O skate e o cifrão. Os processos e seu ideário suspeito de otimização. As palavras e todos os campos de definição de termos, as termas, as saunas do centro, todos os que estão lá dentro, os cantos escuros, o chão preservado, a história de cada lugar. E essa calçada, vem de onde e é de quê? E que interesse que há?

A cifra, a tablatura, a partitura, a parte um e a parte dois. As outras que virão depois.

O relógio, o horário, o itinerário, o rito funerário, a viagem de férias, a praia, as estrelas e toda a matéria, o metrô que é só projeto, o teto e o chão. O primo e o irmão. A prisão que não desencadeia reação. Os tempos que morreram, os que morrem a cada momento e os outros, que morrerão (estes, ao relento).

O fugaz, o rei, a rainha, o nove de copas e o ás.

No reino do medo há falta de paz, que nele não passa de uma promessa furada, ou seja, daquelas mais comuns, que rapidamente ficam para trás.

Meu Deus: o Senhor sabe que eles amam a si próprios com intensidade maior que a do amor dos Seus! Os egos inflados, o que não é explicado, a falta de vontade de entender, a tevê, a piada do pavê, o desconforto, quem é absorvido e nunca descobre que está, assim, morto: há falta de paz.

Somos do mesmo que tudo? Areia, sangue, céu, neve, sonho, papel, o entrave, o sempre, o engov?

A busca pela saúde, os grãos da moda, as sempre-mais-longas-que-o-necessário discussões sobre as propriedades benéficas ou não do café, do vinho, do ovo, da margarina, da soja, das proteínas, da cerveja, das vitaminas do momento, os biquínis, as bermudas (ou as sungas?), e os ventos. A compreensão plena, a noite serena, algumas cenas, alguns poemas, as vidas pequenas e os planos banais.

A falta de paz, a falta de paz.

Os discursos corporativos e as paredes que com eles se estreitam. As outras paredes estreitas. Além, é claro, dos caminhos secretos, dos segredos, das nuances da vida, das chances perdidas, dos romances doídos, das perguntas vazias, das respostas vagas, do que é pouco interessante: desde o vídeo da infância até as discussões sobre os ou as amantes. As famílias felizes, os turistas perdidos e tudo o mais.

A falta de paz. A falta de paz.

Marco Antonio Santos

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a mente enquanto objeto quebradiço 0 1771

I

 

a noite aqui fora tá um pouco opressiva, graças ao bafo úmido que levanta do asfalto depois dessas chuvas de verão. passa pouco das oito da noite e eu mando um zap pra Cíntia, ver se ela precisa de algo em casa. “Traz um pão de azeite de oliva pra mim”, ela pede num áudio. quase envio uma mensagem perguntando onde encontrar um negócio tão específico, mas assim que olho pra frente me deparo com um local metido a besta, o típico estabelecimento que venderia pão de azeite de oliva. nunca vi esse prédio. entro, o lugar é descolado, projetado pra ricos moderninhos. uma espécie de galpão abandonado, de pé direito alto e arquitetura estranha, com várias lojas e restaurantes que ficam nas paredes, pelas quais o cliente passeia usando rampas. roupas, massas, eletrônicos, brinquedos artesanais. tipo um shopping pra quem quer se sentir integrado à região mas sem correr riscos.

um conjunto formado por vozes masculinas e femininas, flautas e percussões está distribuida ao longo do térreo e toca uma música em tom menor, bem bonita, lindíssima. é emocionante. choro um pouquinho e sinto uma vontade inexplicável de comprar romãs. peço por romãs, não as encontro, mas de rolê pelo galpão sou abordado por uma senhora, sentada num café afetado. “Psiu. Você quer romãs? Eu sei onde tem”, ela fala, feito gato, e me estica um cartão pessoal com nome que nem leio. “Lá perto de casa as romãzeiras estão carregadíssimas”, mia. sorri.

 

II

 

quando noto, estou descendo de um carro. percurso curto, que rua é essa? a velha me convence a entrar na casa porque precisa avisar qualquer coisa pra filha antes de me mostrar onde acho romãs. ela tem um desenho excêntrico, me deixa confuso, como se um sorrisinho malicioso estivesse grudado pra sempre em um rosto antigo e marcado por muitas mudanças. o cabelo platinado, quase branco. ela começa a falar estranho comigo, “Nossa, você é muito lindinho”, pergunta meu nome, respondo “Paulo. Paulo Braga”. meu nome não é Paulo e meu sobrenome não é Braga e eu não entendo mais o que estou fazendo. a senhora me pede licença e sai do cômodo e nisso a filha entra. igual, mas o cabelo é preto e o rosto é jovem. começa a fazer perguntas inúteis, ela também fala miando. “De onde você é?”, questiona, respondo “Minas”, mas eu não sou de Minas. “Ai, que fofo! Que bom que você vai vir pra cá, passar sotaque pra minha mãe”.

vir pra cá? passar sotaque? do que essa moça tá falando? explico que na verdade sou gaúcho, de Pelotas, e nada muda na dinâmica da conversa. tento me distrair pensando em quando vou finalmente comer as romãs, mas o cômodo tem um ar estranho, um perfume me sufoca e confunde. enquanto a jovem mia bobagens e amenidades, tiro o celular do bolso e jogo no Google o nome da coroa, que copiei do cartão. nome diferente, nunca li nada assim. “Que línguas você fala?”, ela, “Inglês e espanhol”, eu, “Ótimo, mamãe fala muitas outras, já podem viajar bastante”. o clima não tá legal, eu não quero viajar com ninguém, eu fico tenso, o 4G não funciona direito. “Mamãe teve vários homens mas nenhum nunca deu certo. Acho que nenhum estava realmente pronto, sabe? E sempre acabam sumindo, hehe”.

 

III

 

fito a tela. a busca está completa. leio os resultados.

 

travo.

congelo.

 

IV

 

reúno forças e levanto e percebo a velha de volta ao quarto. sorrisinho, vestido e véu vermelho-sangue, quase flutua. penso em correr, mas um miado calmo soa como se viesse por toda parte, formando palavras que mais soam como portas que se fecham.

 

“Aonde é que você pensa que vai? Você fica. Você não vai a lugar nenhum”.

 

 

 

 

 

texto do Rômulo Candal

visual do Marco Antonio

Ressaca 0 1110

Dilmara deu a última vassourada que cabia em suas forças e sentou numa cadeira de plástico, secou uma garrafinha de água em dois goles e já largou o lixo na pilha. Não era o caso de negar fogo no trabalho, só que precisava soltar as pernas antes de pegar a pá e seguir. O conflito com o chão foi longo, cheio de desentendimentos por coisas pequenas. Mas ela bem sabia que as costas não aguentavam mais algumas acrobacias do passado. Atleta, reclamava para si por amor ao esporte, sabendo que não adiantava, mas reclamava e reclamava e reclamava. Pegou um formulário de cima da mesa em frente e uma caneta promocional: “Danos às paredes: s”, “Resíduos f/ lixeiras: s”, “Chão riscado: s, “parte elétrica 100%: n (duas lâmp’s), “Louça na pia: s”, “Barulho depois das 22h: s (relato – Reginaldo/108)”. Sabia do tamanho da bomba que tinha em mãos, até soltou o papel e afastou o tronco de braços erguidos. Seria emissária de notícias desagradáveis contra sua vontade, depois quem pudesse que se salvasse. Mas alguém tinha que fazer o serviço.

O síndico, o Professor, professor de verdade (Educação Física), era um carequinha solitário, cheio de dedos com a manutenção dos espaços comuns – o que se devia a ser ao mesmo tempo um sujeito: decente; chato.

Uma ventania dominou o salão, as janelas tremeram e afinaram-se numa oitava muito alta. A zeladora pôs os pés no chão e sentou direito, sentindo coisa ruim. O Professor apareceu no rabo da lufada: “E aí? Te falei que a Administradora liberou uma comissão pra você se a gente multar esses porcos, né?”, “Não quero dinheiro sujo não, Professor, só tô na minha função de todo dia, com zona ou não. Mas que festa era essa? Trinta pessoas? Bagunça dessa não se faz”.

O homem vestiu sua satisfação como uma medalha, auto-condecorado pelo sucesso de uma missão que só ele entendia. Sentia-se um justiçador, o último dos cangaceiros, o cara que era o bichão, a própria Palas Atena renascida – o que nunca tinha conseguido por outros caminhos. Via-se disposto a fazer o máximo com o mínimo, a tirar limonada de qualquer limãozinho murcho que a vida despejasse na cestinha dele. Perdoar morador malandro de novo seria uma vergonha. Sacou o celular depois de um piiiiin que veio como flecha: “Sabia que a Claro eh a 1a a oferecer ligações ilimitadas p/ qq operadora e tem uma rede novinha c/ 4G mais rápido do Brasil? E ai ta dentro? Acesse …”. Não teve dúvida: fechou a cara, simulou falta e pediu pra sair, tratando a mensagem com uma importância que ela jamais teria. Acenou tchau de um jeitão muito estranho e deslizou para fora do salão com a mesma atitude súbita com que chegou. A mulher fechou as janelas e juntou com os pés umas latinhas que o vento desjuntou; pegou um sacolão azul e fez um sinal da cruz antes de continuar.

 

Marquinho