Tudo é sempre um tanto 0 659

por Rafael

Às 2:42 da manhã H. dormia e sonhava com coisas que ainda levará anos para decifrar. A recorrente tortura de se deparar com um medo qualquer e tentar fugir em uma disparada que nunca acontece. Escorrega, derrapa, até que acorda ofegante e se acalma para voltar a dormir. Mas desta vez a tentativa-de-correr foi interrompida pelo vibrar de uma mensagem de texto em seu telefone celular. Era Mariana.

“Ta aí?”,  como houvesse a possibilidade de uma resposta negativa.

“Oi. Agora sim. O que acontece?”

“Sonhei com tudo aquilo de volta”, Mariana também tinha suas recorrências em forma de sonhos.

“E como vc ta se sentindo?”, H. sempre colocou os sentimentos de Mariana à frente dos próprios.

“Não sei. Eh tudo tão estranho. Não sei separar o que eh realidade do que são símbolos. Representações”.

“Nossa vida é um eterno atribuir de significados, não?”, H. é objetivo ao acordar e poético ao adormecer.

“Pode ser. Talvez seja por isso que eu goste tanto de ouvir meu coração. Acho que todo mundo deveria ter um estetoscópio”, traduzia Mariana, sempre tendendo à poesia.

O que distanciava H. de Mariana durante o dia era a ânsia de ouvir os barulhos do universo, quando esquecemos de ouvir os nossos próprios sons. Do que somos. Dos nossos mundos. Era quase-sempre-um-em-cada-extremo.

“Tudo é sempre um tanto do que interpretamos. Nada é simplesmente o que é.”

“Por isso, vc é o mundo. ”, mandou novamente H., antes que Mariana respondesse.

Ela sorriu.

“Eu sou a falta de palavras, agora. E um sorriso quilométrico.”

Ele sorriu.

“Acho que ele acaba de passar por aqui.”

Sorriram juntos.

“De tanto estar, acabamos sendo”, já não importa quem escreveu.

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Navegador de sonhos 0 3388

O começo do sempre foi com muita chuva, em um porão escuro onde sua pele brilhava e seus olhos ardiam, pedindo que fossem fechados para dar passagem aos sonhos que abriríamos juntos. Não era exatamente o que se imagina para esse tipo de história, que merece uma noite de verão com o céu limpo, estrelas brilhantes e lua cheia, mas os sonhos são feitos mais de sentimentos sinceros do que de cenários bonitos.

Conheci a Laura ao mesmo tempo em que descobri o amor. Sem fazer planos, acabei sendo apresentado a mim mesmo, em uma espiral de autoconhecimento levado pela sua mão com doçura. Com ela pude ser eu, e esse é provavelmente um dos melhores presentes que se pode receber de alguém. Juntos, começamos uma vida de aventuras para dentro de nós mesmos, desbravando essa loucura que é sonhar.

À noite nosso quarto tem som de mar. Uma poesia colorida em meio a tanto cinza. Faz com que o navegar pela cama enorme seja leve, e cada encontrar do outro traga a alegria de atracar em um porto seguro. A Laura sempre foi o meu refúgio, e isso deve ter alguma coisa a ver com aquecimento global porque eu sempre fui quente, e ela, sempre o meu mundo. Juntos, pulávamos entre calotas polares, aquecendo nossos pés e criando novas formas de vida. De viver. De sonhar. De ser. Juntos, éramos.

A Laura me apanhou pelo estômago. Não com a comida, mas com o comichão. Minha voz fraquejava um pouquinho a cada vez que, tenso, ligava para chamá-la ao cinema, ao bar, e depois quando lhe propus criarmos nosso próprio lar. O fraquejar sempre me foi uma bússola que apontava a direção do sonho. E sempre me levou até ela, em qualquer lugar ou fuso do mundo. Fraquejando, sonhei com o sempre. Em uma noite com muita chuva, remei para o sonho.

a mente enquanto objeto quebradiço 0 1821

I

 

a noite aqui fora tá um pouco opressiva, graças ao bafo úmido que levanta do asfalto depois dessas chuvas de verão. passa pouco das oito da noite e eu mando um zap pra Cíntia, ver se ela precisa de algo em casa. “Traz um pão de azeite de oliva pra mim”, ela pede num áudio. quase envio uma mensagem perguntando onde encontrar um negócio tão específico, mas assim que olho pra frente me deparo com um local metido a besta, o típico estabelecimento que venderia pão de azeite de oliva. nunca vi esse prédio. entro, o lugar é descolado, projetado pra ricos moderninhos. uma espécie de galpão abandonado, de pé direito alto e arquitetura estranha, com várias lojas e restaurantes que ficam nas paredes, pelas quais o cliente passeia usando rampas. roupas, massas, eletrônicos, brinquedos artesanais. tipo um shopping pra quem quer se sentir integrado à região mas sem correr riscos.

um conjunto formado por vozes masculinas e femininas, flautas e percussões está distribuida ao longo do térreo e toca uma música em tom menor, bem bonita, lindíssima. é emocionante. choro um pouquinho e sinto uma vontade inexplicável de comprar romãs. peço por romãs, não as encontro, mas de rolê pelo galpão sou abordado por uma senhora, sentada num café afetado. “Psiu. Você quer romãs? Eu sei onde tem”, ela fala, feito gato, e me estica um cartão pessoal com nome que nem leio. “Lá perto de casa as romãzeiras estão carregadíssimas”, mia. sorri.

 

II

 

quando noto, estou descendo de um carro. percurso curto, que rua é essa? a velha me convence a entrar na casa porque precisa avisar qualquer coisa pra filha antes de me mostrar onde acho romãs. ela tem um desenho excêntrico, me deixa confuso, como se um sorrisinho malicioso estivesse grudado pra sempre em um rosto antigo e marcado por muitas mudanças. o cabelo platinado, quase branco. ela começa a falar estranho comigo, “Nossa, você é muito lindinho”, pergunta meu nome, respondo “Paulo. Paulo Braga”. meu nome não é Paulo e meu sobrenome não é Braga e eu não entendo mais o que estou fazendo. a senhora me pede licença e sai do cômodo e nisso a filha entra. igual, mas o cabelo é preto e o rosto é jovem. começa a fazer perguntas inúteis, ela também fala miando. “De onde você é?”, questiona, respondo “Minas”, mas eu não sou de Minas. “Ai, que fofo! Que bom que você vai vir pra cá, passar sotaque pra minha mãe”.

vir pra cá? passar sotaque? do que essa moça tá falando? explico que na verdade sou gaúcho, de Pelotas, e nada muda na dinâmica da conversa. tento me distrair pensando em quando vou finalmente comer as romãs, mas o cômodo tem um ar estranho, um perfume me sufoca e confunde. enquanto a jovem mia bobagens e amenidades, tiro o celular do bolso e jogo no Google o nome da coroa, que copiei do cartão. nome diferente, nunca li nada assim. “Que línguas você fala?”, ela, “Inglês e espanhol”, eu, “Ótimo, mamãe fala muitas outras, já podem viajar bastante”. o clima não tá legal, eu não quero viajar com ninguém, eu fico tenso, o 4G não funciona direito. “Mamãe teve vários homens mas nenhum nunca deu certo. Acho que nenhum estava realmente pronto, sabe? E sempre acabam sumindo, hehe”.

 

III

 

fito a tela. a busca está completa. leio os resultados.

 

travo.

congelo.

 

IV

 

reúno forças e levanto e percebo a velha de volta ao quarto. sorrisinho, vestido e véu vermelho-sangue, quase flutua. penso em correr, mas um miado calmo soa como se viesse por toda parte, formando palavras que mais soam como portas que se fecham.

 

“Aonde é que você pensa que vai? Você fica. Você não vai a lugar nenhum”.

 

 

 

 

 

texto do Rômulo Candal

visual do Marco Antonio