Teu nome é tempo, vento, vendaval 0 155

Recreio em uma escola municipal, três anos atrás.

Era junho e o frio tinha começado a incomodar, o que fazia todo mundo ficar meio desconfortável e se vendo forçado a tirar as peças mais pesadas do guarda-roupa. Alunos, Pais & Mestres pareciam picolés, curiosamente. Todos meio duros dentro de toucas e jaquetas pesadas. Seria mais engraçado comentar este fato se todo mundo tivesse condições de ter roupas boas, mas isso não acontecia lá. Nós, da equipe da escola, fazíamos o possível para dar conforto a todos, permitindo que as crianças ficassem dentro das salas de aula nos piores dias.

Isa, Lu e Jé, as três de seis anos, saíram juntas da minha sala, como era rotina em todas as quartas-feiras daquele primeiro semestre letivo. Avisei do intervalo e elas começaram a se mostrar animadas através dos olhares que trocaram, por razões óbvias. Elas não gostavam da minha aula. Professora sabe quando o aluno é assim. Não me acho melhor que ninguém por gostar do que gosto, no caso matemática, ainda mais porque cada qual deve mesmo fazer o que quer, desde que aguente conviver com as consequências dos próprios atos. E embora as crianças não pensem nestes termos anteriores, elas também sabem de tudo, porque todo mundo sabe.

Quem forma nossos hábitos? Nossa Força de Vontade, ou sua irmã, a Apatia?

As três costumavam brincar de boneca num canto do pátio, inventando historinhas que às vezes contavam com príncipes encantados, às vezes não, às vezes contavam com provações e correria, aventura e griteiro, às vezes não etc. Nenhum colega existia para elas naqueles momentos. Parecia que elas gostavam mais de viver a imaginação que o normal da vida, caso esta divisão exista. Gosto desse método de uso do tempo – partindo da hipótese de que o tempo é mesmo algo utilizável como um objeto qualquer, tal como um garfo, uma régua ou um controle remoto.

Fiquei observando a cena. Estava tudo bem, até que a Lu decidiu acabar com a brincadeira. Ainda não tenho coragem de nomeá-la por extenso, o que é uma pena.

Interessa que ela era mal educada demais. Folgada, manhosa. Ainda bem que não preciso mais olhar para aquele rosto estranho e desafiador, cheio de perguntas, perdido. Em essência, acho que todos temos e somos nossos próprios desafios, estranhezas e descaminhos. Acho também que o problema do que penso ou não é inteiramente meu, pelo que peço licença, mas jamais desculpas.

A Demônia esperou as outras meninas se distraírem, pegou uma boneca sobressalente no contexto da fábula da vez e a escondeu atrás do bebedouro do pátio, ao lado de onde estavam. As outras duas quiseram usar, claro, exatamente aquela peça para alguma brincadeira por volta de quarenta segundos depois. Procuraram infrutiferamente pela região das pernas, atrás das lancheiras pequenas, e a sonsa então decidiu fingir que ajudava o grupo, Figura Má que era.

Observando o desespero das colegas, dirigi-me ao local e resolvi a situação, devolvendo o item ao lugar em que ele estava, tornando-o disponível novamente para o que quer que fosse.

Tenho ainda a imagem do olhar de desespero que Lu me lançou naquela hora. Ela não gostou do flagrante. Eu gostei um pouco, pelo que me arrependo.

O problema é que a perversidade dela naquela sequência de fatos denunciou a minha própria, já que só se lê em linguagem conhecida. Quanto ao desespero, foi ainda pior para mim. Desde então durmo mal, e às vezes chego a levantar para escrever nesse computador velho. Não funciona.

Marco Antonio Santos

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Futuro do pretérito 0 645

A pessoa mais bonita do mundo tem cor de amora, cheiro de mimosa e sabor de café. Isso pensava Gonzalo enquanto tocava pela última vez a campainha do número 157 da Rua Washington Luiz. Dora, a zeladora do edifício, fez questão de encontrá-lo na porta para lhe dizer que ela, a pessoa mais bonita do mundo, havia se mudado sem deixar direções.

Dora era uma senhora em torno de seus sessenta anos, vinha desses estados do interior onde há mais bicho que gente. Gostava em particular de Gonzalo porque com frequência ele lhe ajudava a carregar o lixo e sentia que essa notícia o destroçaria, no que estava correta. Pensava ainda que ela seria capaz de amenizar a situação, no que estava enganada. Tentou dizer-lhe que essas coisas acontecem e profetizou que tinha certeza que eles voltariam a se encontrar, sem prova nem convicção.

Por bem intencionada que fosse, a postura de Dora deixou Gonzalo ainda mais confuso. Ao tocar aquela campainha, esperava escutar a voz da pessoa mais bonita do mundo, dizendo-lhe que subisse àquele apartamento tão cheio de lembranças. Quando em vez disso se deparou com a presença da zeladora atribuiu-lhe muito mais autoridade do que ela tinha de fato. Com a voz trêmula perguntou Mas por que não me disse nada e por que não posso ser parte dos seus planos?

Certa como quem somente repete algo pela milésima vez, Dora lhe disse que o tempo é senhor da razão, daquele jeito que apenas os mais velhos costumam falar e que conduz ao desespero os mais jovens. Me ajuda, Dora disse Gonzalo, utilizando um imperativo tão impotente que sequer foi reconhecido como tal.

Enquanto aquela senhora abria a caixa de ferramentas de ditados populares sobre o amor, Gonzalo se perdia em meio ao nada que aquela ausência representava. Incapaz de articular seus pensamentos por meio de um código inteligível, abre a mochila, saca papel e caneta, rabisca num bloco de notas seu endereço e telefone e pede que a zeladora lhe procure, caso saiba algo sobre a pessoa mais bonita do mundo. Sem ouvir a resposta, se despede, agradece sem saber muito bem porquê e volta por onde veio, com os olhos fixos no chão, à distância constante de dois metros adiante.

Escolhi a rua Washington Luiz por causa do calçamento feito de ladrilhos. O apartamento 401 foi porque me pareceu estar à distância ideal em relação à rua. Nos momentos difíceis poderia me refugiar em meu castelo, vendo a vida dos outros passar pela janela. Além disso, o bairro era formado por construções térreas e era possível avistar as montanhas no horizonte.

Uma última razão para a escolha: o apartamento vinha mobiliado. Eu não queria gastar dinheiro com móveis e nem ter que levar muitas coisas quando fosse embora. Os móveis eram antigos, mas não do jeito de uma casa habitada por muito tempo pelo mesmo casal de avós. Ao contrário, eram antigos como se vários casais de avós tivessem vivido ali ao mesmo tempo.

Quando cheguei para fazer a mudança trazendo um par de panelas e uma mochila com objetos pessoais, fui recebido por uma senhora que me pareceu particularmente antipática. Antes de se apresentar me obrigou a subir pelo elevador de serviço enquanto explicava as regras do condomínio. Por fim me disse que seu nome era Dora e se colocou a minha disposição, secretamente esperava jamais precisar dela.

O armário do quarto era tão grande que minhas coisas não ocupavam sequer a metade do espaço. Na época eu tinha uma convicção consciente e jamais expressada verbalmente, de que essa era minha contribuição ao Universo. Ocupar o menor espaço possível. Muito ajuda quem não atrapalha, pensava enquanto um sorriso se esboçava em meu rosto.

Alguns meses depois Dora me entregou uma carta. O remetente identificou o endereço de um quarto de hotel na Romênia. Tinha uma caligrafia impecável, se notava seu capricho com os traços, mas não se identificou no lado de fora do envelope.

Bucareste, 29 de setembro de 2028

Querido Gonzalo,

Se você está lendo essa carta, a máquina do tempo funcionou. É uma pena, porque isso quer dizer que você não se lembra de nada do que vivemos juntos.

Da minha parte talvez as coisas sejam ainda mais confusas, porque me recordo de tudo sem que nada tenha acontecido. É interessante, ter memórias do que não houve. Viver uma experiência sem testemunhas é bem parecido com sonhar. Acho que por isso te escrevo essa carta. Mas pode ser só covardia por não ter tido coragem para me despedir.

Lembro-me de quando nos conhecemos. Foi há exatos dez anos para mim. Mas realmente não sei quando você pode ter recebido essa carta. Engraçado, sempre te escrevi cartas e uma das minhas grandes preocupações é que elas chegavam sempre atrasadas. Te dizia que ler uma carta é como olhar para o passado, e você me respondia que passava a mesma coisa com as estrelas e que a beleza era a mesma. A ironia é que agora te escrevo uma carta no futuro, para que você a leia no passado.

Você passou (passou? passara? passará? que tempo utilizar nessa situação?) por baixo da amoreira da esquina da rua Washington Luiz, onde eu vivia, com a alameda Dom Pedro, onde você vivia. Quis chamar sua atenção e atirei-lhe uma amora que te manchou a camiseta branca. Pedi desculpas falsas e você respondeu que não tinha problema Só estou indo fazer exercícios ali na praça. Como eu gostava de ouvir a sua voz…

Tratei de comer amoras todos os dias no mesmo horário, na esperança de te ver. Quando a primavera acabou e a árvore deixou de dar frutos, indiscretamente passei a ir direto à praça comer mimosas perto dos equipamentos de exercício. Adorava ver sua dedicação, mas o que me dava prazer era depois vir à minha casa e te preparar café enquanto trocávamos de posição, e agora era você quem me observava com uma admiração que jamais entendi.

Me dizia que eu era a pessoa mais bonita do mundo e que as vezes eu parecia um sonho. Eu achava engraçado. Com tanta gente bonita por aí. Você sempre repetia que nenhuma delas tinha cor de amora e me dava ternura perceber que você era um tonto por não perceber que eu só refletia teu olhar.

Foi perto do outono. Acordei e não conseguia me lembrar o nome da senhora que trabalhava em meu edifício. Percebi que era hora de partir. Já havia vivido o suficiente para saber que logo me esqueceria do que vivemos. Não podia suportá-lo. Sei que foi egoísta de minha parte, mas não podia abrir mão dessas lembranças.

Inventei uma desculpa e te disse que iria a um congresso, mas que voltaria na semana seguinte , mesmo sabendo que não era possível.

Tinha esperanças de que essa carta pudesse te trazer essas memórias novamente e que você me encontrasse aqui em Bucareste, mas talvez tudo isso tenha mesmo sido um sonho meu.

O telefone toca e quando atende escuta a voz do recepcionista do hotel:

– Senhor Francisco, um cavalheiro chamado Gonzalo acaba de chegar. Diz que o conhece e que gostaria de vê-lo.

Ilustração: Gustavo Ogg

Ressaca 0 325

Dilmara deu a última vassourada que cabia em suas forças e sentou numa cadeira de plástico, secou uma garrafinha de água em dois goles e já largou o lixo na pilha. Não era o caso de negar fogo no trabalho, só que precisava soltar as pernas antes de pegar a pá e seguir. O conflito com o chão foi longo, cheio de desentendimentos por coisas pequenas. Mas ela bem sabia que as costas não aguentavam mais algumas acrobacias do passado. Atleta, reclamava para si por amor ao esporte, sabendo que não adiantava, mas reclamava e reclamava e reclamava. Pegou um formulário de cima da mesa em frente e uma caneta promocional: “Danos às paredes: s”, “Resíduos f/ lixeiras: s”, “Chão riscado: s, “parte elétrica 100%: n (duas lâmp’s), “Louça na pia: s”, “Barulho depois das 22h: s (relato – Reginaldo/108)”. Sabia do tamanho da bomba que tinha em mãos, até soltou o papel e afastou o tronco de braços erguidos. Seria emissária de notícias desagradáveis contra sua vontade, depois quem pudesse que se salvasse. Mas alguém tinha que fazer o serviço.

O síndico, o Professor, professor de verdade (Educação Física), era um carequinha solitário, cheio de dedos com a manutenção dos espaços comuns – o que se devia a ser ao mesmo tempo um sujeito: decente; chato.

Uma ventania dominou o salão, as janelas tremeram e afinaram-se numa oitava muito alta. A zeladora pôs os pés no chão e sentou direito, sentindo coisa ruim. O Professor apareceu no rabo da lufada: “E aí? Te falei que a Administradora liberou uma comissão pra você se a gente multar esses porcos, né?”, “Não quero dinheiro sujo não, Professor, só tô na minha função de todo dia, com zona ou não. Mas que festa era essa? Trinta pessoas? Bagunça dessa não se faz”.

O homem vestiu sua satisfação como uma medalha, auto-condecorado pelo sucesso de uma missão que só ele entendia. Sentia-se um justiçador, o último dos cangaceiros, o cara que era o bichão, a própria Palas Atena renascida – o que nunca tinha conseguido por outros caminhos. Via-se disposto a fazer o máximo com o mínimo, a tirar limonada de qualquer limãozinho murcho que a vida despejasse na cestinha dele. Perdoar morador malandro de novo seria uma vergonha. Sacou o celular depois de um piiiiin que veio como flecha: “Sabia que a Claro eh a 1a a oferecer ligações ilimitadas p/ qq operadora e tem uma rede novinha c/ 4G mais rápido do Brasil? E ai ta dentro? Acesse …”. Não teve dúvida: fechou a cara, simulou falta e pediu pra sair, tratando a mensagem com uma importância que ela jamais teria. Acenou tchau de um jeitão muito estranho e deslizou para fora do salão com a mesma atitude súbita com que chegou. A mulher fechou as janelas e juntou com os pés umas latinhas que o vento desjuntou; pegou um sacolão azul e fez um sinal da cruz antes de continuar.

 

Marquinho